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Olga Futemma

São Paulo / SP - Brasil
71 anos, cineasta e diretora da Cinemateca Brasileira

Rompendo as tradições de família


Meus irmãos pegaram bastante a fase de festas de jovens japoneses. Eu achava meio estranho, porque as moças ficavam sentadinhas, beirando as paredes, e os rapazes iam tirar as moças, o que as deixava numa situação desfavorável, né? Eles é que escolhiam. No colégio, comecei a fazer teatro, minha vida já estava em outro lugar. Houve um momento no fim da adolescência, um pouco antes da universidade, em que fui para o lado oposto. Não queria contato com japoneses, queria a imersão no mundo ocidental.

Entrei na universidade em 1970, com toda a experiência de 1968 ainda muito forte. Alguns grupos continuavam com a movimentação política estudantil, e eu fiz muito contato com esse pessoal. Queria pensar como cidadão brasileira, entender pelo o quê eu deveria lutar. Mas nunca me distanciei da minha família. Eles deviam achar muito esquisito, não tinham idéia do que eu fazia na faculdade, mas era uma coisa de confiança. Davam orientações, tipo “casar é com okinawano, não vai me casar com japonês”.

Mal sabiam eles que eu me atraía bastante por não-descendentes. E é engraçado como a minha família foi evoluíndo. Meus três irmãos se casaram com japoneses de família não-okinawana. Aí, quando chegou minha vez, eu primeiro não casei, fui companheira do (jornalista e cineasta) Renato Tapajós durante 24 anos e ele era desquitado e brasileiro. Isso foi sendo incorporado com apreensão, mas sem traumas. Teve só um dia em que minha mãe falou “mas ele é barbudo!” (risos).

Sobretudo quando nasceu o Bruno, meu primeiro filho, meus pais ficaram muito próximos de nós. Quando meu pai ficou doente, tínhamos longas conversas na sala de espera do médico. Ele era um homem de grandes gestos, e minha mãe não, minha mãe é a resistência. Eles se completaram muito bem. Apesar de ter sido um casamento de miai, no final da vida, certa feita meu pai me disse “não conhecia, né? Mas foi loteria, eu ganhei na loteria”. Acho que, depois de 50 anos de casados, um homem falar assim de sua mulher é muito bonito.

Depoimento ao jornalista Leo Nishihata
Fotos: Carlos Villalba e arquivo pessoal de Olga Futemma


Enviada em: 19/05/2008 | Última modificação: 23/06/2008
 
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Comentários

  1. Valdete Shizuko Tamashiro @ 20 Mai, 2008 : 17:11
    Olga Futemma. Esse nome e o filme "Hia Sá Sá – Hay Yah!" há tempos não me sai da cabeça. Como gostaria de assistir a esse filme! Será que está disponível / será exibido em algum lugar? Olga, seu depoimento foi belo! As histórias da família são bastante parecidas com as minhas e creio que de muitos okinawanos, imigrantes e descendentes. E a questão da arte, tão presente nos okinawanos. A festa, a celebração, a alegria que existe em cada casa uchinanchu! Parabéns pelo depoimento! E não descanso enquanto não assistir ao Hia Sá Sá – Hay Yah! Abraços enormes!

  2. Lucas Kenzo Dakuzaku @ 23 Mai, 2008 : 01:02
    Olá Olga! Fiquei contente em saber que exite uchinanchu no ramo da arte do cinema no Brasil. Tenho 17 anos e não conheço seus trabalhos, mas me interessei pelo "Hia Sá Sá - Hay Yah!". Seu depoimento sobre a época em que os ojis e obás se reuniam pra tocar shamisen e cantar, fez lembrar as histórias que meu pai conta de quando ele era garoto. E por acaso, eu toco shamisen e taiko hehehe.... Bom, é isso aí. Parabéns pelo seu trabalho. Saúde e sucesso... até+!

  3. Rita de Cássia Arruda @ 26 Mai, 2008 : 00:14
    Cara Olga: Lendo seus relatos, consegue-se entender bem o significado daquela expressão “alma de artista”. Em sua casa, ao que pude perceber, respirava-se cultura. Essa sua opção pela “sétima arte”, assim, parece um dado natural e decorrente do ambiente em que você foi educada. Adorei ler seus depoimentos. Seu pai deve ter sido uma figura e tanto. Também achei interessantíssimo o que você falou sobre o povo de Okinawa. Eu não fazia idéia dessa alegria esfuziante dos okinawanos. Foi uma grata surpresa tomar conhecimento desse fato. Você foi pioneira, iconoclasta, quebrou regras e apesar de ter rompido com as tradições familiares soube como cativar o afeto de seus entes queridos. Enfim... Virei sua fã. Obrigada por compartilhar conosco suas histórias. Um abraço carinhoso.

  4. Matilde M Y Tanabe @ 28 Mai, 2008 : 18:57
    Olá Olga:Sua história com maiores detalhes foi mostrada na TV Globo.Voce ocupa um espaço que muito me orgulha(diretora da cinemateca Brasileira),família de músicos,vida de muita garra e coragem, hoje podemos dizer "a imigração valeu a pena" abraços Ps.da galeria de fotos o prof de shamissen Seihin Yamauchi era tio do meu pai,ele foi tambem pianista, músico e divulgador da música clássica de Okinawa em vários países (in memoria)

  5. Regina Hara @ 29 Mai, 2008 : 12:42
    Amiga Olga! Seja através da sua história ou da imprensa, continuo tendo uma profunda admiração pelo seu dinamismo e espírito de luta que voce sempre teve. Sinto saudades das suas aulas de Liang Cong que voce fazia com muito carinho. Apesar de ter rompido as tradições, voce tem sempre presente a tal da "paciência oriental" Também escrevi a história da minha avó "a imigrante que viveu 106 anos" neste site. Mande notícias. beijos

  6. Massa Goto @ 10 Abr, 2011 : 17:36
    Olga, quando li a tua estória, do Mercado Municipal, da Rua Cantareira, deu uma saudade daquela época do CESP... Tem um pessoal do CESP fazendo um cadastro dos ex-cespeanos e gostaria de te incluir juntamente com a Rita Okamura, porém não tenho nenhum contato de vocês. O meu e-mail é: gotomassa@gmail.com

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