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Olga Futemma

São Paulo / SP - Brasil
71 anos, cineasta e diretora da Cinemateca Brasileira

A musicalidade dos okinawanos


A rotina aqui era absolutamente massacrante. Meus pais acordavam às 2h da manhã, iam para o Mercado Municipal descarregar os caminhões e às 4h preparavam os tablados. Lá pelas 5h, chegavam os clientes feirantes. Das 7h até o meio-dia, vinham os particulares. Voltavam para casa, almoçavam, dormiam um pouco e às 17h iam para o Ceasa fazer compras para o dia seguinte. Nunca dormiam 8 horas seguidas, e levaram essa vida por mais de 30 anos.

Havia todo um grupo de okinawanos trabalhando no Mercadão. Isso formou um sentimento de comunidade muito forte. Vivia entre aquelas senhoras, e não me lembro de uma experiência tão gentil e doce, dá muita saudade. Okinawa é um arquipélago separado, com dialeto diferente. A cultura é uma mistura de influências: Japão, Coréia, China, Micronésia.

Durante muito tempo, os okinawanos foram um terceiro elemento, à parte dos japoneses, apesar do brasileiro não distinguir um do outro. Podemos falar em termos de preconceito, como sempre existe quando há subgrupos. Mesmo no Kasato Maru, havia grande porcentagem de okinawanos. Trata-se de uma província mais pobre, e as levas migratórias tradicionalmente começam pelas populações mais pobres.

Ao mesmo tempo, um traço cultural muito forte dessa comunidade é a sua extrema musicalidade. Meu avô praticava canto clássico, meu tio também, meu pai tocava taiko, minha irmã desde os quatro anos é uma grande dançarina de bailado clássico okinawano. Todos os senhores do mercado se reuniam sábado e domingo na casa do meu avô para ensaiar canto, aquilo ressoava pela casa toda.

Os grupos de okinawanos da Vila Prudente, Vila Carrão e Casa Verde [bairros de São Paulo] eram muito nítidos, havia certa rivalidade nos festivais de dança, cada professor tinha um estilo. As mulheres tocavam koto, os homens shamisen, e isso ia temperando a vida, dava calor a essa rotina massacrante.

Depoimento ao jornalista Leo Nishihata
Fotos: Carlos Villalba e arquivo pessoal de Olga Futemma


Enviada em: 19/05/2008 | Última modificação: 23/06/2008
 
« Cinema em casa Perdidos na selva »

 

Comentários

  1. Valdete Shizuko Tamashiro @ 20 Mai, 2008 : 17:11
    Olga Futemma. Esse nome e o filme "Hia Sá Sá – Hay Yah!" há tempos não me sai da cabeça. Como gostaria de assistir a esse filme! Será que está disponível / será exibido em algum lugar? Olga, seu depoimento foi belo! As histórias da família são bastante parecidas com as minhas e creio que de muitos okinawanos, imigrantes e descendentes. E a questão da arte, tão presente nos okinawanos. A festa, a celebração, a alegria que existe em cada casa uchinanchu! Parabéns pelo depoimento! E não descanso enquanto não assistir ao Hia Sá Sá – Hay Yah! Abraços enormes!

  2. Lucas Kenzo Dakuzaku @ 23 Mai, 2008 : 01:02
    Olá Olga! Fiquei contente em saber que exite uchinanchu no ramo da arte do cinema no Brasil. Tenho 17 anos e não conheço seus trabalhos, mas me interessei pelo "Hia Sá Sá - Hay Yah!". Seu depoimento sobre a época em que os ojis e obás se reuniam pra tocar shamisen e cantar, fez lembrar as histórias que meu pai conta de quando ele era garoto. E por acaso, eu toco shamisen e taiko hehehe.... Bom, é isso aí. Parabéns pelo seu trabalho. Saúde e sucesso... até+!

  3. Rita de Cássia Arruda @ 26 Mai, 2008 : 00:14
    Cara Olga: Lendo seus relatos, consegue-se entender bem o significado daquela expressão “alma de artista”. Em sua casa, ao que pude perceber, respirava-se cultura. Essa sua opção pela “sétima arte”, assim, parece um dado natural e decorrente do ambiente em que você foi educada. Adorei ler seus depoimentos. Seu pai deve ter sido uma figura e tanto. Também achei interessantíssimo o que você falou sobre o povo de Okinawa. Eu não fazia idéia dessa alegria esfuziante dos okinawanos. Foi uma grata surpresa tomar conhecimento desse fato. Você foi pioneira, iconoclasta, quebrou regras e apesar de ter rompido com as tradições familiares soube como cativar o afeto de seus entes queridos. Enfim... Virei sua fã. Obrigada por compartilhar conosco suas histórias. Um abraço carinhoso.

  4. Matilde M Y Tanabe @ 28 Mai, 2008 : 18:57
    Olá Olga:Sua história com maiores detalhes foi mostrada na TV Globo.Voce ocupa um espaço que muito me orgulha(diretora da cinemateca Brasileira),família de músicos,vida de muita garra e coragem, hoje podemos dizer "a imigração valeu a pena" abraços Ps.da galeria de fotos o prof de shamissen Seihin Yamauchi era tio do meu pai,ele foi tambem pianista, músico e divulgador da música clássica de Okinawa em vários países (in memoria)

  5. Regina Hara @ 29 Mai, 2008 : 12:42
    Amiga Olga! Seja através da sua história ou da imprensa, continuo tendo uma profunda admiração pelo seu dinamismo e espírito de luta que voce sempre teve. Sinto saudades das suas aulas de Liang Cong que voce fazia com muito carinho. Apesar de ter rompido as tradições, voce tem sempre presente a tal da "paciência oriental" Também escrevi a história da minha avó "a imigrante que viveu 106 anos" neste site. Mande notícias. beijos

  6. Massa Goto @ 10 Abr, 2011 : 17:36
    Olga, quando li a tua estória, do Mercado Municipal, da Rua Cantareira, deu uma saudade daquela época do CESP... Tem um pessoal do CESP fazendo um cadastro dos ex-cespeanos e gostaria de te incluir juntamente com a Rita Okamura, porém não tenho nenhum contato de vocês. O meu e-mail é: gotomassa@gmail.com

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