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Jorge J. Okubaro

São Paulo / SP - Brasil
74 anos, jornalista

A idéia de um livro


Em muitas famílias de imigrantes japoneses, talvez na maioria delas, terá havido algum membro que pensou em registrar em livro sua história. Por isso, certamente a idéia de escrever um livro sobre minha família – e que resultou na obra O Súdito (Banzai, Massateru!) (Editora Terceiro Nome), de minha autoria – não era inédita.

Nem nova, acrescento. Há anos se dizia, em rodas familiares, que um dia alguém teria de escrever nossa história. Por razões de ofício – em casa, sou o único de minha geração que vive de escrever –, fui incumbido da tarefa. Mas, no fundo, era uma incumbência teórica, a ser cumprida se e quando possível, quando houvesse uma oportunidade.

A oportunidade surgiu por volta do ano 2000, quando foi lançado o livro Corações Sujos, de Fernando Morais, que trata de um aspecto da história da Shindoo Renmei, uma organização nacionalista formada logo depois de terminada a Segunda Guerra com a finalidade de disseminar a idéia de que o Japão ganhara a guerra. O livro é ótimo, muito bem escrito. Mas não esclarecia questões que me intrigavam desde o dia em que soube que meu pai uma dia fora metido atrás das grades por pertencer à Shindoo Renmei, que quer dizer “Liga do Caminho dos Súditos” – daí o título de meu livro, “O Súdito”.

O livro de Fernando Morais relata a organização, a preparação, a execução de atentados – a maioria dos quais resultou na morte da vítima – praticados por membros da Shindoo Renmei. É o lado mais negro da história da imigração japonesa no Brasil. Mas o livro deixa a impressão de que os japoneses eram um bando de bárbaros, incapazes de compreender os fatos e dispostos a praticar as coisas mais horrendas que a espécie humana é capaz de conceber. Considerando-se que, de acordo com as autoridades policiais, de 80% a 90% dos imigrantes japoneses eram associados da organização ou a apoiavam de algum modo, seriam bárbaros os imigrantes japoneses?

Já numa resenha do livro Corações Sujos que publiquei no Caderno de Sábado do Jornal da Tarde, em 10 de fevereiro de 2001, procurei alinhar argumentos para tentar responder a essa indagação. Dei à resenha o título “Os anônimos da Shindo Renmei” (foi esta a grafia que adotei na época). Transformei meu pai num personagem para contrapô-lo aos personagens descritos no livro de Fernando Morais. Massateru, o meu pai, era um anônimo se cotejado com os personagens que fazem parte do livro de Fernando Morais. Na resenha, procurei mostrar como, por suas crenças arraigadas, por sua formação escolar, por seus hábitos, pelos valores éticos que adquiriu em criança e consolidou ao longo da vida, um imigrante como ele não poderia pensar de maneira diferente no fim do grande conflito mundial. Por tudo que ele aprendera e por tudo em que ele acreditava, o Japão não podia ter perdido a guerra – portanto, a vencera.

Mas eu não queria escrever um livro sobre a Shindoo Renmei. Pretendia escrever a biografia de meu pai, suas condições de vida ao nascer, sua formação, as razões pelas quais tivera de emigrar – ninguém emigra naquelas condições porque quer, mas porque as circunstâncias o obrigam a partir em busca de vida melhor –, sua chegada, suas sensações do outro lado do mundo, suas agruras e seus prazeres, sua história.

Comecei a ler tudo o que se escreveu sobre imigração japonesa no Brasil. Uma leitura me remetia a outras. Anotava as referências bibliográficas e saía à cata dos títulos de que ainda não dispunha. Num sebo no centro velho da cidade de São Paulo, encontrei um vendedor que, não sei por que motivo, tinha um pacote de livros sobre japoneses e imigração japonesa. Eram uns 15 títulos. Nem perguntei o preço. “Aceita cartão de crédito?”. Comprei tudo.

Contei, felizmente, com a generosa ajuda de um amigo juiz de Direito, que me abriu as portas do Poder Judiciário para solicitar o desarquivamento do Processo Judicial da Shindoo Renmei, pois esse era um documento essencial da minha pesquisa. Tive acesso a todos os volumes do processo, considerado então o maior da história do Judiciário brasileiro.


Enviada em: 18/12/2007 | Última modificação: 19/12/2007
 
« A biografia de um imigrante: meu pai

 

Comentários

  1. Suzana Tachibana @ 5 Jan, 2008 : 00:28
    Sr. Jorge Okubaro, assisti à sua entrevista no Jo Onze e Meia, ganhei de presente o livro O Súdito e comentei no meu blog (nozomi.zip.net) também. É um trabalho muito rico sobre os okinawanos, com especial atenção para os dados estatísticos, totalmente desconhecidos. Espero que seja traduzido para o japonês, para que os uchinanchus do Brasil o apreciem também.

  2. Yassuda Renato @ 11 Jan, 2008 : 09:26
    Prezado Jorge Okaburo; Parabéns pelo seu depoimento. Entendo perfeitamente suas razões ao escrever o livro "O Súdito". Li o livro "Corações Sujos" e também seu livro. Foi muito importante oferecer ao público uma análise do assunto feita por outra ótica que não a exclusiva e fria relação dos fatos ocorridos naqueles tempos.As relações humanas são complexas demais para que se estabeleçam versões únicas e absolutas à seu respeito.Também lhe convido a ler minha "história de vida" neste site e os desdobramentos que ocorreram no blog da redação. Ficarei muito honrado e grato.

  3. Tat@ @ 25 Jan, 2008 : 16:14
    Comprei o seu livro "O Súdito",mais por curiosidade, e à medida que fui avançando na leitura, fiquei emocionada. Ao ler o relato da viagem no navio e a vida aqui no Brasil, vi como os imigrantes lutaram muito pela sobrevivência. Sou admiradora dos Okinawanos, e este livro mostrou a cultura e os costumes, que eu pouco conhecia. Parabéns e "Banzai"

  4. Luci Suzuki @ 27 Jan, 2008 : 12:56
    Sr Okubaro, levada por grande interesse que a figura humana de seu pai me despertou, me permití fazer uma busca por mais detalhes a respeito do seu trabalho, o livro “Os Súditos”. Suponho que tenha lhe custado muitas horas de sono, ao mergulhar em centenas de documentos, entrevistas e leituras de mais de 50 livros correlacionados. Terei grande prazer em obtê-lo, assim que possível. Dado o seu longo percurso profissional e a capacidade de contrapor a diferentes teses a partir do próprio contexto no qual viveu – familiar e comunitário - são pressupostos suficientes para endossar o que o sr. Renato Yassuda já traduziu brilhantemente no comentário acima. Como sugere o seu conterrâneo, o escritor e jornalista Ignácio de Loyola Brandão, sua leitura será, de fato, imperdível. Se desejarmos que a História não se resuma em estatísticas. Abraços, Luci

  5. Ciro Saito @ 29 Jan, 2008 : 00:07
    Eu li "O Súdito" em duas noites. Me tornei um admirador de Jorge Okubaro. O livro está em lugar especial ao lado de Tomoo Handa, José Yamashiro, Hiroshi Saito e Fernando Morais. Esta obra presta um grande serviço na divulgação da verdadeira história da imigração japonesa.

  6. Thomas Suzuki @ 31 Jan, 2008 : 14:43
    Gambarê! A colônia japonesa no Brasil tem suas peculiaridades. Há o que pode ser dito abertamente e aquilo que todos sabem, mas esconde-se sob véus. Espero que o livro não tenha dificuldades, pois é parte importante da preservação da cultura Okinawa no Brasil. Abraço! Do seu amigo de Araraquara e agora em São Paulo!

  7. Márcia Y. Takeda @ 11 Fev, 2008 : 06:02
    Lí o seu livro "O Súdito", e depois da leitura, passei para muitos amigos aquí no Japão. Um livro dessa importância a gente tem orgulho de recomendar. Se fosse traduzido em japonês, recomendaria a muitos amigos por aquí, mas enqto isso, é importante que nós brasileiros conheçamos a própria história. Márcia

  8. Mauro Kyotoku @ 18 Jun, 2008 : 12:10
    Okubaro-san, omedetoo. Soube de seu livro através deste sítio e mandei buscar em São Paulo, simbolicamente foi comprada na livraria Taiyodo, apesar de poder comprar no sitio da Submarino. Lembro-me, sem muita convicção, que lá adquiri o meu segundo judô-gui, todo trançado. Okubaro-san , foi a primeira vez que li, pormenores da história do Shindoo-Renmei. Não procurei ler no livro do Fernando Morais por achar que ele não poderia captar a alma do imigrante japonês neste terrível episódio, como você tentou dignamente fazer através do seu pai, Massateru Hokubaru. Para mim este episódio marcou a ruptura da comunidade nipo-brasileira. Atribuo a ele, uma das razões, da não reconstrução das escolas japonesas. Imagino que este fato foi uma perda terrível para a manutenção de uma identidade cultural, pois considero a escrita o canal principal de transmissão cultural. Se tivéssemos seguido este viés, combinado com o progresso econômico obtido pela sociedade japonesa e associado com o processo de globalização, a nossa contribuição para a sociedade brasileira poderia ter sido muito maior do que é hoje. São as escolhas sociais que as comunidades fazem. Fechamos esta janela e abrimos outras, a maioria individualmente e algumas coletivamente, vide a comunidade Yuba, que não é a solução. Como você mesmo narra, seu pai não participaria mais dos Tanomoshi que sempre deram o sentido de coletividade e honestidade, tão característicos da alma japonesa e que nos primeiros anos da imigração ajudariam capitalizar pequenos empreendimentos para fugir da miséria. Se refletirmos um pouco a iniciativa de micro-crédito do Prof. Muhammad Yunus (Premio Nobel da Paz) através do Grameen Bank em Bangladesh é uma evoluçaõ do Tanomoshi, que inclusive existiam ou existem em pequena escala em muitas sociedades asiáticas. A contrapartida disto foi uma maior integração na sociedade brasileira, onde o individualismo cresce cada vez mais, a busca do brilho vazio, sem substância é cada vez maior e as conquistas futebolísticas um fator de “orgulho” nacional. Vejo inclusive na valorização excessiva da riqueza material em contrapartida da espiritual muito marcante na vida seu pai Okubaro-San. A característica do imigrante econômico (dekassegui) é a procura do enriquecimento, mas a alma e o processo predatório não podem ir juntos. Aqui na Paraíba ouço muitos nordestinos elogiando os patrões paulistas de origem nipônica, pela justeza de tratamento. Mas, será que a história de nossas vidas será assim daqui em diante, fica o desafio Okubaro-San e neste dia 18 de junho gostaria de enfatizar o exemplo marcante de seu pai e de sua mãe, perpetuado neste pequeno capítulo da história brasileira. Parabéns novamente Jornalista Jorge Junzi Okubaro e abraços sinceros a Nena (também em, in memoriam) figura silenciosa que mais me comoveu neste seu livro.

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