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Jorge J. Okubaro

São Paulo / SP - Brasil
74 anos, jornalista

A biografia de um imigrante: meu pai


Mas é importante destacar que, apesar do interesse que desperta no leitor, o episódio da Shindoo Renmei não é o centro, talvez nem o relato principal, de meu livro. O que procurei escrever foi um livro que, tendo como fio condutor a biografia de um imigrante comum, um homem comum, trouxesse um painel do processo da imigração japonesa no Brasil. Procurei colocar esse painel sobre um campo mais amplo, a história do Japão no período, sua evolução política, econômica e social; a história da Okinawa em que meu pai nasceu e viveu seus primeiros anos; a história do Brasil que recebe os imigrantes japoneses e se transforma com rapidez na primeira metade do século 20.

Do ponto de vista de estilo, procurei fugir do texto jornalístico, embora em muitos momentos tenha procurado inspiração no que os melhores textos jornalísticos têm para nos ensinar. Evitei, entretanto, a combinação indispensável das características essenciais do bom texto jornalístico, que são a precisão, a concisão, a clareza, a elegância, a frieza possível na exposição dos fatos. Não que abdicasse dessas características. Apenas entendi que juntas, indissoluvelmente unidas, elas poderiam retirar emoção de um texto que eu pretendia que fosse literário.

Para dar um caráter humano, falível ao meu personagem principal, mostrei suas fraquezas, sem, como contraponto, superestimar suas qualidades. Fiz dele, como disse, um homem comum, com virtudes e defeitos. É um homem como outros homens. Com valores específicos de um homem formado intelectualmente na Era Meiji, um súdito do Império Japonês, daí, mais uma vez, o título do livro.

Para dar concretude, credibilidade, verossimilhança ao personagem principal, procurei como que entrar na sua mente, pensar com ele, pensar como ele, sentir duas aflições, suas angústias, suas incertezas, seus temores. É, por certo, um recurso literário que, objetivamente, retira do livro o caráter documental. Mas o resultado, a meu ver, não destoa do conjunto do livro.

Trouxe para dentro dele cenas do cotidiano. O afiar da navalha para barbear, o sacrifício do porco, a preparação de uma sopa de cabrito, as broncas, algumas homéricas, nos filhos, os momentos raros de prazer e felicidade, a dura tarefa de colher com as mãos o fruto do cafeeiro, a geada, a malária, a difteria, a morte, a vida.

O subtítulo do livro, “Banzai, Massateru!” merece explicação. A palavra “banzai” é carregada de significados. Foi a expressão que os imigrantes que chegaram ao Brasil antes da guerra usaram em ocasiões festivas, como casamentos. Essa era também a maneira formal, solene de se saudar o imperador. Quando partiam para o sacrifício, os pilotos dos aviões-bomba empregados na etapa final da guerra do Pacífico, os kamikaze, diziam “Ten’noo Heika, Banzai!”, ou “Mil vidas ao Imperador”, “Viva o Imperador!”, “Salve o Imperador!”. É uma palavra que tem uma carga política e ideológica muito forte.

Modernamente, a saudação em japonês é “Kampai!”. Preferi, no entanto, a forma antiga, que na minha memória é como saudávamos um grande feito, um evento ou uma pessoa merecedora da saudação. É, assim, uma maneira de saudar meu pai e, saudando-o, saudar os imigrantes japoneses no Brasil.

______________
* Jorge J. Okubaro nasceu em Araraquara no dia 26 de julho de 1946. Jornalista profissional há quase 40 anos, trabalha desde 1989 no Grupo Estado, onde exerce a função de editorialista do jornal “O Estado de S. Paulo”. Além de “O Súdito (Banzai, Massateru!)” (Editora Terceiro Nome) – indicado como um dos finalistas do Prêmio Jabuti, categoria reportagem, de 2007 –, é autor também do livro “O Automóvel, um Condenado?” (Editora Senac), no qual destaca o papel relevante do automóvel na sociedade contemporânea e discute seu futuro, diante das crescentes restrições que vêm sendo impostas a seu uso em todo o mundo.


Enviada em: 18/12/2007 | Última modificação: 19/12/2007
 
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Comentários

  1. Suzana Tachibana @ 5 Jan, 2008 : 00:28
    Sr. Jorge Okubaro, assisti à sua entrevista no Jo Onze e Meia, ganhei de presente o livro O Súdito e comentei no meu blog (nozomi.zip.net) também. É um trabalho muito rico sobre os okinawanos, com especial atenção para os dados estatísticos, totalmente desconhecidos. Espero que seja traduzido para o japonês, para que os uchinanchus do Brasil o apreciem também.

  2. Yassuda Renato @ 11 Jan, 2008 : 09:26
    Prezado Jorge Okaburo; Parabéns pelo seu depoimento. Entendo perfeitamente suas razões ao escrever o livro "O Súdito". Li o livro "Corações Sujos" e também seu livro. Foi muito importante oferecer ao público uma análise do assunto feita por outra ótica que não a exclusiva e fria relação dos fatos ocorridos naqueles tempos.As relações humanas são complexas demais para que se estabeleçam versões únicas e absolutas à seu respeito.Também lhe convido a ler minha "história de vida" neste site e os desdobramentos que ocorreram no blog da redação. Ficarei muito honrado e grato.

  3. Tat@ @ 25 Jan, 2008 : 16:14
    Comprei o seu livro "O Súdito",mais por curiosidade, e à medida que fui avançando na leitura, fiquei emocionada. Ao ler o relato da viagem no navio e a vida aqui no Brasil, vi como os imigrantes lutaram muito pela sobrevivência. Sou admiradora dos Okinawanos, e este livro mostrou a cultura e os costumes, que eu pouco conhecia. Parabéns e "Banzai"

  4. Luci Suzuki @ 27 Jan, 2008 : 12:56
    Sr Okubaro, levada por grande interesse que a figura humana de seu pai me despertou, me permití fazer uma busca por mais detalhes a respeito do seu trabalho, o livro “Os Súditos”. Suponho que tenha lhe custado muitas horas de sono, ao mergulhar em centenas de documentos, entrevistas e leituras de mais de 50 livros correlacionados. Terei grande prazer em obtê-lo, assim que possível. Dado o seu longo percurso profissional e a capacidade de contrapor a diferentes teses a partir do próprio contexto no qual viveu – familiar e comunitário - são pressupostos suficientes para endossar o que o sr. Renato Yassuda já traduziu brilhantemente no comentário acima. Como sugere o seu conterrâneo, o escritor e jornalista Ignácio de Loyola Brandão, sua leitura será, de fato, imperdível. Se desejarmos que a História não se resuma em estatísticas. Abraços, Luci

  5. Ciro Saito @ 29 Jan, 2008 : 00:07
    Eu li "O Súdito" em duas noites. Me tornei um admirador de Jorge Okubaro. O livro está em lugar especial ao lado de Tomoo Handa, José Yamashiro, Hiroshi Saito e Fernando Morais. Esta obra presta um grande serviço na divulgação da verdadeira história da imigração japonesa.

  6. Thomas Suzuki @ 31 Jan, 2008 : 14:43
    Gambarê! A colônia japonesa no Brasil tem suas peculiaridades. Há o que pode ser dito abertamente e aquilo que todos sabem, mas esconde-se sob véus. Espero que o livro não tenha dificuldades, pois é parte importante da preservação da cultura Okinawa no Brasil. Abraço! Do seu amigo de Araraquara e agora em São Paulo!

  7. Márcia Y. Takeda @ 11 Fev, 2008 : 06:02
    Lí o seu livro "O Súdito", e depois da leitura, passei para muitos amigos aquí no Japão. Um livro dessa importância a gente tem orgulho de recomendar. Se fosse traduzido em japonês, recomendaria a muitos amigos por aquí, mas enqto isso, é importante que nós brasileiros conheçamos a própria história. Márcia

  8. Mauro Kyotoku @ 18 Jun, 2008 : 12:10
    Okubaro-san, omedetoo. Soube de seu livro através deste sítio e mandei buscar em São Paulo, simbolicamente foi comprada na livraria Taiyodo, apesar de poder comprar no sitio da Submarino. Lembro-me, sem muita convicção, que lá adquiri o meu segundo judô-gui, todo trançado. Okubaro-san , foi a primeira vez que li, pormenores da história do Shindoo-Renmei. Não procurei ler no livro do Fernando Morais por achar que ele não poderia captar a alma do imigrante japonês neste terrível episódio, como você tentou dignamente fazer através do seu pai, Massateru Hokubaru. Para mim este episódio marcou a ruptura da comunidade nipo-brasileira. Atribuo a ele, uma das razões, da não reconstrução das escolas japonesas. Imagino que este fato foi uma perda terrível para a manutenção de uma identidade cultural, pois considero a escrita o canal principal de transmissão cultural. Se tivéssemos seguido este viés, combinado com o progresso econômico obtido pela sociedade japonesa e associado com o processo de globalização, a nossa contribuição para a sociedade brasileira poderia ter sido muito maior do que é hoje. São as escolhas sociais que as comunidades fazem. Fechamos esta janela e abrimos outras, a maioria individualmente e algumas coletivamente, vide a comunidade Yuba, que não é a solução. Como você mesmo narra, seu pai não participaria mais dos Tanomoshi que sempre deram o sentido de coletividade e honestidade, tão característicos da alma japonesa e que nos primeiros anos da imigração ajudariam capitalizar pequenos empreendimentos para fugir da miséria. Se refletirmos um pouco a iniciativa de micro-crédito do Prof. Muhammad Yunus (Premio Nobel da Paz) através do Grameen Bank em Bangladesh é uma evoluçaõ do Tanomoshi, que inclusive existiam ou existem em pequena escala em muitas sociedades asiáticas. A contrapartida disto foi uma maior integração na sociedade brasileira, onde o individualismo cresce cada vez mais, a busca do brilho vazio, sem substância é cada vez maior e as conquistas futebolísticas um fator de “orgulho” nacional. Vejo inclusive na valorização excessiva da riqueza material em contrapartida da espiritual muito marcante na vida seu pai Okubaro-San. A característica do imigrante econômico (dekassegui) é a procura do enriquecimento, mas a alma e o processo predatório não podem ir juntos. Aqui na Paraíba ouço muitos nordestinos elogiando os patrões paulistas de origem nipônica, pela justeza de tratamento. Mas, será que a história de nossas vidas será assim daqui em diante, fica o desafio Okubaro-San e neste dia 18 de junho gostaria de enfatizar o exemplo marcante de seu pai e de sua mãe, perpetuado neste pequeno capítulo da história brasileira. Parabéns novamente Jornalista Jorge Junzi Okubaro e abraços sinceros a Nena (também em, in memoriam) figura silenciosa que mais me comoveu neste seu livro.

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