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Olga Futemma

São Paulo / SP - Brasil
69 anos, cineasta e diretora da Cinemateca Brasileira

Perdidos na selva


Quando nasci, em 1951, meus pais trabalhavam no Mercado Municipal, na Rua da Cantareira, em São Paulo. Meu pai ficava embaixo, no atacado, e minha mãe tinha uma banca de varejo na parte de cima. Eles se conheceram no Brasil, vieram em épocas e circunstâncias diferentes, os dois do arquipélago de Okinawa, que já é uma região completamente à parte no Japão.

Meu pai viajou em 1937 para o Brasil a fim de encontrar um tio que já estava aqui. Minha mãe veio para cá em 1934, tinha 11 anos, junto com o pai e a madrasta. Não estava programado, ela deveria permanecer lá com a mãe e a irmã. Os contratos eram feitos por braços de trabalho, seis braços num grupo familiar. Viriam o pai, a madrasta e a cunhada, porém na última hora essa cunhada teve problemas de saúde. Foram pegar minha mãe de repente, senão o casal não poderia vir. Você imagine o sentimento de perda total dela, da mãe, da terra. São momentos muito dolorosos de separação.

O casamento deles foi um acordo entre famílias, o “miai”. Minha mãe, com seus 16 anos, foi buscada por um rapaz de 22 (risos), é muito louco, né? E este casalzinho foi para o interior do Mato Grosso, trabalhar como colonos numa fazenda. Eu fui com ela lá, uns 10 anos atrás, e ainda hoje não tem nada, imagine na época!

Para se ter uma idéia, quem fez o primeiro parto da minhã mãe, com 17 anos, foi o meu pai, um rapaz de 23. Os vizinhos ficavam a léguas de distância. Na época, a malária estava assolando, uma precariedade total. Eles tiveram quatro filhos lá, e perderam dois. Quando outro irmão meu ficou doente, desistiram e voltaram para São Paulo, onde tiveram minha irmã do meio e eu.

Depoimento ao jornalista Leo Nishihata
Fotos: Carlos Villalba e arquivo pessoal de Olga Futemma


Enviada em: 19/05/2008 | Última modificação: 23/06/2008
 
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Comentários

  1. Valdete Shizuko Tamashiro @ 20 Mai, 2008 : 17:11
    Olga Futemma. Esse nome e o filme "Hia Sá Sá – Hay Yah!" há tempos não me sai da cabeça. Como gostaria de assistir a esse filme! Será que está disponível / será exibido em algum lugar? Olga, seu depoimento foi belo! As histórias da família são bastante parecidas com as minhas e creio que de muitos okinawanos, imigrantes e descendentes. E a questão da arte, tão presente nos okinawanos. A festa, a celebração, a alegria que existe em cada casa uchinanchu! Parabéns pelo depoimento! E não descanso enquanto não assistir ao Hia Sá Sá – Hay Yah! Abraços enormes!

  2. Lucas Kenzo Dakuzaku @ 23 Mai, 2008 : 01:02
    Olá Olga! Fiquei contente em saber que exite uchinanchu no ramo da arte do cinema no Brasil. Tenho 17 anos e não conheço seus trabalhos, mas me interessei pelo "Hia Sá Sá - Hay Yah!". Seu depoimento sobre a época em que os ojis e obás se reuniam pra tocar shamisen e cantar, fez lembrar as histórias que meu pai conta de quando ele era garoto. E por acaso, eu toco shamisen e taiko hehehe.... Bom, é isso aí. Parabéns pelo seu trabalho. Saúde e sucesso... até+!

  3. Rita de Cássia Arruda @ 26 Mai, 2008 : 00:14
    Cara Olga: Lendo seus relatos, consegue-se entender bem o significado daquela expressão “alma de artista”. Em sua casa, ao que pude perceber, respirava-se cultura. Essa sua opção pela “sétima arte”, assim, parece um dado natural e decorrente do ambiente em que você foi educada. Adorei ler seus depoimentos. Seu pai deve ter sido uma figura e tanto. Também achei interessantíssimo o que você falou sobre o povo de Okinawa. Eu não fazia idéia dessa alegria esfuziante dos okinawanos. Foi uma grata surpresa tomar conhecimento desse fato. Você foi pioneira, iconoclasta, quebrou regras e apesar de ter rompido com as tradições familiares soube como cativar o afeto de seus entes queridos. Enfim... Virei sua fã. Obrigada por compartilhar conosco suas histórias. Um abraço carinhoso.

  4. Matilde M Y Tanabe @ 28 Mai, 2008 : 18:57
    Olá Olga:Sua história com maiores detalhes foi mostrada na TV Globo.Voce ocupa um espaço que muito me orgulha(diretora da cinemateca Brasileira),família de músicos,vida de muita garra e coragem, hoje podemos dizer "a imigração valeu a pena" abraços Ps.da galeria de fotos o prof de shamissen Seihin Yamauchi era tio do meu pai,ele foi tambem pianista, músico e divulgador da música clássica de Okinawa em vários países (in memoria)

  5. Regina Hara @ 29 Mai, 2008 : 12:42
    Amiga Olga! Seja através da sua história ou da imprensa, continuo tendo uma profunda admiração pelo seu dinamismo e espírito de luta que voce sempre teve. Sinto saudades das suas aulas de Liang Cong que voce fazia com muito carinho. Apesar de ter rompido as tradições, voce tem sempre presente a tal da "paciência oriental" Também escrevi a história da minha avó "a imigrante que viveu 106 anos" neste site. Mande notícias. beijos

  6. Massa Goto @ 10 Abr, 2011 : 17:36
    Olga, quando li a tua estória, do Mercado Municipal, da Rua Cantareira, deu uma saudade daquela época do CESP... Tem um pessoal do CESP fazendo um cadastro dos ex-cespeanos e gostaria de te incluir juntamente com a Rita Okamura, porém não tenho nenhum contato de vocês. O meu e-mail é: gotomassa@gmail.com

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