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Naomi Munakata

São Paulo / SP - Brasil
65 anos, musicista

Experiências da família no Japão


Por volta de 1984, eu ganhei uma bolsa para ir ao Japão, para estudar regência na Universidade de Tóquio. Eu odiei! Apesar de ser japonesa, eu não gosto da sociedade japonesa. Lá, eu sou mulher. E mulher no Japão não tem o mesmo valor que o homem. Eu nunca tive esse negócio de servir ao homem. Meu professor na universidade era muito tradicional e ainda falava mal de mulher! Além do que, com aquele cara, eu percebi que não ia aprender muita coisa. Eu teria bolsa para até dois anos, mas voltei depois de oito meses. Foi o bastante para dizer: lá eu não moro de jeito nenhum!

Nós somos em quatro irmãos. E o mais engraçado é que os dois que nasceram no Japão hoje moram no Brasil, e os dois que nasceram no Brasil hoje moram no Japão. Meu irmão mais velho, nascido em Matsusaki, atualmente dá aula na PUC [Pontifícia Universidade Católica], na área de educação. Já o mais novo, que nasceu em São Paulo, sempre gostou de jogar bola. Foi fazer faculdade de educação física em Tóquio e acabou sendo contratado por uma escola, onde ele também é técnico de futebol. Ele vem todo ano para o Brasil, buscar molequinhos de 14, 15 anos para estudar no Japão e jogar bola lá. Há 20 anos que ele faz esse trabalho.

Esse meu irmão sentiu muito preconceito lá no Japão. Primeiro porque, como ele foi depois dos 18 anos, não conseguiu se naturalizar. Meu pai não registrou o nome dele no consulado porque nunca pensou que fosse voltar para o Japão. Meu irmão, lá, não tem o registro familiar. O sobrenome Munakata até tem ideograma registrado, mas a burocracia japonesa não permitiu que meu irmão usasse o ideograma familiar. As filhas também não podem usar. Isso é um absurdo, né?

Já a minha irmã caçula, que também nasceu no Brasil, foi embora com a minha mãe ainda pequena. E ela sempre gostou mais da língua japonesa, sempre leu mais livros em japonês. Ela voltou para o Brasil pela primeira vez só depois de 28 anos, e porque perdeu o emprego! Antes, ela nunca tinha conseguido sair. As pessoas não tiram férias lá. Você tem o direito, mas a concorrência é tão grande que ninguém sai. Aí minha irmã ficou uns 15 dias aqui, conseguiu outro emprego no Japão e voltou. Disse que vai levar mais uns 30 anos para voltar ao Brasil. Ela é formada em assistência social, mas trabalha como designer gráfica em Tóquio.

Meus pais hoje moram em Hiroshima. Minha mãe é muito doente, mas não tem como pagar uma enfermeira. No Japão, isso é impossível. É caríssimo. Meu pai é quem carrega minha mãe pra lá e pra cá. Como a minha mãe é inválida, o governo paga uma espécie de ajudante. Mas, quando eles souberam que meu pai ainda tinha forças para carregar a minha mãe, eles tiraram 30 minutos do ajudante. Meu pai tem 84 anos!

Depoimento ao jornalista Xavier Bartaburu
Fotos: Carlos Villalba e arquivo pessoal de Naomi Munakata


Enviada em: 05/03/2008 | Última modificação: 05/03/2008
 
« Japonesa de coração brasileiro Música de sobremesa »

 

Comentários

  1. tatsue @ 9 Mar, 2008 : 20:03
    Naomi, adorei a sua história. Vc. é uma batalhadora, cheia de garra. Eu tbem penso como vc, a respeito do Brasil e Japão. Por coincidência, tbem sou de Hiroshima, chegamos ao Brasil em abril de l959, no mesmo navio "Chisadane".

  2. Toshio Icizuca @ 29 Abr, 2008 : 00:43
    Conheci seu pai, pastor Munakata, em 1957, quando frequentava a Igreja Sulamericana, em São Paulo. Sempre desconfiei que você era filha do pastor. Hoje, sou engenheiro aposentado e moro em Piracicaba. Sou articulista do Jornal de Piracicaba e outros jornais e revistas. Também tenho site publicado, pois meu filho é o produtor deste site.Meus parabens pelo seu trabalho à frente da sinfônica!

  3. rachel @ 30 Ago, 2008 : 21:21
    assisti você agora mesmo no Masters. Adorei vê-la expressar-se. Adoro os japoneses. Seus olhinhos pequenos , seus cabelos pretos. Tudo que fazem, fazem bem. E você não seria exceção. Você é maravilhosa. Eu sou clara, olhos azul-escuro, nascida em Florianópolis/SC, tendo morado muitos anos em Porto Alegre onde me formei, infelizmente não em música. Amo a música. Toco violão desde criança. estudei quatro anos de piano. Mas o ciolão gritou mais alto no meu coração. Vivo e transpiro musica Naomi. E gostaria de ter sido uma arranjadora. Mas, achei você. Não fique tão só como disse. Não fique com a solidão. Quem sabe, podemos unir nossos silêncios. E, por falar em silêncios, suas mãos falam. Retorne, please! rachelecc@ibest.com.br

  4. Flávio Daruz @ 30 Ago, 2008 : 21:44
    As minhas experiências, como descrevi em minha página, foram mais ou menos o inverso das suas: um brasileiro que ajaponezou um pouquinho. Ainda sim, pude me identificar muito com algumas das coisas que você escreveu. Muito legal! Um abraço.

  5. fabio @ 19 Set, 2008 : 11:10
    como dizer em japoneis so vc mora no meu coração

  6. Ivan Tadeu Couto Rojas @ 10 Jun, 2009 : 04:06
    Prezada profa. Naomi. Meu nome é Ivan Rojas, sou Mestre em Psicologia Clínica e especialista em Filosofia pela PUC-SP. Gosto muito de seu trabalho na Cultura fm. Vc tem uma grande vocação para a música sacra e sua voz e muito charmosa. Aceite meus cumprimentos. Com estima Prof. Ivan Tadeu Couto Rojas

  7. Marcos N. Salmeron @ 28 Set, 2009 : 13:43
    Fui aluno de Naomi no Conservatório Municipal de São Paulo, e me encantei com seu profissionalismo e entendimento sobre a vida e ao ensino como um todo. Acabei seguindo a carreira de médico e desisti da música, mas segue comigo os ensinamentos da minha querida professora de música. Parabéns. PS: quando dá sempre te escuto na Cultura FM. caso alguém leia, se puder, repassar meu e-mail para ela, pois gostaria de revê-la: mnsalmeron@hotmail.com

  8. Joel R de Mello @ 28 Set, 2009 : 16:38
    Naomi, estava procurando por seu irmao Kazumi que foi meu colega no primario, na saudosa escola Americana de Mirandopolis, Que saudades. Hoje sou Médico e gostaria de ter contato com Vcs. ABS Joel

  9. Joel @ 28 Set, 2009 : 16:40
    Meu e - mail joelrmello@yahoo.com.br

  10. Joel @ 28 Set, 2009 : 16:40
    Meu e - mail joelrmello@yahoo.com.br

  11. Marcos Nozomi @ 15 Out, 2009 : 09:36
    Tenho que agradecer muito os meus Pais, por ter uma irma tao maravilhosa. Te adoro muito!! do seu irmao do Japao:Marcos Nozomi

  12. Ricardo Brandão @ 22 Jul, 2010 : 05:29
    Oi Naomi, Por gentileza, como se chama o estilo de Canto Coral da música de Franz Liszt – de a Sinfonia Dante - que a Rádio Cultura FM tocou aproximadamente às 11h45 da amanhã do dia 21/07? Por favor, você poderia me passar uma lista de músicas e seus respectivos autores deste estilo de Canto Coral e onde posso encontrar cds para comprar ou músicas para baixar? E se existe algum lugar onde eu possa assistir este estilo de Canto Coral. É um estilo de canto coral e música bem suave. Parabéns pelo trabalho realizado através do Programa Vozes da rádio CULTURA FM. Aguardo retorno. Obrigado ricardobrandaosp@yahoo.com.br ricardo.souza@astrazeneca.com

  13. Kazumi @ 10 Set, 2010 : 14:38
    Ei Naomi. O seu depoimento é comovente. Legal essa história das mãos. Valeu!

  14. marina canto @ 7 Jan, 2012 : 15:38
    devemos ser colegas. meu irmão Alberto e eu tambem estudamos na escola americana de mirandopolis. um abraço

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