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Sou nissei, paulitano, nasci no Bexiga, morei na Liberdade e na Moóca, e vivo desde 1952 em Diadema, embora tenha passado alguns anos pelo mundo, trabalhando ou estudando. Foram 5,5 anos na selva amazônica, 1 ano na França, 2 anos na Bolívia, 4 meses no Japão e curtas temporadas em outros lugares.
Meus pais vieram ainda jovens do Japão. Meu pai, natural de Ichinomiya, província de Aichi, com 10 anos, em 1921. Minha mãe, nascida em Kioto e criada em Hiroshima, com 15 anos, em 1936. Hideaki, meu pai, veio com o pai, Hatsujiro, ex-cabo da Marinha Imperial Japonesa, a mãe Taka e o irmão Yoshiharu, no navio Takoma Maru, numa viagem que durou 72 dias. Partiram de Kobe, com escalas em Xangai, Hong Kong, Cingapura, Colombo, Durban, Port Elizabeth, Cidade do Cabo e Rio de Janeiro, aportando em Santos em 12/09/21.
Yasuko, minha mãe, veio com a mãe Kei, o padrasto Shunsaku e as irmãs Tomiko (13 anos) e Noriko (1 ano), no navio Buenos Aires Maru, numa viagem pela mesma rota, que durou "apenas" 36 dias. Chegaram a Santos no dia 02/07/36. Na época, a família de minha mãe não foi considerada adequada como força de trabalho devido a pouca idade das filhas. Para conseguir a permissão para a emigração, foram obrigados a casar Yasuko, somente no papel, com Fumio Nishioka, um jovem imigrante que vinha ao encontro do irmão, que já morava no Brasil. Viajaram no mesmo navio e nunca mais se viram após o desembarque. Pelo fato de não ter desfeito esse casamento perante as leis japonesas, minha mãe teve problemas na ocasião do inventário do meu pai, tendo sido obrigada a se naturalizar. Cabe observar que minha mãe veio para o Brasil 9 anos antes da bomba atômica de Hiroshima. Se tivesse ficado, teria sido uma das vítimas.
A família de meu pai fixou-se inicialmente na fazenda Costa Junior, em Jacarezinho, no Paraná, mudando-se posteriormente para Ourinhos, Chavantes e Álvares Machado. Desta, meu tio Yoshiharu veio para São Paulo, onde trabalhou em jornal e no comércio, formando-se contador na Escola de Comércio Álvares Penteado. Em 1939, casou-se com Lola Vollet, uma descendente de alemães e suíços, com quem teve as filhas Tamyra, Yara e Jacy. Um pouco antes do início da segunda guerra mundial, meu avô Hatsujiro viajou ao Japão, onde ficou retido devido ao conflito, lá permanecendo até 1952. No início dos anos 40, meu pai e a avó Taka se mudaram para São Paulo, onde meu pai trabalhou no comércio, foi motorista da CMTC (na linha Aclimação) e aprendeu o ofício de relojoeiro na relojoaria de Francisco Pinto Pereira, na Rua Quintino Bocaiúva. Meu tio Yoshiharu passou a vender ferramentas pelo interior e, na segunda metade dos anos 50, abriu uma loja de ferragens e materiais de construção, a Casa Progresso, na Av. Júlio Buono, Vila Gustavo, Zona Norte de São Paulo.
A família de minha mãe fixou-se inicialmente em Guarantã, na fazenda São João (que ainda existe com o mesmo nome). Posteriormente, moraram em Inúbia Paulista, Pompéia e Lucélia, todas no Estado de São Paulo. De Lucélia, onde nasceu o caçula Hiroaki, precisaram fugir após o final da guerra, devido à ameaça de morte sofrida pelo meu avô, acusado de traição pelos membros da Shindo Renmei. Meu avô era dos que acreditavam na derrota do Japão, um makegumi, e os que não acreditavam, os katigumi, o acusaram de traição por cultivar menta e algodão que, supostamente, eram utilizados pelos militares americanos. De Lucélia, vieram para Itapeva, onde moraram inicialmente na fazenda de Cícero Marques. Depois, meus avós abriram uma quitanda à Rua Ernesto de Camargo, onde ficaram até o início dos anos 70, quando se mudaram para Diadema. Yasuko se mudou para São Paulo na segunda metade dos anos 40, quando veio estudar arte culinária na renomada escola da senhora Hatsue Sato, que se tornaria minha madrinha de batismo. Hatsue Sato conhecia a família de meu pai, e providenciou o miai (casamento arranjado) entre Hideaki e Yasuko, em 1948. Meus pais trabalharam como relojoeiros, prestando serviços para relojoarias da Capital, como a Casa Grossi, e complementaram a renda vendendo aves e ovos de uma pequena granja da família. Da união, nasceram Hélio, Ana e Diná. Hideaki faleceu em dezembro de 1965, aos 54 anos, o que resultou em grande sacrifício para a continuidade dos estudos dos filhos. Eu me formei em Geologia na Universidade de São Paulo, em 1975, e me doutorei na mesma instituição em 1999. Fiz também cursos de extensão na França e no Japão. Diná se formou em Medicina na Fundação ABC, em 1982, e faleceu em setembro de 2004. Ana casou-se em 1979 com Yoshio Fujiname, e teve os filhos Marina, Cristina e Bruno. Com os filhos criados, formou-se em Fisioterapia aos 53 anos e exerce a profissão em Curitiba.
Minha mãe, falecida em 08/02/08, aos 87 anos, passou dois meses no Japão em 1985, para visitar os parentes e passear. Gostou muito do passeio, mas não se cansava de afirmar seu amor pelo Brasil, que considerava a melhor terra do mundo, uma terra abençoada.
Em 1994, ganhei uma bolsa da JICA para um curso de 4 meses no Japão. Foi uma viagem emocionante, de ver minhas raízes de perto. No primeiro dia, voando de Tóquio para Osaka, vi o Monte Fuji e vieram-me lágrimas quando pensei em meu pai, que terminou seus dias sem rever a terra natal. Aproveitei bem a estada no Japão porque, felizmente, falo bem o japonês. Apesar de nunca ter ido a uma "nihongakkou", falava o idioma em casa e minha mãe me ensinou katakana e hiragana; o restante, aprendi lendo "mangá" e outras revistas.
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Este projeto tem a parceria da Associação para a Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil