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MARIO KATSUHIKO KIMURA

CURITIBA / PR - BRASIL
58 anos, BANCARIO/APOSENTADO/ANALISTA CREDITO

MEU PAI KUMAITI KIMURA


Nasceu em Hiroshima no ano de 1913, terceiro filho de Toyoyaro Kawamoto e Kisse Kawamoto. Seu pai era lenhador do interior e Kumaiti costumava acompanhá-lo nos serviços, porém o seu pai, talvez tendo premonição, pediu para não fazer companhia no dia fatídico em que veio a falecer por debaixo de uma árvore que acabara de derrubar, no topo da montanha. Tinha então o Kumaiti apenas oito anos de idade.
Quando tinha quatorze anos de idade, sozinho mudou-se para a capital (Tokyo), quando teve experiência de atuar numa famosa fábrica de doces ¨Sumidaya¨, que era okashiya-sam que até fornecia seus produtos para o Palacio Imperial, tendo a primeira experiência como auxiliar de confeiteiro/doceiro. Na capital teve também a oportunidade de freqüentar uma escola de desenho e teve a sorte de contar com os ensinamentos do mestre ¨Laisho-sensei¨, famoso desenhista da época e de Uta Dokan, considerado mestre dos mestres. Residiu nessa época ao lado da Escola Naval Kaikun-hei-gasco.
Com o desenvolvimento do seu tino como desenhista especializou-se em desenhos da natureza, tais como vegetais: suzulan (orquídeas), Bará (Rosa), minerais tais como rocha, cachoeira e água, desenhou também animais, notadamente Laion (Leão).
Além do desenho, gostava muito de escrever, conta que escrevia ¨haiku¨ e ¨senriyu¨, que deve ser poema e poesia, fazia também algumas esculturas, sempre aproveitando as folgas, principalmente em dias chuvosos em que não podia atuar na roça, quando decerto buscava maior inspiração.
Chegou a participar de vários concursos e utilizava o nome artístico de HOORAN.
Por ser introspectivo não acreditava em sua capacidade oratória, porém aceitava prontamente o desafio de escrever discursos para terceiros, para quaisquer eventos.
Conta que um de seus poemas foi premiado num concurso, cuja apresentação feita por sua sobrinha Yuriko Kawamoto.
A sua vinda de Hiroshima para o Brasil, também ocorreu por força da situação econômica financeira do Japão, pós depressão de 1929, por volta de 1932. Veio em companhia de seus dois irmãos Tomoiti e Satomi, deixando para trás sua mãe Kisse e irmãos (Kiyomi e Yuiti).
Fixou-se na região de Jataí PR e posteriormente em Assaí PR, onde veio a conhecer a Shizuko Kimura com quem consorciou-se por volta de 1937. Atuou sempre nas lides rurais.
Tinha por costume, aproveitando-se de sua ida à cidade para compra de mantimentos, levar ora um filho ora outro e nessas ocasiões levava-os a restaurantes (udon-yá), comportamento não usual para os imigrantes da época.
Em Assai PR teve oito filhos. Em decorrência da forte geada de 1955, mudou-se para Maringá PR para arriscar como doceiro/confeiteiro, mudança ocorrida de trem (maria-fumaça).
Conta que durante a longa espera da locomotiva na estação, convidou a família para almoçar junto a um restaurante de Jataí PR, comportamento muito raro para chefe de família da época.
Consta que quando a filha Eliza pediu ao pai para fazer uma poesia dedicatória, este prontamente escreveu ilustrado por desenho de uma árvore na rocha de uma cachoeira ¨IWA NIMO KI WA HAERU. LEIKO YO (ELIZA) FUKAKU NE O OROSSE¨, bastante profundo que traduzindo fica mais ou menos isso ¨Uma árvore nasce até em rochedos, portanto Leiko (filha), aprofunde cada vez mais as suas raízes¨.
Para a filha mais velha Keiko preferiu desenhar o trevo de quatro folhas e em cada folha escreveu: ¨KIBOU¨= esperança; ¨¨SHINKOU¨=religião/crença; ¨AIDIYOU¨=amor e ¨SATI¨= felicidade.
As filhas pouco entenderam o significado à época e somente agora depois de idade avançada é que começam a entender a profundidade das frases.
Se de um lado era uma pessoa calma, bondosa e costumava tratar os filhos com carinho, demonstrou também, por outro lado, ser uma pessoa difícil, teimosa e até fanática. Pertenceu a ala dos imigrantes que não acreditava/aceitava que o Japão tivesse sido derrotado na Guerra (KATI-GUMI). Não respeitava e aceitava sequer a opinião de sua esposa.
Seu sonho, como o da maioria dos imigrantes, decerto era de retornar para o Japão e os dois primeiros filhos (Atsushi e Keiko) foram registrados no consulado e possuem dupla nacionalidade.
À época, chegou a impedir que os primeiros filhos freqüentassem a escola brasileira e exigia que estudassem NIHONGO e chegou a comprar lampião a gás para pessoalmente lecionar a língua japonesa.
Depois do fracasso no comercio/confeitaria em Maringá PR, mudou-se para Cianorte PR, onde atuou como empreiteiro do Shinae-sam, em um sitio entre São Tomé e Cianorte PR, sitio onde nasceu o seu filho caçula (Wilson Teruo Kimura).
Gostava também de pescar, construía suas próprias redes e tarrafas.
Quando residia em Assai PR, ia até sozinho pescar no rio Tibagi, somente em companhia do seu cavalo ¨Dourado¨, chegando a pernoitar de sábado para domingo, só retornando domingo a tarde.
Gostava muito de bebida alcoólica, tomava pingas (Oncinha, São Jorge, Tatuzinho, dentre outras) e fumava muito (Urca, Mistura Fina e até fumo de corda).
Em Cianorte conseguiu companheiro de pescaria de nome Uchida-sam que tinha comercio de secos e molhados na cidade, seu companheiro até a ultima pescaria ocorrida em 26/03/1960, quando faleceu levado pelas águas do rio Ivaí, morte prematura aos 47 anos de idade.
Tinha então o protagonista desta narrativa apenas nove anos de idade.

Narrativa enriquecida com depoimento da Keiko Kimura Kuniwake, segunda filha de Kumaiti.


Enviada em: 08/10/2008 | Última modificação: 15/11/2008
 
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Comentários

  1. LETÍCIA YURIE KIMURA @ 14 Ago, 2008 : 20:49
    PAI, ADOREI AS MENSAGENS NESTE SITE. FICARAM EXCELENTES! ACHO QUE O SR PODERIA ESCREVER UM LIVRO. FICOU MUITO BEM EXPLICITADO, GOSTOSO DE LER. NÃO SEI COMO POSSO CONTRIBUIR PARA ESTA PÁGINA. BEIJOS E OBRIGADA POR TUDO, LETÍCIA

  2. Nelson Sinzato @ 14 Ago, 2008 : 22:22
    Prezado Sr. Mário, minhas saudações. Li atentamente seus depoimentos, fortemente centrados nos valores familiares. Parabéns a você Mário e a sua família que é a base de formação de cidadaões dignos e honrados como vocês. Endosso aqui as palavras contidas no comentário acima, de Letícia Yure. realmente os textos ficaram muito bons. Aliás tenho lido outros textos também muito bons neste site. Realmente os nihonjins estão escrevendo bonito. Parabéns. Sua história tem alguma semelhança com a história da minha familia: família numerosa, trabalho árduo na roça, adversidades climáticas, lutas para se estabelecer no comércio, enfim muita garra e disposição para superar as adversidades e os desafios. Sr. Mário, parabéns pela carreira de sucesso no Banco do Brasil. Ingressar no Banco era uma glória, não é? Para mim foi. Eu trabalhava na roça e estudava a noite e consegui passar no Concurso do Banco do Brasil. Aqui no Mato Grosso trabalhei em Pontes e Lacerda e Cáceres, onde resido, já aposentado. Obrigado e um abraço.

  3. Erika @ 18 Ago, 2008 : 11:02
    Tio, Lí atentamente seu relato sobre a minha querida mãe Eliza e fiquei emocionada..Ouvia desde pequena as histórias que mamãe contava sobre a sua infância e sempre sensibilizava com tamanha dificuldade.. Uma geração sofrida, mas forte o suficiente para superar qualquer dificuldade graças à união e amor... Lembro-me uma vez que fomos à São Paulo à passeio e ví as lágrimas escorrendo pelo rosto de tio Makoto ao contar da tamanha saudade que sentia enquanto estava estudando em SP, longe da família...Senti que eram lágrimas guardadas desde que ainda garoto, que afloravam junto com a lembrança...Partiu meu coração de 12 anos...Deve ter sido difícil para todos... Eu também não sei como contribuir para enriquecer essa sua bela iniciativa; deixo aqui meu grande abraço e meus parabéns pelo sucesso dos 9 heróis da família Kimura...Sinto orgulho de ser integrante dela, tá!!

  4. Nelson Hajime Kawamoto @ 28 Ago, 2008 : 23:47
    Sr. Mário Katsuhiko Kimura, gostaria primeiramente de parabenizá-lo pela formatação da árvore genealógica da família Kimura / Kawamoto. Sou neto de Tomoichi e Kaneko Kawamoto, filho de Yoshifumi e Miyuki Kawamoto. Eu não conhecia os ascendentes da família (bisávos, tios avós) e pelo q. pude observar, ela foi ficando tão grande, q. talvez em alguma ocasião, nós tenhamos nos cruzado em São Paulo, Curitiba ou qualquer outro lugar, desconhecendo nosso grau de parentesco. Um grande abraço. Nelson Hajime Kawamoto nkasses@wnet.com.br

  5. Greyce Nakao @ 15 Set, 2008 : 19:07
    Leiko Neechan... parabens!!! ...eu tb, sinto orgulho d vc! X ) ...e viva as mulheres batalhadoras! X P

  6. Alceu Hideki Kimura @ 2 Nov, 2008 : 22:15
    Parabéns pela iniciativa de narrar a história da nossa família, que com certeza, em resumo, retratou com realismo uma vida onde todos ganhamos, graças principalmente à dedicação da nossa querida mãe que soube nos conduzir para a vida, nos dando uma base sólida. Com certeza, por mais que tentamos colocar no papel a nossa história, ainda faltará palavras para expressar o todo.

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