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Claudio Riyudi Tanno

Brasília / DF - Brasil
53 anos, consultor

Kawasaki, província de Miyagi, parecia que algo nos pertencia


Acordamos cedo naquele dia ensolarado. Estava com minhas irmãs em Sendai, capital da província de Miyagi, de onde chegaríamos à região de origem de meu pai, a cidade de Kawasaki. Saímos do hotel, caminhamos até a estação e deixamos nossas bagagens no serviço de koin locka. Não haveria muito tempo em Kawasaki, o ônibus partiria por volta das 8:00 h, chegando lá às 9:00 h e retornando para Sendai às 11:15h.
Do terminal junto à estação Sendai, poucos passageiros pegaram o ônibus. Ao longo do trajeto, aumenta o número de usuários, mas todos utilizaram o transporte para descerem ainda em Sendai. Pudemos percorrer a cidade, da sua região central até a periferia. Observamos o intenso movimento nas ruas, do batalhão de trabalhadores e de estudantes. Após sairmos de Sendai, somente nós estávamos no ônibus. O movimento da grande cidade foi sendo substituído pela tranqüilidade das arborizadas montanhas do interior. O ônibus percorria os tortuosos caminhos, que faziam transparecer uma viagem pelo tempo, em meio a paisagem que deveria ser muito próxima da época em que meu pai esteve por lá, até seus 10 anos, em 1933. Observei árvores imaginando tratarem-se de sugis (tipo de pinheiro), que vieram a inspirar o símbolo da família Tanno (três sugis perfilados).
Novamente tivemos o privilégio de estar vivenciando um Japão do interior pouco conhecido, belíssima vista de um verde esplendoroso entrecortado por rios. Antes de Kawasaki, um belo parque demarcado anuncia que em breve estaríamos entrando na cidade. Percorríamos as estreitas ruas de Kawasaki, quando pergunto ao motorista onde seria a região central da cidade, onde houvesse disponibilidade de táxi. Quase parando o ônibus, ele me informa que já havíamos passado do centro, agora próximos da parada final.
Por sorte, havíamos descido no local adequado, na região de Nojo (algo como um bairro), ainda em Kawasaki. Nos documentos oficiais de imigração, constou o endereço de Nojo como a origem da família. Nesse endereço nasceu o meu avô, vindo a ser herdado por seu irmão mais velho, o primogênito (chonan). Fomos ao endereço de táxi, conduzido por seu falante motorista, que ficou muito interessado e espantado em nossa história. No caminho, observávamos várias lojas com o nome Tanno, uma sensação estranha, parecia que estava em um sonho, como na série “Além da Imaginação”. Ele nos disse que cerca de metade da população de Nojo é Tanno, provavelmente muitos nossos parentes. Dirigimo-nos ao endereço:
Miyagi-ken, Shibata–gun Kawasaki-shi,
Oaza Imashuku-aza Nojo banchi
Um antigo endereço, que ainda existia, ante nosso espanto e nossa apreensão pelo desconhecido. Encontramos uma casa não muito antiga, toda aberta, sem ninguém à vista. Rapidamente o taxista sai à procura de alguém, tentando anunciar a nossa chegada.
Logo a seguir, ele retorna com uma senhora, a dona da casa, que rapidamente viria a chamar o patriarca da família. Inicialmente atônitos, pareciam não compreender de onde teriam surgido três pessoas que se diziam da família Tanno, vindos de um certo país chamado Brasil. O motorista de táxi, melhor conhecedor de nossa história, atrevidamente enaltecia a nossos anfitriões o motivo de nossa visita, incentivando a tirar fotos, pois vínhamos de tão longe.
Uma forma de estabelecermos um elo entre nós seria reconhecermos nossos antepassados em comum. Descobrimos que o senhor que nos recebia, Tanno Shoji san, é filho de Kyozo, neto de Kumajiro e bisneto de Kumakiti, também meu bisavô. Encontrara o elo entre mim e o senhor que nos recebia.
Felizmente lembrei-me do nome de meus antepassados e pude melhor compreender com quem falávamos. No Japão, as propriedades são transferidas aos filhos mais velhos, chamados chonan. Por isso o local da antiga casa, antes de propriedade do patriarca da família Tanno, Kumakiti, foi herdado de filho a filho até Shoji-san. Posteriormente, meu pai confirmara esses fatos históricos. Disse-me que, por muitas vezes visitara o local, à época, casa de seu avô e lembrara-se de Shoji, um menino, mais jovem e bem itazura (peralta).
Conversamos por pouco tempo, até a hora de nossa despedida, devido à proximidade do horário de partida do ônibus para Sendai. Da janela, Shoji-san mostrou-nos ainda uma arborizada montanha, bem à frente da casa, parte da famosa cadeia de montanhas de Zhao. Despedimo-nos já com o sentimento de que éramos parentes, como numa dessas visitas que fazíamos a um tio em Assaí, nossa cidade de origem no Paraná.
Retornamos ao terminal de ônibus e nos despedimos do simpático motorista de táxi que nos guiou. Aguardamos a partida do ônibus para percorremos as estreitas ruas daquela simpática e tranqüila cidade. Curtimos nossos últimos momentos em Kawasaki, certos de que as poucas horas por lá vivenciadas seriam guardadas para sempre em nossa memória.
Aos poucos, no caminho de volta, víamos os pacatos japoneses do interior de Miyagi embarcarem para Sendai. Já nos arredores da cidade, iniciava-se o intenso movimento do horário de almoço, naquele início de tarde quente e ensolarado.
Ao longo do trajeto, algo me fazia sentir que Kawasaki em parte nos pertencia. Que haveria um vínculo maior do que qualquer outra cidade do Japão. Simbolicamente havia fechado um ciclo de conhecimento da minha existência. Conheci muito do Japão, fui às cidades em que meus pais moravam antes de partirem para o Brasil, senti a atmosfera da partida para o Brasil no, ainda existente, Centro de Emigração e no Porto de Kobe. Olho para o meu passado, para minha história e, finalmente, encontro uma conexão para o futuro, para o meu e o de minha filha. Em minha mente, não existo mais isoladamente, sinto-me inserido em um contexto mais amplo, que passa agora minimamente por minha compreensão.


Enviada em: 02/03/2008 | Última modificação: 31/10/2015
 
« Descobrindo Tojo, província de Hiroshima

 

Comentários

  1. Elisa K. @ 10 Abr, 2008 : 06:07
    Prezado Claudio, não há frase mais adapta àquela de Tolstoi, para concluir sua história. E que a bela Gabriela possa absorver a essência desta frase e possa contribuir com uma humanidade um pouco melhor, para os nossos futuros. Abraços.

  2. claudio @ 3 Mai, 2008 : 11:34
    quau a origem o sgnificado de claudio e a deriva

  3. Rita de Cássia Arruda @ 4 Mai, 2008 : 10:50
    Prezado Cláudio: Seus depoimentos são fantásticos; riquíssimos em detalhes e cheios de emoção. Esse seu encontro com o passado – o resgate de suas origens – é muito significativo. Você está certíssimo ao dizer que as histórias dos imigrantes japoneses que aportaram no Brasil são bastante parecidas mas, ao mesmo tempo, repletas de singularidades. Cada qual com sua marca própria. Ahhhh... Eu também gosto do canal NHK, embora não entenda rigorosamente nada do que é dito ali. Gosto de ver as receitas que são preparadas e os programas onde são ensinados artesanatos. Tem um programa infantil muito interessante. Cada “kodomo” mais fofo que o outro. Crianças lindas; tão comportadinhas... Dá vontade de morder. Obrigada por dividir conosco suas memórias. Um abraço.

  4. Mario Katsuhiko Kimura @ 22 Mai, 2009 : 10:09
    Claudio Riyudi Tanno-sam. Confesso que viajei contigo nas três narrativas, conheci as terras de seus ancestrais, uma delas terras do meu pai (Hiroshima), e mesmo nunca ter ido ao Japão tive a oportunidade de ver com seus olhos o trajeto, as paisagens, as pessoas, as cidades, as diferenças culturas da capital e do interior... Parabéns pela forma de sua narrativa, com certeza a sua filha também irá adorar em ler e viajar pelas terras de nossos antepassados. A propósito, conheço um Tanno, o George que trabalhou no Banco do Brasil como eu, hoje um grande empresário empreendedor, dirigente de rede de lanchonete (Girafas) e sua esposa da rede de lojas de roupas finas (Gregori), não seria seu parente? Grande abraço, saúde e sucesso.

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