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  Conte sua históriaClaudio Riyudi Tanno › Minha história

Claudio Riyudi Tanno

Brasília / DF - Brasil
53 anos, consultor

Descobrindo Tojo, província de Hiroshima


Determinados fatos somente tomam a sua devida dimensão algum tempo após ocorridos. Marcante foi visitar Tojo, província de Hiroshima, cidade onde minha mãe nasceu e de lá partiu aos dois anos de idade para o Brasil. Ainda permanece gravada na memória, em cores e sensações intensas, a atmosfera do vilarejo que ainda existe (Uyama), distante cerca de 10km do centro de Tojo, talvez muito pouco mudado em relação àquela época. O verde existente, exaltado pelo forte sol do verão japonês, era de uma intensidade poucas vezes vistas.
Devido à rapidez com que visitamos o local, por meio de um atencioso motorista de táxi, somente agora posso avistar na Uyama do final da década de 20, nos idos de 1927 a 1929, minha mãe brincando com a alegria e o sorriso de descobertas e fantasias das crianças dessa idade. Pensei em meus avós e em meu tio, por volta dos seis anos de idade, em suas dificuldades e sonhos que fizeram vir ao Brasil, em busca de melhores oportunidades, para poderem retornar ao Japão, fato que, por circunstâncias, não veio a ocorrer.
Em alguns momentos, a sensação é de que foi um sonho, de imagens vivas e marcantes. Somente o testemunho de minhas irmãs e o registro fotográfico podem me comprovar o que vivenciei. Emblemático é chegar a um local distante, antes considerado inacessível e que só existia em minha imaginação, desde muito jovem.
Na noite anterior, no Hotel Granvia em Hiroshima, conversava com minhas irmãs. Cogitávamos sobre quem iria a Tojo ou tentaria ir, ante o certo desânimo pela aparente inacessibilidade do local. Por instantes, havíamos desistido de ir. Anteriormente, um atendente da JR, de forma precisa, deu-nos as informações necessárias: 8:45 h, shinkanssen de Hiroshima a Okayama, 10:37 h, trem de Okayama para Niimi, 12:32 h, outro trem de Niimi para Tojo e de lá, sabe-se como, chegar a Uyama 553. Quando o atendente prestou as informações, pela primeira vez ouvi falar de Niimi, constante da página 423 do livrão de linhas da JR, repetido várias vezes. Niimi soou-me estranho, tão estranho quanto distante.
Olhar o mapa de linhas e estações, em japonês, era desestimulante. Um intrincado sistema ferroviário interligando estações, das mais modernas às mais interioranas, por meio de diversos tipos de trens, das últimas gerações de shinkansen aos mais antigos e lentos.
Felizmente algo não nos fez desistir, partimos os três para essa viagem rumo ao desconhecido. Confirmamos a precisão das informações prestadas e a eficiência do sistema ferroviário japonês. Após Tojo, ainda teríamos que encontrar um endereço incerto e distante da cidade.
Surpreendente foi descobrir a paisagem deslumbrante no trajeto Okayama – Niimi – Tojo. Exuberante vegetação cobrindo uma região montanhosa e cortada por rios e córregos. Após Niimi era um outro Japão que visitávamos, longe da aglomeração dos grandes centros, seu interior desconhecido. As diferenças são notáveis. A velocidade do trem-bala era substituída por um trem com características de bonde urbano, lentamente percorrendo seu trajeto, com o bucolismo exigido pela região, pelo ritmo lento de suas cidades.
Admirei a paisagem, observei os poucos passageiros, na maioria idosos que se locomoviam com a tranqüilidade e a dignidade que todos nessa condição deveriam ter, seja em que país for.
Apesar das diferenças do interior, percebi que o Japão era desenvolvido também aqui, nesse local distante. Desenvolvido não tecnologicamente, mas como sociedade, em suas relações humanas. O trem é lento, não precisaria ser mais veloz, mas extremamente eficiente e igualmente pontual. Percebi o verdadeiro desenvolvimento do país, de forma isolada, anônima, longe da vista de muitos e da imagem que as pessoas do resto do mundo tem do Japão.
Talvez o verdadeiro desenvolvimento, a essência do povo japonês estivessem ali, naquele velho bonde transportando idosos, com a serenidade em suas expressões, tratados com extrema atenção e afeto por seu condutor, que ali estava não para simplesmente cumprir um trajeto, mas para atender da melhor forma seus passageiros, fazê-los chegar a seus destinos com tranqüilidade e segurança.
Tokyo, Osaka, Yokohama, Kyoto, Hiroshima, os grandes centros do Japão, tinham muito a mostrar, mas, de forma inesperada, Tojo também estava nos mostrando muito do Japão.
Pouco antes de partirmos do Brasil, recebi o endereço de minha mãe:
Hiroshima-ken, Hiba-gun, Tojo-machi
Oowasa, Taishi yaku Uyama 553 banchi n.2
Era a casa de onde partiu a família Matsumoto para o Brasil. Chegamos a Tojo por meio de sua pequena estação de trem, cujo movimento somente se intensificou um pouco com o retorno dos estudantes das suas aulas. O mesmo local em que meus pais se encontraram com o primo dela, Kakuro, em 1992, numa emocionante viagem ao passado, quando finalmente compreenderam a realidade e a dimensão dos fatos que envolveram a imigração da família Matsumoto. Na ocasião, encontraram-se com parentes próximos de meu avô, inclusive sua irmã, com os quais puderam vivenciar, após mais de sessenta anos, a atmosfera e as expectativas da viagem ao Brasil.
Andamos um pouco pela cidade a procura de um restaurante. Foi-nos indicado uma rua com dois típicos restaurantes. Optamos por aquele de uma simpática senhora, que nos serviu uma refeição com ingredientes tradicionais, como se cozinhava há dezenas de anos.
Terminada a refeição, não muito convictos, resolvemos ver com o taxista, que ficava à frente da estação, se poderíamos chegar ao destino estabelecido. Era distante cerca de 10 km. Meio sem entender nossa história, combinamos que ele nos levaria ao local, ficaríamos algum tempo e nos traria de volta.
Fomos conduzidos por uma estreita rodovia que adentrava o interior com suas plantações de arroz. Pelo rádio, o motorista identificou precisamente a localização pretendida e também o endereço de Matsumoto Kakuro-san, primo da minha mãe, mostrando-nos no caminho onde era. Ficamos surpresos com a facilidade com que obteve as informações e em como um endereço tão antigo ainda era localizável. Chegávamos a Uyama 553, já sem a casa indicada, mas ainda com a impressionante paisagem verde, da vegetação e dos arrozais, e com antigas moradias, que nos fizeram supor praticamente intacta após mais de setenta anos, tempo em que minha mãe morou por lá.
Senti uma envolvente atmosfera de início de século passado, mas em cores vivas. Impressionava a tranqüilidade do local. Animados por termos chegado a um endereço desconhecido e instigador pelo aspecto histórico envolvido, tirávamos fotos euforicamente por termos chegado ante tantas dificuldades, que se mostraram apenas aparentes. Um privilégio a ser guardado por muito tempo.
Antes de retornarmos, descemos ainda onde se encontravam as residências propriamente ditas. Identificamos numa delas, à entrada, a inscrição da família Matsumoto, confirmado o parentesco nosso pelo símbolo na parte superior da construção. Conversamos um pouco com uma senhora, que se impressionou com a nossa história, sorridente com nosso feito.
Cumpríamos mais uma estapa de nossa viagem, que seria uma das mais despretencisoas sob o ponto de vista turístico: chegar a um endereço desconhecido em uma cidade interiorana, aparentemente sem atrativos, mas de grande valor na história de nossas vidas, algo que jamais será esquecido. Percebi que o Japão guarda seus segredos e situações a serem descobertos, em qualquer região.


Enviada em: 28/02/2008 | Última modificação: 29/07/2010
 
« Para meus pais, para minha filha Kawasaki, província de Miyagi, parecia que algo nos pertencia »

 

Comentários

  1. Elisa K. @ 10 Abr, 2008 : 06:07
    Prezado Claudio, não há frase mais adapta àquela de Tolstoi, para concluir sua história. E que a bela Gabriela possa absorver a essência desta frase e possa contribuir com uma humanidade um pouco melhor, para os nossos futuros. Abraços.

  2. claudio @ 3 Mai, 2008 : 11:34
    quau a origem o sgnificado de claudio e a deriva

  3. Rita de Cássia Arruda @ 4 Mai, 2008 : 10:50
    Prezado Cláudio: Seus depoimentos são fantásticos; riquíssimos em detalhes e cheios de emoção. Esse seu encontro com o passado – o resgate de suas origens – é muito significativo. Você está certíssimo ao dizer que as histórias dos imigrantes japoneses que aportaram no Brasil são bastante parecidas mas, ao mesmo tempo, repletas de singularidades. Cada qual com sua marca própria. Ahhhh... Eu também gosto do canal NHK, embora não entenda rigorosamente nada do que é dito ali. Gosto de ver as receitas que são preparadas e os programas onde são ensinados artesanatos. Tem um programa infantil muito interessante. Cada “kodomo” mais fofo que o outro. Crianças lindas; tão comportadinhas... Dá vontade de morder. Obrigada por dividir conosco suas memórias. Um abraço.

  4. Mario Katsuhiko Kimura @ 22 Mai, 2009 : 10:09
    Claudio Riyudi Tanno-sam. Confesso que viajei contigo nas três narrativas, conheci as terras de seus ancestrais, uma delas terras do meu pai (Hiroshima), e mesmo nunca ter ido ao Japão tive a oportunidade de ver com seus olhos o trajeto, as paisagens, as pessoas, as cidades, as diferenças culturas da capital e do interior... Parabéns pela forma de sua narrativa, com certeza a sua filha também irá adorar em ler e viajar pelas terras de nossos antepassados. A propósito, conheço um Tanno, o George que trabalhou no Banco do Brasil como eu, hoje um grande empresário empreendedor, dirigente de rede de lanchonete (Girafas) e sua esposa da rede de lojas de roupas finas (Gregori), não seria seu parente? Grande abraço, saúde e sucesso.

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