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  Conte sua históriaMonja Coen/ Cláudia de Souza › Minha história

Monja Coen/ Cláudia de Souza

São Paulo / São Paulo - Brasil
73 anos, monja

De volta à terra natal


No total passei doze anos no Japão. Oito anos vivendo no Mosteiro de Nagóia e o resto praticando em outros templos. Em 1995, quando o templo zen da Liberdade, na Rua São Joaquim, foi reconstruído, Moriama Roshi me convidou para cuidar do templo. Como eu era brasileira e já tinha me formado, era adequado que eu viesse para cá. Mas havia também a possibilidade de eu ficar em templos no Japão, o que era muito mais sedutor para mim. Havia um templo belíssimo nas montanhas, perto do Monte Fuji, construído para receber os estrangeiros que quisessem conhecer o zen. E o plano era de que eu fosse para lá, e esse fosse o meu templo.

Só que eu me casei com um monge japonês, e esse casamento causou grandes alterações em toda a minha carreira. Eles não queriam dois monges cuidando daquele templo nas montanhas. Queriam que só eu ficasse lá. E é justamente o meu marido que levantou a questão: “Por que não vamos para o Brasil? Seria muito interessante ir para um país onde o budismo praticamente não existe.”

Então eu voltei para o Brasil. E fiquei espantada com o que vi. Eu e meu marido fomos assistir a uma cerimônia dos imigrantes japoneses e ficamos de boca aberta. Pensamos: “Nossa, mas que coisa mais antiga!”. E não era antigo no sentido de tradicional. Era velho. Por que os jovens da colônia japonesa não seguiam? Porque parou no tempo. O Japão hoje é um país moderníssimo, que está fervilhando de vida. E aqui não.

A outra coisa foi a discriminação pelo fato de eu ser mulher e brasileira. Havia uma senhora japonesa que dizia assim: “Aqui não é templo de mulher!”. E eu respondia: “Mas isso não existe mais. Eu aprendi o ofício de monja, sou reconhecida como tal no Japão.” Mas ela dizia: “Templo de mulher é templo pequenininho!”.

Ela ainda tinha resíduos da discriminação que as monjas sofriam antigamente no Japão. Elas ficavam sempre na retaguarda, trabalhavam na cozinha e na lavanderia dos mosteiros masculinos. Algumas podiam ouvir as palestras de longe. Até que, no Pós-Guerra, surgiu Kojima Sensei, uma mulher que abandonou o cargo de abadessa num mosteiro para fazer campanha no Japão todo pelo direito de as monjas usarem manto de cor – antes só podiam usar preto –, de terem suas discípulas, de fazerem cerimônias de enterros e casamentos. Tudo isso antes não podia.

Hoje a posição das monjas é equivalente à dos monges, mas o zen-budismo ainda é uma religião predominantemente masculina. A minha tradição, a Soto Zen, por exemplo, tem 30 mil monásticos, dos quais menos de 2 mil são mulheres. Na nossa sede administrativa não há nenhuma monja. São só homens que administram nossa instituição. A minha superiora no Mosteiro de Nagóia foi a primeira e, até agora, a única mulher a ter um cargo de conselheira. Isso em 700 anos de História.

O curioso é que, apesar do estranhamento no início – por eu ser mulher e brasileira – as senhoras de idade vinham me pedir para fazer as cerimônias memoriais em português. Elas diziam: “Meus netos não falam japonês, e eu não falo português para poder explicar. Explique a minha religião para eles!”. Então eu passei a rezar as missas em japonês e em português no templo da Liberdade. E quando eles viram que eu rezava em japonês e continuava falando em japonês depois que as cerimônias acabavam, eles se abriram. E aí começaram a falar pra mim sobre os gaijin. Como se eu não fosse gaijin.

E o templo começou a crescer. No final de semana, eu rezava umas dez missas por dia. Abri também um horário de meditação todas as manhãs. E começaram a vir mais pessoas. Nas palestras, que eu fazia às sextas à noite, nas quais vinham umas dez pessoas, começaram a vir sessenta, setenta. E tinha aula de caligrafia, kenjutsu, ninjutsu, caratê. Começou um movimento muito grande não só de japoneses, mas também de não-japoneses.

E aí a gente entrou numa briga antiga: as pessoas que fundaram o templo não queriam que os não-japoneses freqüentassem. Afinal, lá era o reduto deles, o lugar de manter as tradições, manter o contato com a Japão. Se lembrarmos que essa colônia foi muito abusada e maltratada quando chegou ao Brasil, é compreensível que eles quisessem manter alguns núcleos isolados. Mas nós estamos em outra época, não é verdade? E os filhos, netos e bisnetos desses japoneses já não são mais japoneses. Eles falam como brasileiros, amam como brasileiros, e têm algumas gotinhas de cultura japonesa dentro deles.

Depoimento ao jornalista Xavier Bartaburu
Fotos: Carlos Villalba e arquivo pessoal da Monja Coen


Enviada em: 04/06/2008 | Última modificação: 05/06/2008
 
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Comentários

  1. Teruco Araki Kamitsuji @ 6 Jun, 2008 : 10:41
    Párabéns pela reportagem. O meu sogro pertence a essa seita religiosa e foi ele que me fez ter o primeiro contato. Hoje eles, minha sogra e ele, são falecidos, mas as missas realizamos no templo da Liberdade. Muito interessante a sua trajetória. Admirei a sua fibra!! Parabéns por ser mulher!! Admirável a sua postura. Gostaria de conhecer o seu templo. Abraços carinhosos Teruco

  2. LUIZ S. ISHIBE @ 8 Jun, 2008 : 10:31
    Conheço bem a trajetoria da monja Coen, alias Coen em japones significa jardim. Sua grande qualidade e exemplo é conhecido pela renuncia a prazeres material . Congratulation...

  3. Alessandra Azambuja @ 18 Jul, 2008 : 21:52
    Fico realmente emocionada ao ler esta história,afinal como ocidental também demorei para conhecer este país mas o conheci através da Culinária. Tenho aprendido muito com este país, e tive o prazer de visitá-lo! Aprender com ele que andar lado a lado, no compasso leva adiante, admiro a cultura, a estetica e principalmente a educação japonesa e por isso, valem sempre mestres!!! Vou conhecê-la!

  4. Flávio Daruz @ 29 Ago, 2008 : 16:54
    Muito curiosa a sua história, que tive o prazer de ler hoje. Eu também gosto da cultura japonesa e, como descrevi em minha página, passei por algumas experiências similares. Nunca, porém, teria a coragem de enfrentar a vida de um monastério. Que bom que, sendo seu caminho tão incomum, você tenha tido a sorte de esbarrar nele. Um grande abraço.

  5. budista @ 10 Out, 2008 : 01:26
    revista veja faz entrevista com éla

  6. amarelo japa @ 26 Out, 2008 : 13:52
    qual a hsitoria do budismo no BR?

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Este projeto tem a parceria da Associação para a Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil

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