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Monja Coen/ Cláudia de Souza

São Paulo / São Paulo - Brasil
73 anos, monja

A descoberta do budismo


Em toda a minha infância e adolescência eu nunca havia tido contato com o budismo. Nem com o Japão. O país era uma coisa muito distante pra mim. Só com uns vinte e poucos anos de idade é que fui ter um namorado japonês. Que era o Ruy Ohtake. Na época eu trabalhava no Jornal da Tarde e me pediram para entrevistar este “jovem arquiteto extravagante e promissor”. E a gente teve um pequeno romance, muito rapidinho. Ele era muito respeitoso. Ele me trazia presentes, me convidava pra almoçar na casa da mãe dele – que era a Tomie Ohtake. Mas não chegamos a ter um relacionamento profundo.

Só mais tarde, quando eu fui morar nos Estados Unidos, é que eu comecei a me interessar por meditação. Mais ligado à Índia, nada a ver com o Japão ainda. E lá eu acabei lendo um livro sobre ondas alfa onde havia uma entrevista com um monge japonês. E esse monge falava uma coisa que me pegou. A autora perguntou: “Se nós podemos usar eletrodos para induzir alfa, então nós não precisamos meditar”. E o monge respondeu: “Por que vocês querem entrar pela janela?”

Aí eu fui procurar zen-budismo na lista telefônica e encontrei o Zen Center de Los Angeles, que era liderado pelo Maezumi Roshi, um mestre japonês. Era uma comunidade basicamente de norte-americanos. Havia pouquíssimos japoneses. A maioria das pessoas estava lá porque tinha muito interesse pela cultura japonesa. Tinham vistos todos os filmes do Kurosawa, por exemplo. Eu não. Eu não tinha visto nenhum filme dele e não me interessava pelo Japão. Era tudo muito distante pra mim.

Ao contrário dos americanos, eu não me interessei pela cultura japonesa até descobrir o zen. E quando eu descobri o mestre Dogen, fundador do zen-budismo, eu me apaixonei por ele. Eu queria entender o que ele falava, o que ele pensava. Quando eu fui para o Japão, eu fui para a terra de mestre Dogen, e não para a terra de Kurosawa, a terra do sumô, a terra da cerimônia do chá. Tudo isso veio depois.

Quando eu comecei a fazer meditação, foi uma maravilha! Eu descobri essa coisa de olhar para a parede, de manter os olhos baixos, de não fechar os olhos ao meditar. Quer dizer, o dentro e o fora não estão separados. O que está acontecendo nesta realidade é o que está acontecendo na minha realidade interior. Esta descoberta foi de uma riqueza incomensurável!

Depois de três anos de prática no Zen Center, fui ordenada monja. Para a minha ordenação, chegaram do Japão dois monges que vieram ajudar meu mestre. E esses monges, assim como ele, tinham uma suavidade no trato, uma gentileza, que me fez pensar: “Eu gostaria de ser assim”. E os três tinham estudado no mesmo mosteiro. Eu pensei: “Ah, então acho que é mosteiro! Eu quero ir para lá, eu quero ser como eles.”

Aí eu pedi ao meu mestre para ir ao Japão, mas ele não concordou. Ele havia mandado monges americanos para lá e houve uma diferença cultural muito grande. Sofreram muito e lá acabaram desistindo, todos eles. Mas eu insisti, e ele finalmente concordou.

Depoimento ao jornalista Xavier Bartaburu
Fotos: Carlos Villalba e arquivo pessoal da Monja Coen


Enviada em: 04/06/2008 | Última modificação: 05/06/2008
 
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Comentários

  1. Teruco Araki Kamitsuji @ 6 Jun, 2008 : 10:41
    Párabéns pela reportagem. O meu sogro pertence a essa seita religiosa e foi ele que me fez ter o primeiro contato. Hoje eles, minha sogra e ele, são falecidos, mas as missas realizamos no templo da Liberdade. Muito interessante a sua trajetória. Admirei a sua fibra!! Parabéns por ser mulher!! Admirável a sua postura. Gostaria de conhecer o seu templo. Abraços carinhosos Teruco

  2. LUIZ S. ISHIBE @ 8 Jun, 2008 : 10:31
    Conheço bem a trajetoria da monja Coen, alias Coen em japones significa jardim. Sua grande qualidade e exemplo é conhecido pela renuncia a prazeres material . Congratulation...

  3. Alessandra Azambuja @ 18 Jul, 2008 : 21:52
    Fico realmente emocionada ao ler esta história,afinal como ocidental também demorei para conhecer este país mas o conheci através da Culinária. Tenho aprendido muito com este país, e tive o prazer de visitá-lo! Aprender com ele que andar lado a lado, no compasso leva adiante, admiro a cultura, a estetica e principalmente a educação japonesa e por isso, valem sempre mestres!!! Vou conhecê-la!

  4. Flávio Daruz @ 29 Ago, 2008 : 16:54
    Muito curiosa a sua história, que tive o prazer de ler hoje. Eu também gosto da cultura japonesa e, como descrevi em minha página, passei por algumas experiências similares. Nunca, porém, teria a coragem de enfrentar a vida de um monastério. Que bom que, sendo seu caminho tão incomum, você tenha tido a sorte de esbarrar nele. Um grande abraço.

  5. budista @ 10 Out, 2008 : 01:26
    revista veja faz entrevista com éla

  6. amarelo japa @ 26 Out, 2008 : 13:52
    qual a hsitoria do budismo no BR?

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