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  Conte sua históriaMonja Coen/ Cláudia de Souza › Minha história

Monja Coen/ Cláudia de Souza

São Paulo / São Paulo - Brasil
73 anos, monja

Uma infância de questionamentos


Toda a minha infância foi na cidade. Meu pai trabalhava nos Campos Elíseos, no governo do Estado de São Paulo, e a gente morava ali perto. Foi uma infância de muita brincadeira, muito alegre. Minha mãe era poetisa e professora de declamação. E eu aprendi a declamar muito cedo. Antes de aprender a ler e a escrever, eu decorava as poesias. Meu pai também tinha muitos livros. Ele se formou em Biblioteconomia e gostava muito de ler. Tinha a coleção completa do Eça de Queiroz, e dizia pra mim: “Esses são livros de adulto. Não são pra você”. Foi a palavra mágica. Com 9 anos de idade, eu comecei a ler Eça de Queiroz.

Na mesma época, minha mãe foi fazer uma pós-graduação em Filosofia. E uma das maneiras que ela tinha de estudar e, ao mesmo tempo de brincar comigo, era me pôr pra ler em voz alta os livros que ela estava estudando. Eu lembro que eu li um tratado de antropologia que mudou a minha visão do mundo. Falava de tribos diferentes, questionava a monogamia, a poligamia, o patriarcado. E aquilo pra mim foi uma expansão de consciência muito interessante.

Minha mãe também era funcionária do Ministério da Educação. Seu trabalho era inspecionar colégios e analisar como os professores estavam ensinando. E eu muitas vezes ia com ela. Então, a minha visão de escola era um pouco diferente. Eu não via os professores com medo, mas com o olhar crítico da minha mãe. Desde criança, eu já questionava: “Será que esta é uma boa aula? Será que este é um bom professor?”

Quando eu tinha 13 anos, minha mãe colocou a mim e a minha irmã num colégio de freiras. Ela achava que estávamos muito meninos, que tínhamos que aprender modos mais de mocinha. Então eu saí da Caetano de Campos e fui para essa escola, cujo ensino era inferior naquela época. Pra mim, foi como se tivesse repetido de ano. Ao mesmo tempo, era uma escola de meninas ricas. Como eu não tinha tanto dinheiro quanto elas, eu não fui aceita no grupo. Não tive nenhuma amiga lá dentro.

É nessa época que eu comecei a questionar as freiras, os padres, tudo o que está acontecendo ali. Por exemplo: Jesus ensina que somos todos iguais. Mas a minha mãe não compartilhava as carnes e as sobremesas com as empregadas. E eram elas que cuidavam de mim quando eu chegava da escola. Essa diferença de tratamento me incomodava muito. Eu sentia que os cristãos pregavam uma coisa, mas não viviam isso. E na escola eu via que as irmãs não eram todas santas. Eram seres humanos. Eu via as falhas delas.

E o meu pai, trabalhando com política, tinha uma certa desilusão com as religiões. Porque via que os religiosos se aproximavam dos políticos pra pedir coisas. Não só dinheiro e favores, mas também mulheres. Então meu pai tinha uma birra com os religiosos. Diante de tudo isso, eu comecei a questionar a Igreja Católica, os religiosos, os conceitos: o que é Deus? O que é a vida? O que é a morte? Aí eu concluí: “Eu não acredito nessa história da Igreja Católica, eu não entendo o que é essa missa. E não vou mais.” Dos 13 aos 28 anos, eu fui atéia.

Com 14 anos de idade, eu me casei. A situação na escola estava insustentável quanto ao relacionamento com as minhas colegas. Em casa, meus pais tinham se separado, e a minha mãe sofria com a não-aceitação de mulher divorciada naquela época. Isso tudo me levou a um casamento muito cedo, com um homem 7 anos mais velho que eu. Era uma forma de provar alguma coisa para as minhas colegas e também uma boa oportunidade de sair de casa, já que a minha mãe era muito dominadora. O casamento pra mim foi uma boa solução naquele momento. Mas logo depois, durante a gravidez, eu me separei. Fui ter a minha filha com 17 anos. E, depois que a menina nasceu, fui obrigada a morar com minha mãe de novo, porque não tinha dinheiro.

Depoimento ao jornalista Xavier Bartaburu
Fotos: Carlos Villalba e arquivo pessoal da Monja Coen


Enviada em: 04/06/2008 | Última modificação: 05/06/2008
 
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Comentários

  1. Teruco Araki Kamitsuji @ 6 Jun, 2008 : 10:41
    Párabéns pela reportagem. O meu sogro pertence a essa seita religiosa e foi ele que me fez ter o primeiro contato. Hoje eles, minha sogra e ele, são falecidos, mas as missas realizamos no templo da Liberdade. Muito interessante a sua trajetória. Admirei a sua fibra!! Parabéns por ser mulher!! Admirável a sua postura. Gostaria de conhecer o seu templo. Abraços carinhosos Teruco

  2. LUIZ S. ISHIBE @ 8 Jun, 2008 : 10:31
    Conheço bem a trajetoria da monja Coen, alias Coen em japones significa jardim. Sua grande qualidade e exemplo é conhecido pela renuncia a prazeres material . Congratulation...

  3. Alessandra Azambuja @ 18 Jul, 2008 : 21:52
    Fico realmente emocionada ao ler esta história,afinal como ocidental também demorei para conhecer este país mas o conheci através da Culinária. Tenho aprendido muito com este país, e tive o prazer de visitá-lo! Aprender com ele que andar lado a lado, no compasso leva adiante, admiro a cultura, a estetica e principalmente a educação japonesa e por isso, valem sempre mestres!!! Vou conhecê-la!

  4. Flávio Daruz @ 29 Ago, 2008 : 16:54
    Muito curiosa a sua história, que tive o prazer de ler hoje. Eu também gosto da cultura japonesa e, como descrevi em minha página, passei por algumas experiências similares. Nunca, porém, teria a coragem de enfrentar a vida de um monastério. Que bom que, sendo seu caminho tão incomum, você tenha tido a sorte de esbarrar nele. Um grande abraço.

  5. budista @ 10 Out, 2008 : 01:26
    revista veja faz entrevista com éla

  6. amarelo japa @ 26 Out, 2008 : 13:52
    qual a hsitoria do budismo no BR?

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