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Monja Coen/ Cláudia de Souza

São Paulo / São Paulo - Brasil
73 anos, monja

Conhecendo “kokoro”


Apesar de não falar a língua, eu me senti muito à vontade no Japão. Lá era a minha casa. Quando eles falavam que eu não era japonesa, eu levava um susto. Era um estranhamento, porque eu me sentia em casa, mesmo sem falar japonês. Na primeira grande cerimônia em que eu participei lá, eu sabia fazer tudo. Ninguém me ensinou. Parecia que eu sempre havia sabido fazer isso.

Isto me trouxe problemas, pois as outras monjas se perguntavam: “como é que uma não-japonesa pode sentir o que nós, japonesas, sentimos?”. Elas não admitiam que um estrangeiro tivesse “kokoro”. “Kokoro” quer dizer mente, essência, sensibilidade. É o que se educa em uma criança japonesa. Se ela faz algo errado, dizem: “você não tem kokoro". Isso na educação japonesa é muito forte: a sensibilidade ao outro, a capacidade de cuidar de quem está à sua volta, e não pensar só em si. Se você tem amiguinhos em casa, você serve seus amiguinhos, você cuida deles. Quando eu voltei para o Brasil, eu falei: “Eu quero levar é o kokoro.” O resto é superficial.

Quase todas no mosteiro achavam que, por eu ser estrangeira, eu não poderia ter kokoro. E havia também o ciúme, a rivalidade. A superiora estava muito feliz que estivesse lá, me usava sempre como exemplo. Dizia: “Ela veio do outro lado do mundo praticar conosco. Dê valor a nosso mosteiro”. Portanto, eu era um elemento de raiva. Para piorar, teve uma época em que eu vigiava a sala de meditação. Se alguém dormia, eu batia com um bastão chamado “kyosaku”. E batia pra valer. Aí elas ficavam com mais raiva ainda.

Teve um momento na minha prática em que eu fui muito excluída. E essa é a coisa que mais dói. Nos mosteiros masculinos, se alguém faz uma coisa errada, eles pegam esse bastão e dão 30 bastonadas. No mosteiro feminino não tem isso, mas tem uma coisa que se chama “ijiwaru”. É o ostracismo: você não faz parte do grupo, você é de fora, você não segue as regras. E era muito difícil para mim entender quais eram essas regras que eu estava infringindo.

Por exemplo: quando eu ia falar com a minha superiora e ela estava sentada no tatame, eu ficava de pé na porta para falar. Para nós, isto é o mais educado; você não se senta enquanto o superior não permitir. No Japão, é o oposto. Primeiro você se senta, e tem que ficar com a cabeça mais baixa que o outro. Então me achavam muito orgulhosa. Durante 6 meses fiz uma coisa errada que eu não percebia. Até que eu fui aprendendo a falar japonês. E quando você aprende a falar, você aprende uma maneira de pensar.

Mas as coisas mais inesquecíveis que eu vivi no Japão foram quando eu ia rezar na casa das pessoas. Isso a gente fazia todos os dias. Tinha uma bachan, por exemplo, que não podia ficar de pé, porque ela tinha osteoporose. Então ela vinha me receber de quatro na porta. Era uma senhora pobre. Enquanto eu rezava na frente do altarzinho, ela ficava me abanando o tempo todo, caso fizesse calor. Se fizesse frio, ela punha o aquecedorzinho dela perto de mim. Eu aprendi muito mais com a população japonesa do que nas liturgias monásticas. Com esse contato diário, eu fui aprendendo uma nova forma de pensar e ver o mundo, que é linda.

Que, por sinal, tinha muito a ver com coisas que já eram minhas. Quando eu era criança e saía na rua com meu pai, por exemplo, eu não dizia “Eu quero sorvete”; eu dizia “Tem um sorveteiro ali”. Eu nunca dizia nada diretamente. No Japão é tudo assim. Tanto que, quando você se senta a uma mesa, se a pessoa olha para a comida, você oferece. Você não espera ninguém pedir. Isso é ter “kokoro”. Esse trabalho de sair-se de si mesmo vai ser chamado no budismo de “coração de Bodhisattva”, de ser iluminado. Se eu crio harmonia e todos ficam bem, então eu também fico bem.

Depoimento ao jornalista Xavier Bartaburu
Fotos: Carlos Villalba e arquivo pessoal da Monja Coen


Enviada em: 04/06/2008 | Última modificação: 05/06/2008
 
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Comentários

  1. Teruco Araki Kamitsuji @ 6 Jun, 2008 : 10:41
    Párabéns pela reportagem. O meu sogro pertence a essa seita religiosa e foi ele que me fez ter o primeiro contato. Hoje eles, minha sogra e ele, são falecidos, mas as missas realizamos no templo da Liberdade. Muito interessante a sua trajetória. Admirei a sua fibra!! Parabéns por ser mulher!! Admirável a sua postura. Gostaria de conhecer o seu templo. Abraços carinhosos Teruco

  2. LUIZ S. ISHIBE @ 8 Jun, 2008 : 10:31
    Conheço bem a trajetoria da monja Coen, alias Coen em japones significa jardim. Sua grande qualidade e exemplo é conhecido pela renuncia a prazeres material . Congratulation...

  3. Alessandra Azambuja @ 18 Jul, 2008 : 21:52
    Fico realmente emocionada ao ler esta história,afinal como ocidental também demorei para conhecer este país mas o conheci através da Culinária. Tenho aprendido muito com este país, e tive o prazer de visitá-lo! Aprender com ele que andar lado a lado, no compasso leva adiante, admiro a cultura, a estetica e principalmente a educação japonesa e por isso, valem sempre mestres!!! Vou conhecê-la!

  4. Flávio Daruz @ 29 Ago, 2008 : 16:54
    Muito curiosa a sua história, que tive o prazer de ler hoje. Eu também gosto da cultura japonesa e, como descrevi em minha página, passei por algumas experiências similares. Nunca, porém, teria a coragem de enfrentar a vida de um monastério. Que bom que, sendo seu caminho tão incomum, você tenha tido a sorte de esbarrar nele. Um grande abraço.

  5. budista @ 10 Out, 2008 : 01:26
    revista veja faz entrevista com éla

  6. amarelo japa @ 26 Out, 2008 : 13:52
    qual a hsitoria do budismo no BR?

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