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  Conte sua históriaSamantha Shiraishi › Minha história

Samantha Shiraishi

São Paulo / SP - Brasil
48 anos, jornalista

Nihongo wakaranai


Nem tinha tempo agora, mas vou escrever para contar de um puxão de orelha.
Estou alterando o texto que postei ontem, 09/01 (falando de Terra Natal e Sobrenome), um dia depois de publicá-lo porque recebi uma mensagem do gentil Silvio Sano me explicando que as palavras sobrenome e terra natal - Miyoji (miyodi) e Furusato (furussatô) - estavam grafadas erroneamente.
Aproveito para falar de dois assuntos.
Primeiro, não falo japonês. Não sei se culpo minha falta de tempo, o fato de ser sansei (neta de japoneses portanto), ser mestiça de pai nissei (noto que as mães passam mais esta "cultura dentro de casa") ou se é uma falha da minha mesmo. Enfim, não entendo e o pouco que estudei quando morei em Tokyo vive em atrito com o que aprendi da Batian (que nasceu na Era Taishô) e com o que se fala nos kenjinkais e seinenkais que já frequentei. Aprendi com um método chamado Japanese For Busy People, da AJALT (http://www.ajalt.org/sfyj) e lá o método se baseava na grafia Hepburn, que é uma das várias utilizadas para romanizar o japonês. Para mim o único chan (tian) que continua com T é de Batian, porque acostumei a chamar a minha avó assim. Mas o resto, é "chan", como chamo meu filho Enzo, En-chan (Enzinho, né?), e Gio-chan (Giorginho). Estas são apenas algumas das imensas diferenças que separam o Japão de meus avós do "meu" Japão.
Ainda hoje, quando alguma pessoa de Niigata (província de origem da Batian Matsuno) visita a empresa, o pessoal comenta que eles falam com sotaque do interior. Claro que eu não consigo distinguir nada, mas enfim, falo com sotaque caipira várias palavras, especialmente da culinária. Meu esposo, que descende de italianos, espanhóis e portugueses, mas teve o bom senso de estudar um pouco de nihongo no Bunkyo de Curitiba, me corrige freqüentemente e me ensina algumas regras de etiqueta japonesa que eu não conhecia.
Enfim, no lado japonês não tive uma educação social, minha mãe (neta de alemães e portugueses) achava tudo tão lindo e educado no Japão e na conduta de minha Batian que nunca questionou se os hábitos eram finos ou não. Eram, simplesmente, irreparáveis. E o carma que eu carrego do cônjuge brasileiro saber mais do que o nikkei vem dos meus pais: minha mãe sempre apreciou mais a cultura japonesa do que meu pai, que é brasileiro por dentro e japonês só por fora. (brincadeira)
A outra questão é sobre os nisseis. Empiricamente eu separo os nisseis em dois tipos: os que tiveram sua cultura preservada pelos pais, o que começa pela manutenção do idioma como língua principal dentro do lar, e os que não tiveram esta imersão cultural e receberam mais estímulo para adaptação ao país onde nasceram. Meu pai corresponde a esta geração e, grosso modo, posso considerar que seus cinco de seus sete irmãos também. Apesar de terem aulas de nihongo no sítio (ministradas pelo irmão mais velho, a quem chamei sempre de "tio Nissan"), eles não falam o suficiente do idioma dos pais. Lembro-me nitidamente de ter visto, escondida, minha Batian ralhar com meu pai duas vezes, ela falando e ele simplesmente respondendo: hai, hai. Cresci acreditando que era um imenso respeito dele não responder mal à mãe, mas hoje sei que era pura falta de vocabulário - ou, quem sabe, até de entendimento!
Ao se aposentar no Banestado (como muitos filhos de imigrantes, meu pai foi um funcionário público de carreira, para alegria de seu pai), ele foi trabalhar no Japão para conhecer a terra dos pais. Lá viveu o que muitos nisseis passaram: o constrangimento de parecer japonês, mas não ser. E usar o bom e velho "nihongo wakaranai" era uma saída rápida para a falta de habilidade na conversação. A mesma habilidade que os pais nisseis esperam que seus filhos sanseis tenham com idiomas que, na opinião deles, nos dariam um futuro melhor, como o inglês, eventualmente espanhol e francês. Estudei em escola técnica (Cefet-PR) com muitos nikkeis e considero que a minha geração foi a da negação do nihongo. Assim, cá estou eu, tendo morado dois anos no Japão falando basicamente o inglês. E continuo sendo alguém que "nihongo wakaranai".
Como se sairão meus yonseis? Creio que serão como esta geração de filhos de dekasseguis que estudou um pouco lá, um pouco aqui e consegue fazer a síntese do Brasil e Japão melhor do que nós.

http://samanthashiraishi.wordpress.com
http://movimentodekassegui.blogspot.com
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=3033445


Enviada em: 10/01/2008 | Última modificação: 10/01/2008
 
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Comentários

  1. Sílvio Sano @ 3 Jan, 2008 : 12:43
    O que se percebe aqui é que Sam, como gosta de ser chamada, muito simpática, por sinal (talvez uma das razões de eu ter me abdicado do Sam para retomar o Sano – rsrs), cumpre bem uma das causas que abraçou em prol dos dekasseguis, não apenas com informações trabalhistas, como também com reflexões sobre posturas cidadãs. A outra, a da mãe em prol da educação dos filhos não aparece tanto aqui, de forma justificada, mas quem a conhece sabe de sua dedicação, e com muito carinho, a essa causa, com a qual convive no dia-a-dia. Confira: http://samanthashiraishi.wordpress.com. Mas eu, que sou muito curioso sobre o tema que é escopo deste site, quero ler mais sobre o ditian Sadanori e suas aventuras pelo Mato Grosso, até por sua pouca idade quando veio ao Brasil (estaria completando a cota de alguma outra família, ou da própria?) e, bem como sobre sua relação (Sam) com os pais, tios e até avós de outras formações culturais diferentes, privilégio, aliás, que este país, de mais de 60 nacionalidades imigrantes, possibilita.

  2. Fátima Franco @ 8 Jan, 2008 : 14:47
    Oi, Samantha: estou elaborando um post sobre o Centenário e foi muito bom te encontrar aqui. Suas informações são ótimas e aí é que a gente descobre que desconhece taaaanto sobre o assunto. Abs

  3. Sam @ 9 Jan, 2008 : 13:12
    Silvio, que gentil comentário. Um gentleman, como sempre. Sim, estou devendo um texto sobre o Ditian Sadanori. Ele veio para cumprir uma cota, mas não vou contar, a história é boa e vale um texto especial. Minha relação com os tios (7 do lado paterno) e primos (perdi a conta de quantos são, pois os filhos dos primos é que são da minha idade, mas vou contar e fazer um texto sobre eles tb) é de aglutinadora, mantenho um blog privado onde postamos fotos uns dos outros para nos mantermos informados sobre o que se passa, chama-se Álbum de fotos da Batian Matsuno (Sutou) Shiraishi. Uma idéia que muitas familias poderiam adotar, pois tem nos aproximado, inclusive as gerações mais novas e distantes (filhos e netos de primos). Agradeço sua gentileza em escrever aqui e me provocar a lembrar de tantos temas. Abraços Sam

  4. Sam @ 9 Jan, 2008 : 13:13
    Fátima, que coisa boa encontrá-la aqui também! Assim que fizer seu texto me avise, quero ler. Abraços Sam

  5. Yassuda Renato @ 9 Jan, 2008 : 17:26
    Prezada Samantha; Admirei suas histórias e relatos. Por coincidência, além de ter um ancestral da mesma provincia dos seuss,também tenho uma prima filha de pai descendente de japones com mãe descendente de alemão, mas ela nasceu em Londrina-PR e hoje é médica no Rio de Janeiro. Gostaria que você pudesse ler minha história de vida também. Ficaria muito honrado. Obrigado.

  6. abilio @ 18 Jan, 2008 : 18:47
    verdadeira historia imin 100 esta nesse site www.imigracaojaponesa.com.br

  7. Caroline Yamaoka Hoffmeister @ 3 Fev, 2008 : 18:40
    Samantha... achei lindos seus textos e sua historia de vida... também sou decendente de japonês e alemão, mas no meu caso, meu pai é alemão... e olha só...também do Paraná heheh... um abração...espero ler mais coisas sobre você!

  8. Emanuelly Pereira de Andrade Paes @ 18 Jun, 2008 : 18:10
    Tikara e Keika,são japoneses,mas a Keika não parece ser, ela brasileira ou é japonesa mesmo?Mas também eu queria saber que dia que eles aparecerão nos gibis da turma da mônica?

  9. Toyoyuki Kaya @ 17 Jun, 2010 : 12:59
    Samantha, li atentamente a sua história, bem como da sua família. Muito legal! Constatei que fui colega do seu pai no Banestado em Curitiba. Gostaria de manter contato com êle. O meu e-mail: Toykaya@gmail.com Também, escrevi algumas coisas contando a minha história nessas páginas. Abraços.

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