Olá, faça o Login ou Cadastre-se

  Conte sua históriaIçami Tiba › Minha história

Içami Tiba

Cotia / SP - Brasil
67 anos, psiquiatra, escritor

Os problemas enfrentados em São Paulo


Meus irmãos mais velhos estavam começando a escola, mas eu, aos sete anos, ainda não podia freqüentar. Mas me deixavam entrar até o pátio porque era ‘o filho do Tiba’ e eu me sentava do lado de fora, em um barranco para assistir às aulas pela janela. Gostava muito. Na minha mente, não me lembro de ter ido tantas vezes, mas deve ter sido muito importante porque, quando entrei na escola de fato, em 1949, já sabia ler, escrever algumas coisas e a fazer contas. Anotava, levava para casa e perguntava para minha mãe, que me ensinava. Japonês quando nasce é considerado um ano mais velho, pois conta-se o tempo de gestação. Assim eu poderia ir para a escola aos oito anos pela contagem japonesa, mas o que valia para se matricular na escola era a contagem brasileira de oito anos, equivalente aos nove orientais. Estudei no João Rosa até o terceiro ano e sempre tive as melhores colocações. Hoje, visitando o meu antigo grupo escolar, não encontro mais aquele barranco. Ele está ampliado, com pátio coberto, cercado, com terraplenagem feita à sua volta. Senti uma nostalgia de saber que apagaram os vestígios da minha história, assim como a casa que eu nasci já não existe mais...

Essa escola só tinha o primário e meus irmãos já tinham vindo para a capital estudar no São Francisco Xavier, no bairro do Ipiranga. Nessa época, o colégio era conhecido por receber japoneses nativos e nisseis. Então, fui morar na casa dos tios Tadami e Sawa e seus sete filhos, no Caxingui, hoje Jardim Guedala. Estudei na escola Godofredo Furtado. No ano seguinte, entrei para o Fernão Dias Pais, com uma excelente classificação, todo vitorioso com meu novo uniforme. Esse primeiro ano de capital foi muito bom.

Mas, assim como passei do primário para o ginásio, o tratamento na casa de meus parentes mudou de repente. Meu tio trabalhava como motorista de táxi, meus cinco primos brincavam na rua, minhas duas primas saíam e minha tia me fazia de empregado. Aos doze anos, tinha que fazer as tarefas da casa: encerar, limpar móveis com óleo de peroba, lavar louça, varrer o quintal e fazer todas essas coisas. Gastava um tempo imenso e reclamei para minha tia que queria estudar e não tinha tempo. Ela ficou brava e me mandou estudar à noite! Para piorar a minha situação, minha tia Tomiko, que também morava lá, trabalhava e voltava à noite. O ponto de ônibus era afastado de casa, o caminho era escuro, com vários terrenos baldios. E adivinhe quem tinha que esperar a tia no ponto? Eu, enquanto os outros ficavam em casa. Quer dizer, se acontecesse algo comigo não tinha importância. Fiquei muito revoltado, pensava em fugir, pois era um ‘sobrinho-colono’!

Meu pai me visitava freqüentemente e um dia me questionou por que a minha expressão andava carrancuda, como se eu estivesse bravo. Contei para ele, que me respondeu para agüentar a situação porque a tia não mudaria. Esse ‘ter que agüentar os sofrimentos calado’ (gaman suru) é um traço marcante na cultura japonesa. Choramingar era vergonhoso, era ser fraco, era muito feio.

Tive uma vontade imensa de parar de estudar, de fugir de casa. Mas, quando me lembrava de mamãe dizendo que, para ser médico, teria que estudar muito, me acalmava. Mais tarde, já na Bela Vista, fiquei mais bravo ainda quando descobri que meu pai pagava para eu morar lá e que minha mãe mandava ‘as misturas de que eu tanto gostava’. Talvez meu pai nunca tenha contado isso para a mãe, mas nunca sequer vi a cor e muito menos senti o gosto daquela comida. Fiquei tão revoltado e de mau humor que nem conseguia estudar direito. Esse período teve um custo violento no meu desempenho escolar.

A infância era uma casca que me protegia. Na casa do tio Tadami eu estava deixando a infância, em plena puberdade e ainda sem a proteção da adolescência, quando fui ‘predado’ pela minha tia. Não adiantava o tio Tadami ser uma boa pessoa se a sua esposa era uma megera. Isso me custou quase dois anos, sob o risco de abandonar a escola.

Felizmente, em 1954, meus pais se mudaram para São Paulo. Fomos todos os filhos e a vovó Momoe morar no Edifício Paris Roma Rio, junto ao Teatro Maria Della Costa. Vovô não veio porque não gostava de São Paulo e preferia o interior. A vovó, diabética, vivia adoentada e morreu pouco tempo depois. Minha avó pouco se movimentava, ficando a maior parte do tempo deitada. As conversas com ela eram curtas e praticamente não me lembro de ter proseado com ela, do que ela tenha me falado ou feito.

O nosso apartamento era o maior do conjunto e eu o achava imenso comparado a Tapiraí. Tinha dois quartos, sala, cozinha, um banheiro grande com banheira, área de serviço e as dependências de empregada, onde dormiam os meus pais. Os seis filhos e a vovó Momoe dividiam dois quartos. Para os meus conceitos e idade, parecia que o apartamento era grande, mas hoje percebo o quão pequeno era: é quase inacreditável que tanta gente pudesse viver ali! Além disso, em 1957, Jushiro Sato, parente de minha mãe, veio direto do Japão para morar conosco. Ele só falava japonês, mas o que nós falávamos do idioma era suficiente para nos entrosarmos bem.

Depoimento à jornalista Patrícia Rodrigues
Fotos de Renato Stockler e arquivo pessoal de Içami Tiba


Enviada em: 02/07/2008 | Última modificação: 18/07/2008
 
« Comidinhas japonesas, judô e muitas festas As festas no kaikan e as gincanas de undokai »

 

Comentários

  1. Susilene Uwagoya @ 3 Jul, 2008 : 06:19
    Uma história de muita luta e perseverança!!! E o sucesso como mérito! !!

  2. Klissia Tiba @ 3 Jul, 2008 : 14:52
    Olá Içami! Tudo bem? Parabéns pelo trabalho! Suas obras são muito boas! Temos o mesmo sobrenome, será que temos algum parentesco? Bom, eu vi que em sua galeria tem uma foto do brasão da família Tiba, você se importa se eu também colocar a foto na minha galeria? Obrigada. Sucesso para você! Klissia Tiba.

  3. Ryoki Inoue @ 4 Jul, 2008 : 18:41
    Tiba, velho colega! Parabéns por seu depoimento (biografia, na verdade)! A admiração que sempre tive por você, desde os nossos tempo de judô na Pinheiros, ficou ainda maior depois de tê-lo visto fazendo sucesso na psiquiatria. Agora, depois de ler a sua história de vida, essa admiração não tem mais medida! Um forte abraço!

  4. Emilia Sumie Adachi @ 6 Jul, 2008 : 23:46
    Depoimento cativante! Sou nissei como você e me "vi" em vários pontos de seu depoimento: as comidas da infância, o Kai-kan o undoo-kai, as não-festas de aniversário, a rigidez da educação, o entendimento posterior da importância da cultura na minha formação... Estou hoje com 52 anos e sou muito grata a meus pais pela educação que me deram, apesar da rigidez e "frieza" com que sempre trataram as 4 filhas. Sem dúvida temos fatos marcantes da infância em comum, o que mostra o quão forte, padronizada e arraigada é a cultura dos nossos pais japoneses. Eu sei que carrego muito disso e com certeza, transmiti aos meus dois filhos. Um grande abraço, e obrigada por ter escrito tudo isso em "Sua história". Emília Sumie Adachi (Adati, como o Chiba) (emiliaada@via-rs.net)

  5. silvana lima @ 19 Jul, 2008 : 11:07
    tiba obrigado por existir você ajuda a milhares de pessoa atraves dos seus ensinamentos simples práticos e sou professora de educação infantil e me espelho muito em suas palavras para analisar os meus alunos mas há muita dificuldade em falar com os pais pois são em geral numa sala de 10 apenas 2 não são filhos únicos sendo assim os demais vivem em função de realizar os desejos de seus reis e rainhas fica dificil mas creio que vc sempre vai iluminar minhas palavras e colocações para ajudar esses pais a criarem os seus filhos pra vida e não para si. beijos no seu coração. ah, embora não nos conhecemos mas partilho muitas idéias e pensamentos seus FELIZ DIA DO AMIGO pq embora longe muito me ajuda.xau

  6. helena ueta suzuki @ 4 Ago, 2008 : 23:16
    Quando eu admiro uma pessoa sempre quero conhecê-la melhor. Nesse sentido gostei de ler passagens de sua vida e até pude compreender muitos aspectos da cultura japonesa. Meu pai era japonês e minha mãe é nissei. Na minha infância e adolescência eles falavam essas frases em japonês sobre "aguentar" e "não ficar resmungando" mas acreditava, por exemplo, que só eles não comemoravam o meu aniversário. Gosto de muitos aspectos de minha herança mas ser mais expansiva, não seguir à risca a hierarquia imposta pela cultura e demonstrar abertamente meus sentimentos me deram o tempero de que eu precisava e que só poderia encontrar aqui no Brasil. Entendo bem o que é ser "um japonês saidinho". Tenho 48 anos, também sou médica e posso dizer que em seus livros encontrei conceitos importantes sobre a vida e sobre educação. Essas informações complementaram minha vida profissional e pessoal, uma vez que tanto a faculdade como a residência médica são deficientes em fornecê-las. Além do domínio da língua portuguesa, fato importantíssimo para quem é nissei, seus textos são claros, com termos compreensíveis para todos os leitores e por apresentarem analogias muito interessantes determinaram o seu sucesso como escritor. Acredito que a felicidade está em construir uma vida rica em detalhes, com inúmeros obstáculos transpostos, lutando e reconhecendo todas as conquistas. PARABÉNS !

  7. Mirian Caixeta @ 5 Ago, 2008 : 00:35
    Parabéns Içami,pela luta e pela garra de seus pais,isto fez com que você desse um valor maior aos seus estudos e é o profissional competente que é.Herdou de seus pais e avós, a sua determinação.Conheço seu trabalho e sua obra,jamais pude imaginar que seus pais sofreram tanto.A eles meus respeitos e minha admiração.A você, o meu muito obrigada por ser um brasileiro descendente dos japoneses que eu admiro tanto,mas que nunca foi viver um eldorado que só existe na cabeça de sonhadores brasileiros que deixam nossa pátria pra viver horrores no estrangeiro.O meu abraço carinhoso de Mirian Caixeta.

  8. Marcelo Uchoa @ 20 Ago, 2008 : 08:34
    Bonita História de vida, Dr Içami, já o admirava muito antes do Congresso de Educadores em Juazeiro do Norte-CE e agora mais ainda com a bela História de luta dos seus pais e dedicação em educa os filhos. Parabéns a eles e ao senhor por ser quem é.

  9. dnazzar@ig.com.br @ 5 Set, 2008 : 22:45
    Dr. Içami, nasci e vivi em Taboão da Serra. Quase vizinha de seus pais.Hoje sou Pedagoga, sigo seus ensinamentos na área de piscopedagogia. Seu relato nos mostra que o sonho é maior. Acreditar nas portas que se abrem, arriscar e ter coragem são traços da cultura niponica. Me sinto orgulhosa por tê-lo conhecido ainda na minha infância, hoje trabalho com a neta de Dona Francisca esposa do Sr. Takaki, vizinhos de seus pais. O Sr. é pra mim um grande homem, que DEUS abençoe a o Sr. e a toda sua família.Sou sua fã incondicional. Delma

  10. Jorginho-camjvm@uol.com.br @ 13 Set, 2008 : 16:35
    A cada fala ou aparição do Dr. Içami Tiba na TV me deixa ainda mais orgulhoso, afinal é o nosso conterrânio, tapiraiense nato, o qual tive o previlégio de outorga-lo o titulo de cidadão benemérito tapirainse quando fui vereador da cidaddo 1993/1996. Enfim parabéns Dr. Içami por ser essa pessoa tão especial para Tapiraí/SP. Quem quiser saber mais acesse o site www.camaratapiraisp.com.br clique no icone Titulos de Cidadania e depois clique em cidadão benemériot

  11. japa pobre @ 25 Set, 2008 : 02:30
    sou fã dele

  12. Isadora Mharry Oliveira da Silva @ 27 Out, 2008 : 18:59
    Reverências,Dr.Içami Tiba! Eu sou Isadora Mharry Oliveira da Silva, filha do professor e pedagogo Gervásio Oliveira da Silva, futura profissional de Educação Física, membro da Seicho-No-Ie do Brasil e leitora de seus livros, inclusive O Executivo e Sua família. Como você está? Eu vou bem, obrigada. Para mim,o senhor é psiquiatra-educador, pois seus livros falam de família e de educação entre pais e filhos, ontem ouvi a música da antiga banda Legião Urbana, (com Renato Russo): "Pais e Filhos", que fala justamente sobre a relação entre os pais e os filhos e lembrei-me do senhor! No meu trabalho de faculdade sobre a desordem motora, citei a sua frase do livro O Executivo e Sua Família e publiquei-a no trabalho, pois achei interessante. Por que o senhor não fala sobre a desordem motora no seu próximo livro sobre educação? Fica aqui esta sugestão singela. Vou confessar-lhe uma coisa:também tenho amigos japoneses e descendentes de japoneses na minha cidade, Manaus. Muito obrigada por você existir!Tenha sempre sucesso e saúde, pois você merece ser feliz!Saúde para a sua esposa e para toda a sua família! Um abraço de sua leitora e amiga:Isadora Mharry Oliveira da Silva.

  13. suleimavilaca.@yahoo.com.br @ 9 Nov, 2008 : 16:16
    Conheço seu trabalho há pouco tempo através do livro"Disciplina-limite na medida certa"e me apaixonei pelo seu discurso.Como mãe e professora primária deveria tê-lo conhecido a mais tempo.Talves não tivesse errado tanto! Mas nunca é tarde par aprender e, como você sempre relata em suas entrevistas,pais e professores devem estar sempre estudando.É o que procuro fazer sempre que possível.Descobri há pouco seu site através do livro "Conversas com Içami Tiba"e agora estou feita podendo ter acesso ao seu trabalho com esta facilidade da internet. E viva a tecnologia! Você é grande, sua história é grande. Parabéns e continue com a gente. Sua fã e admiradora.

Comente



Todo mundo tem uma história para contar. Cadastre-se e conte a sua. Crie a árvore genealógica da sua família.

Árvore genealógica

Nenhuma árvore.

Histórias

Vídeos

  • Nenhum vídeo.

| mais fotos » Galeria de fotos

Áudios

  • Nenhum áudio.
 

 

Conheça mais histórias

mais perfis » Com o mesmo sobrenome

 

 

As opiniões emitidas nesta página são de responsabilidade do participante e não refletem necessariamente a opinião da Editora Abril

Este projeto tem a parceria da Associação para a Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil

Sobre o Projeto | Cadastro | Fale Conosco | Divulgação |Termo de uso | Política de privacidade | Associação | Expediente Copyright © 2007 / 2008, Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados