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Içami Tiba

Cotia / SP - Brasil
67 anos, psiquiatra, escritor

Os valores herdados do Japão


Meus pais eram bastante cultos para a época e sempre ouvi falar que ele havia tirado o meu nome a partir do seu. Yuki tem dois kanjis, que significam Yu (guenki = saúde) e ki (yorokobu = ficar contente, alegre). O primeiro ideograma sozinho deu origem ao meu nome Issami, que significa coragem com saúde (issamashii). Para ser usado como nome próprio, esse ideograma pode vir ou não acompanhado de ‘mi’ ou ‘mu’. Então, meu nome poderia ser tanto Issami quanto Issamu. Papai preferiu Issami, usando somente o kanji. Quando perguntava ao meu pai sobre o significado do meu nome, ele me respondia que eram os valores dos samurais: forte, valente, corajoso etc. Ficava bastante satisfeito com a resposta dele, pois sempre gostei do meu nome. Quando assisti à pré-estréia do filme "O Último Samurai", um dos kanjis na apresentação do filme era o ideograma do meu nome e a sua correspondente tradução na legenda: coragem. Um dos atributos dos samurais. Meus pais deveriam estar muito esperançosos comigo quando deram este nome para mim! Por uma questão de cartório, meu nome acabou sendo escrito com ‘ç’, mas poderia ter sido escrito com ‘ss’. Papai tinha orgulho de seu sobrenome e não aceitou a escrita portuguesa Chiba porque em japonês pronuncia-se ‘Tiba’.

Um dos valores dos japoneses é suportar sofrimentos sem reclamar. Até hoje, os japoneses, mesmo indo a médicos, não ficam reclamando de suas dores. Meus pais nunca nos falaram o quanto sofreram. Não havia dificuldades que meus pais não superassem. Reclamar é vergonhoso, agüentar é ser honroso. Acredito que foi por isso que aprendi a suportar sofrimentos, agüentar frustrações, superar contrariedades. Birra? Nem pensar!!! Dificilmente filhos educados nessa linha desrespeitam seus pais, que tinham poder e autoridade reconhecidos por todos eles. De japonês, tenho a palavra, a ética. Aquilo que eu falo é. Posso até ter prejuízo, mas o que falo tem que ser mantido. O que me deixa bravo é essa questão de promessa, de cumprir palavra. Para mim, se não cumpre aí é difícil... Sou um cara disciplinado, esforçado, mas são coisas que trouxe lá de trás e sempre fui assim. De japonês também não tenho o costume de falar de mim se não for perguntado.

Tem uma época da minha vida que me considerava muito japonês no sentido mais pejorativo. Às vezes, japonês é tão seguro de si que acha não precisar de mais informação; que, se está bom está bom, não muda. Foi quando me formei e quando desenvolvi a teoria da adolescência. Achava que tudo estava errado, pesquisei e cheguei à teoria do desenvolvimento [hoje ‘relacional’.]. Nesse período, não queria ler nada, não quis fazer pós-graduação, tanto que não tenho mestrado nem doutorado. Só queria trabalhar, estudar e evoluir o que eu tinha. Foi um momento importante, porque fiz uma coisa nova, tinha que acreditar nela e divulgar. O que o Piaget fez para as crianças, fiz para os adolescentes. Nesse tempo, minha mulher dizia que eu me considerava onipotente, mas tinha que participar de congressos, precisava fazer cursos. Já eu achava que tinha que divulgar o que sabia e não aprender, me isolei. Só quando comecei a ouvi-la, mudei. Em uma ocasião eu quis comprar um terreno, mas Natércia me alertou para coisas que nem havia pensado: puxou minha orelha dizendo que nem tudo o que penso está certo. Apesar de ter frustrado meu empreendimento imobiliário, comecei a acordar.

Meu plano de trabalho sempre esteve mais voltado para o Ocidente. Mas com [o filho] Andre aconteceu uma coisa interessante. Com sete, oito anos, começou a perguntar para a gente por que a turma o chamava de japonês se nós não tínhamos muita convivência com japonês. Então falei ‘vamos para o Japão para conhecer’. Se eu explicar, vou falar do nissei que sou e não do Japão. Andre se interessou bastante pela língua, brinquedos, fala algumas palavras e entende razoavelmente. A menina ficou muito chocada quando visitamos Hiroshima. Fomos a passeio. No Japão tem alguns parentes de minha mãe, mas não temos contato com eles. Natércia aprendeu a cantar para as crianças, com a Kiku-chan e com amigos mestiços do Andre. Aliás, a Natércia também passou a conhecer comida japonesa e a prepará-la em casa, inclusive o sukiyaki, hoje uma especialidade do Andre.

Para mim, essa mistura da cultura japonesa com a brasileira foi excelente, um acréscimo, me quebra a dureza do japonês de um jeito muito gostoso. Quebra com amor e não por imposição, coisa que não aceitaria tão facilmente. No Japão, uma tradição antiga diz que, quando nasce uma filha o pai planta duas kiris [árvore muito valorizada para a fabricação de diversos produtos]: corta uma para dar a festa e a outra para fazer o enxoval. Cortou as árvores, acabou a história, pois [a mulher] só vale quando estiver em casa. Quando a mulher casa, é praticamente dada para outra família e a gente perde contato, passa a valer mais a família do homem. Pra mim, essas coisas eram muito radicais...

Mas há coisas boas também. Japonês, a primeira coisa que faz é olhar para o futuro, e não ficar só lamentando o passado. Minha visão é para o futuro. Nós brasileiros estamos assim porque nos incomodamos pouco com o nosso ambiente. Por isso, viajo pelo Brasil fazendo [palestras] aquilo que era o meu sonho de lá de trás, do médico de kombi, e deixar sementes. Livros são sementes que o destino leva por caminhos que o próprio autor desconhece. E, quando encontram terreno fértil, eles germinam gerando novas sementes, diferentes das originais. Estou no caminho do meu sonho. Dôo parte do livro “Quem ama educa” para a Enkyo, uma entidade nipo-brasileira de beneficência aos necessitados. É um resquício do que foi o Hospital Santa Cruz, na Vila Mariana, construído por japoneses e confiscado pelo governo na época da Guerra. Fora isso, colaboro com tudo o que se refere a dekassegui. Eu me considero um nikkei atuante.

Depoimento à jornalista Patrícia Rodrigues
Fotos de Renato Stockler e arquivo pessoal de Içami Tiba


Enviada em: 02/07/2008 | Última modificação: 18/07/2008
 
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Comentários

  1. Susilene Uwagoya @ 3 Jul, 2008 : 06:19
    Uma história de muita luta e perseverança!!! E o sucesso como mérito! !!

  2. Klissia Tiba @ 3 Jul, 2008 : 14:52
    Olá Içami! Tudo bem? Parabéns pelo trabalho! Suas obras são muito boas! Temos o mesmo sobrenome, será que temos algum parentesco? Bom, eu vi que em sua galeria tem uma foto do brasão da família Tiba, você se importa se eu também colocar a foto na minha galeria? Obrigada. Sucesso para você! Klissia Tiba.

  3. Ryoki Inoue @ 4 Jul, 2008 : 18:41
    Tiba, velho colega! Parabéns por seu depoimento (biografia, na verdade)! A admiração que sempre tive por você, desde os nossos tempo de judô na Pinheiros, ficou ainda maior depois de tê-lo visto fazendo sucesso na psiquiatria. Agora, depois de ler a sua história de vida, essa admiração não tem mais medida! Um forte abraço!

  4. Emilia Sumie Adachi @ 6 Jul, 2008 : 23:46
    Depoimento cativante! Sou nissei como você e me "vi" em vários pontos de seu depoimento: as comidas da infância, o Kai-kan o undoo-kai, as não-festas de aniversário, a rigidez da educação, o entendimento posterior da importância da cultura na minha formação... Estou hoje com 52 anos e sou muito grata a meus pais pela educação que me deram, apesar da rigidez e "frieza" com que sempre trataram as 4 filhas. Sem dúvida temos fatos marcantes da infância em comum, o que mostra o quão forte, padronizada e arraigada é a cultura dos nossos pais japoneses. Eu sei que carrego muito disso e com certeza, transmiti aos meus dois filhos. Um grande abraço, e obrigada por ter escrito tudo isso em "Sua história". Emília Sumie Adachi (Adati, como o Chiba) (emiliaada@via-rs.net)

  5. silvana lima @ 19 Jul, 2008 : 11:07
    tiba obrigado por existir você ajuda a milhares de pessoa atraves dos seus ensinamentos simples práticos e sou professora de educação infantil e me espelho muito em suas palavras para analisar os meus alunos mas há muita dificuldade em falar com os pais pois são em geral numa sala de 10 apenas 2 não são filhos únicos sendo assim os demais vivem em função de realizar os desejos de seus reis e rainhas fica dificil mas creio que vc sempre vai iluminar minhas palavras e colocações para ajudar esses pais a criarem os seus filhos pra vida e não para si. beijos no seu coração. ah, embora não nos conhecemos mas partilho muitas idéias e pensamentos seus FELIZ DIA DO AMIGO pq embora longe muito me ajuda.xau

  6. helena ueta suzuki @ 4 Ago, 2008 : 23:16
    Quando eu admiro uma pessoa sempre quero conhecê-la melhor. Nesse sentido gostei de ler passagens de sua vida e até pude compreender muitos aspectos da cultura japonesa. Meu pai era japonês e minha mãe é nissei. Na minha infância e adolescência eles falavam essas frases em japonês sobre "aguentar" e "não ficar resmungando" mas acreditava, por exemplo, que só eles não comemoravam o meu aniversário. Gosto de muitos aspectos de minha herança mas ser mais expansiva, não seguir à risca a hierarquia imposta pela cultura e demonstrar abertamente meus sentimentos me deram o tempero de que eu precisava e que só poderia encontrar aqui no Brasil. Entendo bem o que é ser "um japonês saidinho". Tenho 48 anos, também sou médica e posso dizer que em seus livros encontrei conceitos importantes sobre a vida e sobre educação. Essas informações complementaram minha vida profissional e pessoal, uma vez que tanto a faculdade como a residência médica são deficientes em fornecê-las. Além do domínio da língua portuguesa, fato importantíssimo para quem é nissei, seus textos são claros, com termos compreensíveis para todos os leitores e por apresentarem analogias muito interessantes determinaram o seu sucesso como escritor. Acredito que a felicidade está em construir uma vida rica em detalhes, com inúmeros obstáculos transpostos, lutando e reconhecendo todas as conquistas. PARABÉNS !

  7. Mirian Caixeta @ 5 Ago, 2008 : 00:35
    Parabéns Içami,pela luta e pela garra de seus pais,isto fez com que você desse um valor maior aos seus estudos e é o profissional competente que é.Herdou de seus pais e avós, a sua determinação.Conheço seu trabalho e sua obra,jamais pude imaginar que seus pais sofreram tanto.A eles meus respeitos e minha admiração.A você, o meu muito obrigada por ser um brasileiro descendente dos japoneses que eu admiro tanto,mas que nunca foi viver um eldorado que só existe na cabeça de sonhadores brasileiros que deixam nossa pátria pra viver horrores no estrangeiro.O meu abraço carinhoso de Mirian Caixeta.

  8. Marcelo Uchoa @ 20 Ago, 2008 : 08:34
    Bonita História de vida, Dr Içami, já o admirava muito antes do Congresso de Educadores em Juazeiro do Norte-CE e agora mais ainda com a bela História de luta dos seus pais e dedicação em educa os filhos. Parabéns a eles e ao senhor por ser quem é.

  9. dnazzar@ig.com.br @ 5 Set, 2008 : 22:45
    Dr. Içami, nasci e vivi em Taboão da Serra. Quase vizinha de seus pais.Hoje sou Pedagoga, sigo seus ensinamentos na área de piscopedagogia. Seu relato nos mostra que o sonho é maior. Acreditar nas portas que se abrem, arriscar e ter coragem são traços da cultura niponica. Me sinto orgulhosa por tê-lo conhecido ainda na minha infância, hoje trabalho com a neta de Dona Francisca esposa do Sr. Takaki, vizinhos de seus pais. O Sr. é pra mim um grande homem, que DEUS abençoe a o Sr. e a toda sua família.Sou sua fã incondicional. Delma

  10. Jorginho-camjvm@uol.com.br @ 13 Set, 2008 : 16:35
    A cada fala ou aparição do Dr. Içami Tiba na TV me deixa ainda mais orgulhoso, afinal é o nosso conterrânio, tapiraiense nato, o qual tive o previlégio de outorga-lo o titulo de cidadão benemérito tapirainse quando fui vereador da cidaddo 1993/1996. Enfim parabéns Dr. Içami por ser essa pessoa tão especial para Tapiraí/SP. Quem quiser saber mais acesse o site www.camaratapiraisp.com.br clique no icone Titulos de Cidadania e depois clique em cidadão benemériot

  11. japa pobre @ 25 Set, 2008 : 02:30
    sou fã dele

  12. Isadora Mharry Oliveira da Silva @ 27 Out, 2008 : 18:59
    Reverências,Dr.Içami Tiba! Eu sou Isadora Mharry Oliveira da Silva, filha do professor e pedagogo Gervásio Oliveira da Silva, futura profissional de Educação Física, membro da Seicho-No-Ie do Brasil e leitora de seus livros, inclusive O Executivo e Sua família. Como você está? Eu vou bem, obrigada. Para mim,o senhor é psiquiatra-educador, pois seus livros falam de família e de educação entre pais e filhos, ontem ouvi a música da antiga banda Legião Urbana, (com Renato Russo): "Pais e Filhos", que fala justamente sobre a relação entre os pais e os filhos e lembrei-me do senhor! No meu trabalho de faculdade sobre a desordem motora, citei a sua frase do livro O Executivo e Sua Família e publiquei-a no trabalho, pois achei interessante. Por que o senhor não fala sobre a desordem motora no seu próximo livro sobre educação? Fica aqui esta sugestão singela. Vou confessar-lhe uma coisa:também tenho amigos japoneses e descendentes de japoneses na minha cidade, Manaus. Muito obrigada por você existir!Tenha sempre sucesso e saúde, pois você merece ser feliz!Saúde para a sua esposa e para toda a sua família! Um abraço de sua leitora e amiga:Isadora Mharry Oliveira da Silva.

  13. suleimavilaca.@yahoo.com.br @ 9 Nov, 2008 : 16:16
    Conheço seu trabalho há pouco tempo através do livro"Disciplina-limite na medida certa"e me apaixonei pelo seu discurso.Como mãe e professora primária deveria tê-lo conhecido a mais tempo.Talves não tivesse errado tanto! Mas nunca é tarde par aprender e, como você sempre relata em suas entrevistas,pais e professores devem estar sempre estudando.É o que procuro fazer sempre que possível.Descobri há pouco seu site através do livro "Conversas com Içami Tiba"e agora estou feita podendo ter acesso ao seu trabalho com esta facilidade da internet. E viva a tecnologia! Você é grande, sua história é grande. Parabéns e continue com a gente. Sua fã e admiradora.

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