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Içami Tiba

Cotia / SP - Brasil
67 anos, psiquiatra, escritor

As festas no kaikan e as gincanas de undokai


Não era costume japonês ficar dando presentes aos filhos, mesmo que fosse aniversário. Aliás, eles nem eram comemorados. Os únicos presentes que ganhei na minha infância toda foram um canivete (do meu pai) e uma gaita (da minha mãe), que se chamava Dó-ré-mi. Comecei a fazer um barulho danado com a gaita, até que mamãe decidiu me ensinar. Ela me surpreendeu muito, pois tocava impecavelmente. Aprendi em um instante. Lá ia eu pelas ruas tocando as músicas que pedissem. Até hoje toco umas músicas.

As nossas festas aconteciam mais no kaikan: onde houvesse japoneses, lá haveria também um kaikan. Esses clubes foram traduzidos como associações culturais e esportivas nipo-brasileiras, seguidas pelo nome da cidade. Culturais porque havia cursos de língua japonesa, arte culinária, corte e costura etc. E esportivas porque havia também a prática de esportes como judô, sumô e beisebol. Para esportes ao ar livre usava-se o campo de futebol da cidade, onde também eram realizadas as tradicionais festas esportivas japonesas, chamadas undokai. Todos eram premiados e dificilmente alguém voltava para casa sem nada. Havia corrida de sacos, corrida para equilibrar ovo sobre uma pequena colher, correr carregando alguém nas costas, arremessar pesos, saltar alturas e distâncias, corridas livres, salto de barreiras. Os participantes do undokai eram divididos entre todos: grupo de pais, de jovens conforme a idade, de crianças, de mulheres, de homens etc. Tudo com muita farra, comida e gasosas. Assim como toda criançada da vila, eu esperava ansiosamente essa festa anual. Reparava que os brasileiros não faziam essa festa toda. Hoje sinto a importância desses festejos que uniam a comunidade. Durante o acontecimento, as pessoas se entrosavam, casamentos eram arranjados, negócios eram fechados, formavam-se parcerias para os mutirões e um ajudava o outro em caso de necessidade. Falava-se muito mais japonês que português, que passou a ser introduzido com a chegada dos filhos, assim como a participação de brasileiros.

O kaikan também promovia sessões de cinema de filmes japoneses de vez em quando e era um verdadeiro acontecimento! A tela era um imenso pano branco e o filme era projetado por imensas máquinas barulhentas. As famílias que chegavam antes estendiam suas colchas sobre o tatami e cada uma ocupava o seu espaço. Ali, não faltavam os bentôs. Era um verdadeiro piquenique durante o filme e a gente adorava carregar as coisas para lá. Os que chegavam depois ocupavam aqueles bancos feitos de tábua, sem encosto, e se viravam como podiam, mas não perdiam os raros filmes que apareciam. Não tinha uma única vez em que o filme não arrebentava e, enquanto a fita era remendada, as pessoas saíam para beber água, ir ao banheiro. Ah, ir ao banheiro ali era uma coisa horrorosa, o sistema mais feudal que existia: um buraco no chão, com tábuas em cima e cada um que se virasse... Como era pertinho, a gente corria para casa porque era muito mais tranqüilo (risos).

Também gostava muito de ir ao Seinen Kai, uma espécie de clube dos jovens, onde havia festas, casamentos e comemorações com muita comida japonesa, sushi, sashimi, oniguiri, yokan, tempura, tsukemono, mochi, manju, ocha (chá) e gasosas. Tudo era disposto em bancadas compridas, feitas de tábuas sobre cavaletes cobertas por papéis. Ao redor delas, ficavam os bancos sem encosto e, entre os corredores estreitos, circulavam adultos, comidas, crianças correndo e cachorros intrusos que devoravam o que nos arrependíamos de ter pegado.

Minha mãe também gostava das festividades, mas ela era mais da turma do ‘fica quieto e vamos trabalhar’, pois essas atividades exigiam toda uma preparação. Nós também ajudávamos pregando bandeirinhas. O clube era repleto de escritas japonesas feitas por minha mãe, como os nomes das pessoas em placas de madeiras. Com sua caligrafia especial, ela escreveu um ideograma imenso, de quase dois metros de altura, até há pouco tempo pendurado em um local nobre do kaikan. Apesar da vida de trabalho intenso, ela sempre teve a escrivaninha em casa para treinar sua caligrafia. Em 1991, ela recebeu o prêmio da mais graduada calígrafa japonesa fora do Japão.

O que mais me impressionava na minha mãe era sua garra, e continuo com esta sensação até hoje. Seu dia era tomado pelo movimentado armazém, sempre carregando um filho pequeno nas costas. Era como se não sentisse o peso do meu irmão enquanto trabalhava, andava, atendia aos fregueses. Com geada, neblina ou não, ela acordava às quatro da manhã, bem antes do expediente, e seguia até o riacho do fundo da casa para lavar roupa. Naquela água gelada, com pedras de sabão, esfregava e batia a roupa em uma tábua inclinada. Lavar a roupa não parecia tão difícil quanto proteger o filho amarrado nas costas do frio e do vento. Meu avô havia feito para ela um reservatório, tipo tanque de roupa de água corrente, que escorria para o riacho. As crianças eram proibidas de brincar lá, pois havia uma escadaria com mais ou menos dez metros de altura, também feita pelo meu avô. Mas a maior ameaça eram as cobras venenosas. Eu só podia chegar lá com o meu avô.

Depoimento à jornalista Patrícia Rodrigues
Fotos de Renato Stockler e arquivo pessoal de Içami Tiba


Enviada em: 02/07/2008 | Última modificação: 18/07/2008
 
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Comentários

  1. Susilene Uwagoya @ 3 Jul, 2008 : 06:19
    Uma história de muita luta e perseverança!!! E o sucesso como mérito! !!

  2. Klissia Tiba @ 3 Jul, 2008 : 14:52
    Olá Içami! Tudo bem? Parabéns pelo trabalho! Suas obras são muito boas! Temos o mesmo sobrenome, será que temos algum parentesco? Bom, eu vi que em sua galeria tem uma foto do brasão da família Tiba, você se importa se eu também colocar a foto na minha galeria? Obrigada. Sucesso para você! Klissia Tiba.

  3. Ryoki Inoue @ 4 Jul, 2008 : 18:41
    Tiba, velho colega! Parabéns por seu depoimento (biografia, na verdade)! A admiração que sempre tive por você, desde os nossos tempo de judô na Pinheiros, ficou ainda maior depois de tê-lo visto fazendo sucesso na psiquiatria. Agora, depois de ler a sua história de vida, essa admiração não tem mais medida! Um forte abraço!

  4. Emilia Sumie Adachi @ 6 Jul, 2008 : 23:46
    Depoimento cativante! Sou nissei como você e me "vi" em vários pontos de seu depoimento: as comidas da infância, o Kai-kan o undoo-kai, as não-festas de aniversário, a rigidez da educação, o entendimento posterior da importância da cultura na minha formação... Estou hoje com 52 anos e sou muito grata a meus pais pela educação que me deram, apesar da rigidez e "frieza" com que sempre trataram as 4 filhas. Sem dúvida temos fatos marcantes da infância em comum, o que mostra o quão forte, padronizada e arraigada é a cultura dos nossos pais japoneses. Eu sei que carrego muito disso e com certeza, transmiti aos meus dois filhos. Um grande abraço, e obrigada por ter escrito tudo isso em "Sua história". Emília Sumie Adachi (Adati, como o Chiba) (emiliaada@via-rs.net)

  5. silvana lima @ 19 Jul, 2008 : 11:07
    tiba obrigado por existir você ajuda a milhares de pessoa atraves dos seus ensinamentos simples práticos e sou professora de educação infantil e me espelho muito em suas palavras para analisar os meus alunos mas há muita dificuldade em falar com os pais pois são em geral numa sala de 10 apenas 2 não são filhos únicos sendo assim os demais vivem em função de realizar os desejos de seus reis e rainhas fica dificil mas creio que vc sempre vai iluminar minhas palavras e colocações para ajudar esses pais a criarem os seus filhos pra vida e não para si. beijos no seu coração. ah, embora não nos conhecemos mas partilho muitas idéias e pensamentos seus FELIZ DIA DO AMIGO pq embora longe muito me ajuda.xau

  6. helena ueta suzuki @ 4 Ago, 2008 : 23:16
    Quando eu admiro uma pessoa sempre quero conhecê-la melhor. Nesse sentido gostei de ler passagens de sua vida e até pude compreender muitos aspectos da cultura japonesa. Meu pai era japonês e minha mãe é nissei. Na minha infância e adolescência eles falavam essas frases em japonês sobre "aguentar" e "não ficar resmungando" mas acreditava, por exemplo, que só eles não comemoravam o meu aniversário. Gosto de muitos aspectos de minha herança mas ser mais expansiva, não seguir à risca a hierarquia imposta pela cultura e demonstrar abertamente meus sentimentos me deram o tempero de que eu precisava e que só poderia encontrar aqui no Brasil. Entendo bem o que é ser "um japonês saidinho". Tenho 48 anos, também sou médica e posso dizer que em seus livros encontrei conceitos importantes sobre a vida e sobre educação. Essas informações complementaram minha vida profissional e pessoal, uma vez que tanto a faculdade como a residência médica são deficientes em fornecê-las. Além do domínio da língua portuguesa, fato importantíssimo para quem é nissei, seus textos são claros, com termos compreensíveis para todos os leitores e por apresentarem analogias muito interessantes determinaram o seu sucesso como escritor. Acredito que a felicidade está em construir uma vida rica em detalhes, com inúmeros obstáculos transpostos, lutando e reconhecendo todas as conquistas. PARABÉNS !

  7. Mirian Caixeta @ 5 Ago, 2008 : 00:35
    Parabéns Içami,pela luta e pela garra de seus pais,isto fez com que você desse um valor maior aos seus estudos e é o profissional competente que é.Herdou de seus pais e avós, a sua determinação.Conheço seu trabalho e sua obra,jamais pude imaginar que seus pais sofreram tanto.A eles meus respeitos e minha admiração.A você, o meu muito obrigada por ser um brasileiro descendente dos japoneses que eu admiro tanto,mas que nunca foi viver um eldorado que só existe na cabeça de sonhadores brasileiros que deixam nossa pátria pra viver horrores no estrangeiro.O meu abraço carinhoso de Mirian Caixeta.

  8. Marcelo Uchoa @ 20 Ago, 2008 : 08:34
    Bonita História de vida, Dr Içami, já o admirava muito antes do Congresso de Educadores em Juazeiro do Norte-CE e agora mais ainda com a bela História de luta dos seus pais e dedicação em educa os filhos. Parabéns a eles e ao senhor por ser quem é.

  9. dnazzar@ig.com.br @ 5 Set, 2008 : 22:45
    Dr. Içami, nasci e vivi em Taboão da Serra. Quase vizinha de seus pais.Hoje sou Pedagoga, sigo seus ensinamentos na área de piscopedagogia. Seu relato nos mostra que o sonho é maior. Acreditar nas portas que se abrem, arriscar e ter coragem são traços da cultura niponica. Me sinto orgulhosa por tê-lo conhecido ainda na minha infância, hoje trabalho com a neta de Dona Francisca esposa do Sr. Takaki, vizinhos de seus pais. O Sr. é pra mim um grande homem, que DEUS abençoe a o Sr. e a toda sua família.Sou sua fã incondicional. Delma

  10. Jorginho-camjvm@uol.com.br @ 13 Set, 2008 : 16:35
    A cada fala ou aparição do Dr. Içami Tiba na TV me deixa ainda mais orgulhoso, afinal é o nosso conterrânio, tapiraiense nato, o qual tive o previlégio de outorga-lo o titulo de cidadão benemérito tapirainse quando fui vereador da cidaddo 1993/1996. Enfim parabéns Dr. Içami por ser essa pessoa tão especial para Tapiraí/SP. Quem quiser saber mais acesse o site www.camaratapiraisp.com.br clique no icone Titulos de Cidadania e depois clique em cidadão benemériot

  11. japa pobre @ 25 Set, 2008 : 02:30
    sou fã dele

  12. Isadora Mharry Oliveira da Silva @ 27 Out, 2008 : 18:59
    Reverências,Dr.Içami Tiba! Eu sou Isadora Mharry Oliveira da Silva, filha do professor e pedagogo Gervásio Oliveira da Silva, futura profissional de Educação Física, membro da Seicho-No-Ie do Brasil e leitora de seus livros, inclusive O Executivo e Sua família. Como você está? Eu vou bem, obrigada. Para mim,o senhor é psiquiatra-educador, pois seus livros falam de família e de educação entre pais e filhos, ontem ouvi a música da antiga banda Legião Urbana, (com Renato Russo): "Pais e Filhos", que fala justamente sobre a relação entre os pais e os filhos e lembrei-me do senhor! No meu trabalho de faculdade sobre a desordem motora, citei a sua frase do livro O Executivo e Sua Família e publiquei-a no trabalho, pois achei interessante. Por que o senhor não fala sobre a desordem motora no seu próximo livro sobre educação? Fica aqui esta sugestão singela. Vou confessar-lhe uma coisa:também tenho amigos japoneses e descendentes de japoneses na minha cidade, Manaus. Muito obrigada por você existir!Tenha sempre sucesso e saúde, pois você merece ser feliz!Saúde para a sua esposa e para toda a sua família! Um abraço de sua leitora e amiga:Isadora Mharry Oliveira da Silva.

  13. suleimavilaca.@yahoo.com.br @ 9 Nov, 2008 : 16:16
    Conheço seu trabalho há pouco tempo através do livro"Disciplina-limite na medida certa"e me apaixonei pelo seu discurso.Como mãe e professora primária deveria tê-lo conhecido a mais tempo.Talves não tivesse errado tanto! Mas nunca é tarde par aprender e, como você sempre relata em suas entrevistas,pais e professores devem estar sempre estudando.É o que procuro fazer sempre que possível.Descobri há pouco seu site através do livro "Conversas com Içami Tiba"e agora estou feita podendo ter acesso ao seu trabalho com esta facilidade da internet. E viva a tecnologia! Você é grande, sua história é grande. Parabéns e continue com a gente. Sua fã e admiradora.

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