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Takeshi Misumi

São Paulo / SP - Brasil
75 anos, Administrador de Empresas e Contador

ORGULHO DE SER NIKKEI


INFÂNCIA COM DISCRIMINAÇÃO
“Japonês calabrês, foi o diabo quem te fez”. Durante longo tempo, odiei esta frase. Na mente de um menino de nove a dez anos, morando no sítio a cinco quilômetros de uma cidade do interior, era difícil entender o significado dessas palavras. Mas, sentia no coração a discriminação de que era alvo. Naquela época, meu pai Tadahide Misumi era lavrador, cultivando hortaliças que ele vendia na feira da cidade às quintas e aos domingos. Saía de madrugada carregando as mercadorias numa carroça com roda de madeira e aro de ferro. A feira era realizada numa das ruas centrais da cidade de Andradina, na parte da manhã. Às vezes, meu pai tinha que ficar na cidade até o final do domingo, pois era um dos líderes dos verdureiros da região. Combinava previamente com minha mãe que alguém iria até a cidade de bicicleta para trazer a carroça de volta ao sítio após o término da feira. Tudo isso para que o cavalo atrelado na carroça não tivesse de ficar parado durante a tarde toda de domingo em alguma rua da cidade.
Por ser “tionan” (primogênito) cabia a mim a tarefa de ir até a cidade de bicicleta e voltar pilotando a carroça. Aí começava minha agonia, principalmente quando se aproximava de algum grupo de meninos. Adoravam azucrinar o piloto mirim de uma carroça. Não satisfeitos em “pegar rabeira” causando desequilíbrio na carroça, gritavam em coro a frase acima. Detestava ir à cidade, dentre outros, por esse pequeno motivo também. Quando? Meados da década de 50, talvez 1955. Somente após muitos anos comecei a entender que tudo isso era conseqüência da guerra. Uma guerra que colocou brasileiros contra japoneses. Mas, porque eu tinha que pagar por isso?
INÍCIO DA VIDA DE ESTUDANTE
Antes de iniciar o curso primário (escola brasileira) freqüentei aulas de japonês. Hospedava na casa de uma tia que morava na cidade. Convivia com os meus primos e colegas da escola japonesa. Assim iniciei minha vida estudantil: estudando japonês e praticando japonês com meus familiares e parentes. Quase nenhum contato com crianças não descendentes de japoneses. Quando iniciei os estudos do 1º ano do primário, não entendia nada do que a professora falava durante as aulas. Copiava no caderno o que ela escrevia na lousa. Em casa, meu pai escrevia embaixo da frase em português, as legendas em japonês. Por essa e outras razões sempre fui péssimo em português. Com a agravante de ser um matuto. Vivi até os catorze anos no sítio.
VIDA NOVA EM NOVA CIDADE
Minha família mudou-se para São Paulo, pois meu pai queria que os filhos tivessem melhores oportunidades de estudo. Foi um verdadeiro choque não somente para mim, mas também para todos da família. Meu pai comprou uma quitanda, onde eu, minha irmã e meus irmãos ajudávamos. Ingênuos caipiras, de repente no papel de comerciantes numa cidade grande, fomos enganados por espertalhões em várias ocasiões e de diversas maneiras, para desespero do meu pai. Evidente, tínhamos que aprender nesta ESCOLA DA VIDA. Foi muito difícil superar essa fase. A fase de adaptação à nova cidade. A grande Metrópole desafiadora. Com a agravante da minha adolescência. Época de revolta interna, sem o adequado discernimento do certo ou errado. Odiava a mim e a todos com cara de japonês. Achava que as dificuldades da vida eram causadas pelo fato de ser descendente de nipônicos. Grande tolice! Felizmente meu pai, minha mãe e toda a família souberam suportar com muita sabedoria a minha “aborrescência”. E, me deram muito apoio na superação dessa fase crítica da minha vida.
A VIDA PROFISSIONAL
No ano de 1962 eu estava empregado num Banco. Era o meu primeiro emprego com registro em carteira. Carteira Profissional de Menor. Foi difícil conciliar os estudos com o trabalho. Mas, não tinha outra opção. Tinha que batalhar. Todos da família tiveram de trabalhar duro.
Assim, aos trancos e barrancos consegui chegar à Faculdade. Os resquícios da vida matuta continuaram. Quando tinha trabalho em grupo, prontificava-me em pesquisar e datilografar o trabalho, para me livrar da apresentação oral, que deixava para outros colegas. Era a timidez me atrapalhando. Tinha como sonho trabalhar em auditoria. Fiz testes em algumas empresas. Numa delas, fui bem no teste escrito. Mas, na dinâmica de grupo, com oito candidatos e três observadores, discutindo um assunto apaixonante à época – boom do mercado de ações – fui o único a ficar calado durante todo o tempo. Até que um dos observadores pediu aos demais candidatos que me deixassem falar alguma coisa. Silêncio total. Evidentemente que não fui aprovado. Em outra empresa de auditoria, o entrevistador me deu uma verdadeira repreensão. Disse ao final da entrevista: “Takeshi, você foi bem no teste escrito. Mas nesta entrevista você está uma negação. Não posso te admitir. Você tem que mudar, fazer alguma coisa por você”. Foi muito doloroso aquele toque na minha ferida. Mas, foi muito útil. Comecei a procurar formas de vencer o bloqueio da timidez. Li muito sobre auto-ajuda. Prometi a mim mesmo que os meus filhos não teriam este tipo de obstáculos na vida.
Anos mais tarde, eu e minha esposa organizávamos reuniões de família, procurando incentivar não somente meus filhos, mas também outras crianças e adultos a se desinibirem. Eram festinhas de Natal, festivais de karaoke, com competições de equipes feminina contra masculina, com apresentadores, atores etc. Atribuíamos incumbências a todos os participantes, dando oportunidade para que cada um pudesse vencer o bloqueio.
Acredito que de certa forma, deu certo, pois os meus quatro filhos não têm problemas de inibição.
A MISSÃO
Ah... Quanto à frase “Japonês, calabrês....” já não sinto nenhum ódio. Já é passado. Creio que cresci junto com o Japão e o Brasil, junto com os japoneses e descendentes no Brasil. Sinto orgulho de ser nikkei, descendente de japoneses. Como escreveu um escritor nipo-brasileiro, tenho o privilégio de ser brasileiro ao mesmo tempo japonês. Herdei dos imigrantes japoneses uma infindável quantidade de qualificações que acrescida de virtudes da cultura ocidental, me permitem condições para contribuir de forma positiva para o desenvolvimento da sociedade brasileira. É esta a minha missão. Acredito que também de todos os descendentes daqueles heróicos imigrantes que deram a meia volta ao mundo se estabelecendo aqui no Brasil.

20080601


Enviada em: 01/07/2008 | Última modificação: 31/03/2009
 
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Comentários

  1. Cristiane Y Nakata (ex-escoteira falcão) @ 17 Jul, 2008 : 20:00
    Oi Takeshi! É a Cristiane... lembra de mim? Admiro a educação que dá para sua família... Abraços! Cris.

  2. Denise Misumi @ 30 Jul, 2008 : 00:42
    Tio, muito lindas as suas histórias! Nao consegui conter as lágrimas lendo "Conversando através do coração". Ainda me emociono relendo-a. Já pensou em fazer um livro contando essas e mais histórias?? Abraços, Denise

  3. Takeshi Misumi @ 3 Ago, 2008 : 18:08
    Denise, obrigadão pelos comentários. Fiquei muito satisfeito e feliz em saber que você se sensibilizou com os meus relatos. Aliás, o meu propósito em me expor neste espaço aberto pela Editora Abril foi tão-somente de tentar sensibilizar os descendentes, principalmente os jovens como você, sobre o sofrimento que os imigrantes passaram. Muito do que nós usufruimos hoje foi graças a eles. Todo o passado vivido e sofrido por eles não pode cair no esquecimento. Cumpre a cada um de nós desempenhar o papel que nos cabe. Quem, no presente, souber reconhecer o passado, saberá construir um futuro melhor. Quanto ao livro, até pensei no assunto. Mas, é um projeto muito grandioso para mim. Não sei se teria condições de realizar este sonho. Acredito que essa tarefa seria mais fácil, se for possível contar com a ajuda de outras pessoas. Abração.

  4. Julio Misumi @ 11 Set, 2008 : 19:11
    Oi Takeshi. Li o relato da mesa, em cima dela na chacara. Ao ler aqui, me emociona saber que ela passou por muitos momentos com a familia, bem antes de nascermos. Quantas conversas e refeições foram feitas nela, por nossos avós e seus filhos (nosso pais)? Quanta utilidade para varias gerações? Ela faz parte da familia e suas cicatrizes foram feitas por alguém da familia em algum momento. Representa bem o passado sofrido e a determinação que nossos antepassados tiveram, para que as futuras gerações (nós e nossos filhos) pudessemos ter uma vida melhor que eles. Obrigado pelo que voce faz pela familia e no que eu puder ajudar, conte comigo. Um abraço

  5. Filhos da Satiko @ 14 Dez, 2008 : 23:47
    Oi Tio, Que legal...Sim, ela tinha olhos grandes e um sorriso radiante, característica marcante dela...Ela era linda e foi uma mãe perfeita pra nós. Agradecemos a mensagem e tudo que vc e a tia fizeram por ela e por nós. Um beijão. Duda, Thie, Fabio e Livia

  6. mario katsuhiko kimura @ 14 Fev, 2009 : 15:48
    Sr. Takeshi, Sou leitor das historias contadas neste Site e agora sou também seu fã. O Sr. deveria ser contador de historia e não contador/administrador. A sua maneira de escrever, contar historia da família através da historia da mesa é de altíssima criatividade, mostrando ser uma pessoa erudita, sábia e inteligente. Acredito ter herdado os valores do seu falecido avô. Como disse um dos entes da família no comentário, o senhor deveria escrever livros. Parabéns e continue a escrever para todos nós. Grande abraço

  7. Julio Misumi @ 31 Mar, 2009 : 13:10
    Oi Takeshi. Eu acho que fui ao casamento da Tia Katsuko e poucas vezes a vi depois disso. Me lembro que durante muitos tempo meus foram iam a Jales visita-la. E tenho certeza que ela desafiou e venceu a morte por dezessete anos, pois meus pais diziam que ela os reconhecia a cada visita. Obrigado sempre e um abraço.

  8. Silvio Sano @ 1 Abr, 2009 : 02:38
    Prezado Takeshi, Depois de muito tempo sem abrir este site para ler as histórias dos colegas, "hisashiburini", fi-lo, tarde da noite de ontem, atraído por um leitor seu fora da família (o Mário Kimura, aí, logo acima). Daí, comecei pela leitura da Tia Katsuko. Contente pelo que fui contemplado, prossegui com as demais, debaixo para cima, porque sabia que a seqüência seria essa. A forma como as narra é muito interessante porque torna universais mesmo os seus mais íntimos personagens. Daí porque "tocou" ao Mário, a mim e, com certeza, a todos os que as lerem (não apenas parentes ou pessoas de seu círculo). Em alguns momentos também me emocionei e, por isso achei que não seria o momento adequado para deixar aqui o meu comentário. Conclui que seria injusto com vc, e que deveria fazê-lo sem que me deixasse levar pela emoção. Algo verdadeiramente sincero. Ou seja, para que o tamanho da satisfação que eu demonstrasse não fosse considerada exagerada devido a isso. Assim, aguardando, até este momento, de "cabeça fria", mas garantindo que a emoção pela leitura ainda permanece viva em mim, cumprimento-o principalmente pela sensibilidade e percepção em relação a outrem, que o levaram também a "conversar através do coração", e de forma a "tocar o fundo da alma" de seus leitores. Parabéns e um grande abraço.

  9. Silvio Sano @ 7 Abr, 2009 : 00:37
    Prezado Takeshi, O jeito que vc exagerou nos elogios, na verdade, só veio comprovar para mim, o quão criativo é para escrever textos (rsrs). Mas, agradeço pela parte não exagerada, que sei, foi sincera. E não apenas o parabenizo por suas virtudes, como, pela citação ao Mário Tomita, acabei ligando para ele, a fim de saber um pouco mais sobre a sua pessoa, mas sugerindo-lhe também para que publique algumas coisas suas no jornal. Ele concordou afirmando que, sendo pra vc, um dos primeiros assinantes dele, o faria com imenso prazer. Que tal atendê-lo então com um artigo, ou uma crônica, esporadicamente... pra começar? Não apenas ele, mas, nós também, leitores, ficaremos muito felizes. Yoroshikune. Abs.

  10. Edson Correa Porto @ 9 Abr, 2009 : 00:36
    E eu que pensei que vc só escrevesse relatórios; parabéns pela sensibilidade; vc sempre surpreendendo. Abraço

  11. Mario Katsuhiko Kimura @ 17 Jun, 2009 : 23:43
    Sr. Takeshi, Só o senhor consegue prestar homenagem aos idosos na forma acima transcrita. Isso mostra a sua grandeza, de ser uma pessoa culta, iluminada. Obrigado por proporcionar a este leitor o prazer de ler, sentir e também emocionar. Grande abraço

  12. Takeshi Misumi @ 16 Mar, 2010 : 07:51
    Teste

  13. Silvio Sano @ 16 Mar, 2010 : 09:34
    Olá, Takeshi-san. Bondade sua. Eu é que fiquei muito feliz com a sua presença e, bem como com a de sua esposa. E ainda bem que o Mário estava lá, né. Bom, aproveito para te solicitar para que veja como será o próximo livro. Link em http://www.youtube.com/watch?v=OfULKT3Beqk A propósito, conhece o Nikkeypedia? Lá vc tb poderá colocar a sua, de seus pais, avós e amigos, histórias. A minha está em http://www.nikkeypedia.org.br/index.php/Silvio_Sano

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