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Takeshi Misumi

São Paulo / SP - Brasil
74 anos, Administrador de Empresas e Contador

A SEGUNDA DESPEDIDA


O dia amanheceu xexelento. Tinha chovido a noite inteira. Foi uma chuva interminável. Gotas e mais gotas d’água. Eram as lágrimas de inúmeras pessoas que o amavam, Masakazu-san. Permita-me chamá-lo assim, da mesma forma que meu pai o chamava. Agora na esquife, seu corpo descansa tranquilo. Seu rosto transparece tranquilidade. Com essa serenidade o senhor se despede de nós. Lá fora, novamente a chuva se intensifica. É o choro incontido de todos que o amavam. O sepultamento de seu corpo foi adiado, mas a chuva não parou. Apenas amainou um pouco. Assim, o senhor nos deixou. Foi a segunda despedida para mim.
Uma semana antes estive em sua casa, pela primeira vez. Fui junto com minha mãe, minha esposa e minha irmã, acompanhando Ana Maria, a amiga comum de sua filha Ivone. Ao vê-lo senti reencontrar com meu pai. Meu pai que falecera em novembro de 2004, ou seja, cinco anos antes. Afundado em sua cadeira, pude visualizar apenas os seus braços e a cabeça destacando-se sobre a mesa. O rosto magro e os olhos profundos eram os mesmos de meu pai alguns dias antes de seu falecimento. O mesmo olhar meigo e carinhoso, escondendo muita sabedoria.
Masakazu-san, infelizmente não pudemos conversar muito através de palavras, pois a doença o impediu de pronuncia-las adequadamente. Mas, conversamos através do coração e do seu haiku escrito em kanji que, lamentavelmente, não sei ler. Ao me aproximar da mesa, impressionou-me os traços nítidos e firmes dos kanjis que o senhor escreveu. Sentado ao seu lado, tentando compreender as palavras que o senhor conseguia balbuciar, senti novamente a sensação de estar conversando com meu pai. Eu e meu pai fizemos isso em diversas ocasiões. Foram momentos agradáveis em que suguei muita sabedoria. Na casa dele, na minha chácara que o senhor não conheceu. Meu pai queria tanto que o senhor lá fosse para ver a enorme pedra incrustada no meio das árvores.
Todos nós sentimos que o senhor tinha muito para nos falar naquele domingo, dia 5 de julho de 2009. Infelizmente não fui capaz de entender muito do que o senhor dizia apesar do esforço incansável de suas filhas e esposa em traduzir as palavras balbuciadas. A avidez com que o senhor queria se comunicar comigo mesmo através da escrita, acabou esgotando-o. A dificuldade de segurar a caneta e escrever foi se intensificando. Quantas coisas o senhor tinha para nos contar! Talvez relembrar muito do que o senhor conversou com meu pai nos bons tempos em que ambos ficavam horas e horas debruçados na mesa escrevendo e analisando os diversos haikus. Senti isso ao oferecer a minha mão que o senhor segurou com todas as forças que ainda lhe restavam. Com as mesmas mãos que durante muito tempo de sua vida foram judiadas com muitos calos que a vida sofrida lhe proporcionou. Assim como muitos dos seus contemporâneos que deixaram o Japão com a ilusão de enriquecimento fácil, mas que muito sofreram aqui no Brasil, o senhor também teve seus momentos de dificuldades. Mas, seu sacrifício não foi em vão. Vejo em seu filho, suas filhas e netas o reflexo do seu sucesso. A vitória de quem muito lutou, principalmente para proporcionar boa educação aos filhos. Não bastasse isso, o senhor ainda conseguiu realizar muitos dos seus sonhos. O senhor sempre dizia que o ser humano tem que ter sonhos. Assim o senhor, além de escrever belos haikus, ainda conseguiu produzir magníficas obras de arte em cerâmica, como a que doou para minha mãe ao nos despedir naquele dia. Pude ainda contemplar, mesmo que rapidamente, as belas pinturas expostas na parede da sala. O senhor fez questão que sua filha nos mostrasse esses sonhos realizados. Foram poucas horas de convivência, mas intensas em emoção, em sentimentos trocados de pai para filho que se tornaram inesquecíveis. Uma semana depois o senhor se despedia. Pela segunda vez, para mim ...

O Sr. Masakazu Yamaguchi nascido em 08/11/1917, faleceu em 09/07/2009. Era um grande amigo de Tadahide Misumi.


Enviada em: 02/08/2009 | Última modificação: 01/09/2009
 
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Comentários

  1. Cristiane Y Nakata (ex-escoteira falcão) @ 17 Jul, 2008 : 20:00
    Oi Takeshi! É a Cristiane... lembra de mim? Admiro a educação que dá para sua família... Abraços! Cris.

  2. Denise Misumi @ 30 Jul, 2008 : 00:42
    Tio, muito lindas as suas histórias! Nao consegui conter as lágrimas lendo "Conversando através do coração". Ainda me emociono relendo-a. Já pensou em fazer um livro contando essas e mais histórias?? Abraços, Denise

  3. Takeshi Misumi @ 3 Ago, 2008 : 18:08
    Denise, obrigadão pelos comentários. Fiquei muito satisfeito e feliz em saber que você se sensibilizou com os meus relatos. Aliás, o meu propósito em me expor neste espaço aberto pela Editora Abril foi tão-somente de tentar sensibilizar os descendentes, principalmente os jovens como você, sobre o sofrimento que os imigrantes passaram. Muito do que nós usufruimos hoje foi graças a eles. Todo o passado vivido e sofrido por eles não pode cair no esquecimento. Cumpre a cada um de nós desempenhar o papel que nos cabe. Quem, no presente, souber reconhecer o passado, saberá construir um futuro melhor. Quanto ao livro, até pensei no assunto. Mas, é um projeto muito grandioso para mim. Não sei se teria condições de realizar este sonho. Acredito que essa tarefa seria mais fácil, se for possível contar com a ajuda de outras pessoas. Abração.

  4. Julio Misumi @ 11 Set, 2008 : 19:11
    Oi Takeshi. Li o relato da mesa, em cima dela na chacara. Ao ler aqui, me emociona saber que ela passou por muitos momentos com a familia, bem antes de nascermos. Quantas conversas e refeições foram feitas nela, por nossos avós e seus filhos (nosso pais)? Quanta utilidade para varias gerações? Ela faz parte da familia e suas cicatrizes foram feitas por alguém da familia em algum momento. Representa bem o passado sofrido e a determinação que nossos antepassados tiveram, para que as futuras gerações (nós e nossos filhos) pudessemos ter uma vida melhor que eles. Obrigado pelo que voce faz pela familia e no que eu puder ajudar, conte comigo. Um abraço

  5. Filhos da Satiko @ 14 Dez, 2008 : 23:47
    Oi Tio, Que legal...Sim, ela tinha olhos grandes e um sorriso radiante, característica marcante dela...Ela era linda e foi uma mãe perfeita pra nós. Agradecemos a mensagem e tudo que vc e a tia fizeram por ela e por nós. Um beijão. Duda, Thie, Fabio e Livia

  6. mario katsuhiko kimura @ 14 Fev, 2009 : 15:48
    Sr. Takeshi, Sou leitor das historias contadas neste Site e agora sou também seu fã. O Sr. deveria ser contador de historia e não contador/administrador. A sua maneira de escrever, contar historia da família através da historia da mesa é de altíssima criatividade, mostrando ser uma pessoa erudita, sábia e inteligente. Acredito ter herdado os valores do seu falecido avô. Como disse um dos entes da família no comentário, o senhor deveria escrever livros. Parabéns e continue a escrever para todos nós. Grande abraço

  7. Julio Misumi @ 31 Mar, 2009 : 13:10
    Oi Takeshi. Eu acho que fui ao casamento da Tia Katsuko e poucas vezes a vi depois disso. Me lembro que durante muitos tempo meus foram iam a Jales visita-la. E tenho certeza que ela desafiou e venceu a morte por dezessete anos, pois meus pais diziam que ela os reconhecia a cada visita. Obrigado sempre e um abraço.

  8. Silvio Sano @ 1 Abr, 2009 : 02:38
    Prezado Takeshi, Depois de muito tempo sem abrir este site para ler as histórias dos colegas, "hisashiburini", fi-lo, tarde da noite de ontem, atraído por um leitor seu fora da família (o Mário Kimura, aí, logo acima). Daí, comecei pela leitura da Tia Katsuko. Contente pelo que fui contemplado, prossegui com as demais, debaixo para cima, porque sabia que a seqüência seria essa. A forma como as narra é muito interessante porque torna universais mesmo os seus mais íntimos personagens. Daí porque "tocou" ao Mário, a mim e, com certeza, a todos os que as lerem (não apenas parentes ou pessoas de seu círculo). Em alguns momentos também me emocionei e, por isso achei que não seria o momento adequado para deixar aqui o meu comentário. Conclui que seria injusto com vc, e que deveria fazê-lo sem que me deixasse levar pela emoção. Algo verdadeiramente sincero. Ou seja, para que o tamanho da satisfação que eu demonstrasse não fosse considerada exagerada devido a isso. Assim, aguardando, até este momento, de "cabeça fria", mas garantindo que a emoção pela leitura ainda permanece viva em mim, cumprimento-o principalmente pela sensibilidade e percepção em relação a outrem, que o levaram também a "conversar através do coração", e de forma a "tocar o fundo da alma" de seus leitores. Parabéns e um grande abraço.

  9. Silvio Sano @ 7 Abr, 2009 : 00:37
    Prezado Takeshi, O jeito que vc exagerou nos elogios, na verdade, só veio comprovar para mim, o quão criativo é para escrever textos (rsrs). Mas, agradeço pela parte não exagerada, que sei, foi sincera. E não apenas o parabenizo por suas virtudes, como, pela citação ao Mário Tomita, acabei ligando para ele, a fim de saber um pouco mais sobre a sua pessoa, mas sugerindo-lhe também para que publique algumas coisas suas no jornal. Ele concordou afirmando que, sendo pra vc, um dos primeiros assinantes dele, o faria com imenso prazer. Que tal atendê-lo então com um artigo, ou uma crônica, esporadicamente... pra começar? Não apenas ele, mas, nós também, leitores, ficaremos muito felizes. Yoroshikune. Abs.

  10. Edson Correa Porto @ 9 Abr, 2009 : 00:36
    E eu que pensei que vc só escrevesse relatórios; parabéns pela sensibilidade; vc sempre surpreendendo. Abraço

  11. Mario Katsuhiko Kimura @ 17 Jun, 2009 : 23:43
    Sr. Takeshi, Só o senhor consegue prestar homenagem aos idosos na forma acima transcrita. Isso mostra a sua grandeza, de ser uma pessoa culta, iluminada. Obrigado por proporcionar a este leitor o prazer de ler, sentir e também emocionar. Grande abraço

  12. Takeshi Misumi @ 16 Mar, 2010 : 07:51
    Teste

  13. Silvio Sano @ 16 Mar, 2010 : 09:34
    Olá, Takeshi-san. Bondade sua. Eu é que fiquei muito feliz com a sua presença e, bem como com a de sua esposa. E ainda bem que o Mário estava lá, né. Bom, aproveito para te solicitar para que veja como será o próximo livro. Link em http://www.youtube.com/watch?v=OfULKT3Beqk A propósito, conhece o Nikkeypedia? Lá vc tb poderá colocar a sua, de seus pais, avós e amigos, histórias. A minha está em http://www.nikkeypedia.org.br/index.php/Silvio_Sano

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