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  Conte sua históriaAngela Hirata › Minha história

Angela Hirata

São Paulo / São Paulo - Brasil
78 anos, administradora de empresas

Infância e adolescência em Marília


Meu pai procurava nos proporcionar brinquedos japoneses que não existiam aqui. Fazia gangorras, bonecas, carros e animais de madeira; tocava gaita; ensinava música e brincadeiras japonesas. Depois nos incentivou a fazer esportes. Ele lutava kendô e jogava beisebol. Eu aprendi natação, jogos livres, maratona, esgrima.
Fomos muito bem educados e tivemos bastante conforto. Todos os dias, às 20h, minha avó fazia questão de nos dar aula de japonês. Eu detestava porque isso prejudicava muito meu aprendizado do português. Mas me ajudou a entender a cultura japonesa. Aprendi a ler e escrever japonês por meio de mangás que meu pai importava para nós. Acho que me interessei bastante pela cultura japonesa porque não era uma exigência da família. Eles diziam que éramos brasileiros, deveríamos agir como tal, mas nunca esquecer de nossa origem. Isso é uma coisa que procuro passar muito sutilmente para meus filhos e, agora, para minha neta.

Há coisas muito marcantes na minha infância. Como no colégio havia muita discriminação, eu estudava para ser a primeira da classe. Assim as pessoas me respeitavam, dependiam do meu conhecimento. Tínhamos uma família muito numerosa – 13 irmãos, além de um tio e uma tia que moravam conosco. Nossa casa foi reconstruída quando eu tinha uns 7 anos de idade. Tinha dez dormitórios, uma copa com uma mesa enorme, uma dispensa que acomodava os sacos de açúcar de 60 quilos que meu pai comprava. Quando a situação começou a melhorar ele instalou luz elétrica na fazenda.

O ano novo era muito esperado. A festa durava três dias, com visitas de parentes e amigos. Mesa farta. As mulheres na cozinha fazendo assado e comida japonesa. Minha mãe fazia doces japoneses. No dia primeiro do ano, a colônia se reunia no clube da associação japonesa, cantava o hino nacional brasileiro e o japonês e fazia reverência ao imperador.

A escola que freqüentávamos ficava a uns quatro quilômetros da fazenda. Quem não tinha cavalo, que era o meio de transporte mais utilizado, ia a pé. Um fato inesquecível foi quando ganhei um cavalo vermelho. Chamava-se Soberbo. Ele me serviu por muitos anos.

Minha juventude foi muito intensa, freqüentei bailes, dancei muito twist, rock and roll, samba, bossa nova. Fui a festas e excursões. Meus tios mais jovens vinham nos buscar de caminhonete para irmos à matinê, mas sempre com os irmãos controlando nossa vida, o comprimento da saia, reclamando que o batom estava muito vermelho. O bom é que minha família nunca nos obrigou a casar com gente da colônia. Tanto que entre os Hirata há uma mistura incrível: espanhóis, italianos, portugueses. Meu ex-marido por acaso é descendente de japoneses.

Depoimento à jornalista Juliana Almeida
Fotos: Everton Ballardin e arquivo pessoal de Angela Hirata
Vídeos e áudios: Estilingue Filmes


Enviada em: 09/01/2008 | Última modificação: 14/01/2008
 
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Comentários

  1. Ieda Kimie @ 14 Jan, 2008 : 15:05
    Tb sou filha de imigrantes japoneses..., no início da adolescência achava que a cobrança era muita, que a pressão era tamanha..., mas hoje tenho muito a agradecer aos meus pais por terem sido bastante disciplinados e algumas vezes bastante rígidos. Tenho bastante orgulho de pertencer a este meio... temos tradição, inteligência e sobretudo força de vontade aliada à determinação. Hoje, após algumas incursões como empresária, trabalho como gerente de vendas em uma empresa de painéis eletrônicos e espero continuar tendo sucesso e ser referência neste mercado, num curto espaço de tempo... Parabéns pela sua trajetória... com iniciativas dessa natureza podemos pensar num futuro melhor para todos... não deixando de lado sua própria natureza... ser empreendendora.

  2. Teruco Araki Kamitsuji @ 24 Jan, 2008 : 18:28
    Gostei muito da reportagem da Angela Hirata. Achei interessante a trajetória da família e apreciei o empreendedorismo. Parabéns! Dessa forma cada uma vai fazendo a sua história e a História de nosso imenso Brasil.

  3. Renzo Morishi-ta @ 28 Jan, 2008 : 14:15
    Eu já li a respeito desta mulher nikkei batalhadora numa revista, a "Diálogo Médico", com o título "Flor de Cerejeira". Teve uma história de conquistas e successos no trabalho. Enfrentou ainda 4 tipos de câncer. Está em plena atividade produtiva envolvendo-se em novos empreendimentos. Nisseis assim são inspirações para as gerações futuras de nikkeis.

  4. ... @ 6 Fev, 2008 : 17:01
    Nossas condolências pelo passamento do sr. Takeo Hirata na data de hoje

  5. Rita de Cássia Arruda @ 3 Mai, 2008 : 11:04
    Parabéns, Ângela, por sua trajetória de sucesso profissional. Adorei ler seus depoimentos. Gostei especialmente do relato "Infância e adolescência em Marília". Creio que seu "ditian" Chomatsu era mesmo um homem sábio. Ao mesmo tempo em que conseguiu manter vivo o pacto de vínculo familiar e lembrava igualmente aos netos da importância de ter orgulho de suas origens nipônicas, não os desencorajava a agir e viver como brasileiros. Fico aqui na torcida para que você concretize seu sonho e em breve esteja tocando esse seu projeto de sustentabilidade empresarial. Meus pêsames pelo passamento do Sr. Takeo Hirata.

  6. Sonia Vaskevicius @ 29 Jun, 2008 : 19:16
    Tive o privilégio de ter essa mulher fantástica como diretora. Ela é um exemplo em todos os sentidos. Nunca se deixou abater pelo pesados problemas de saúde. Sempre bem disposta, bem humorada , agitada . Soube reconhecer o talento e o trabalho de seus subordinados . Sou sua fã!

  7. japa pobre @ 25 Set, 2008 : 02:56
    sou fã dela

  8. Ricardo Alves @ 9 Nov, 2009 : 21:57
    Que garra...todos nós temos que ter um pingo desta vontade!!!!PARABENS

  9. Fernanda Kopanakis @ 30 Mar, 2010 : 18:20
    Prezada Senhora Angela Hirata, Meu nome é Fernanda Kopanakis. Sou organizadora do FESTCINEAMAZONIA, festival de cinema e vídeo ambiental que aconteçe há 08 anos na cidade de Porto Velho/RO e há 03 de forma itinerante, onde somente nesse ano de 2010, já percorremos mais de 50.000 km, levando cinema e consciência ambiental para comunidades sem acesso ao cinema. Gostaria muito de conversar com a senhora pessoalmente sobre a contrataçao de uma consultoria para o Festival. Estarei ausente do pais nos próximos 20 dias. No entanto, gostaria muito de verificar possibilidade de agenda em seu escritório. Por favor, se possível entre em contato pelo email: fernandakopanakis@yahoo.com.br. Nosso site: www.cineamazonia.com Agradeço antecipadamente

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