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Grace Suzuki

São Paulo / São Paulo - Brasil
53 anos, diretora de arte

Pequena grande Sue


Pequena Sue veio novinha, de uma ilha lá do outro lado do planeta. Os traços delicados denunciavam o porte sublime, quase inatingível. Bonitona mas boa de briga, impôs respeito ao chegar por aqui no começo do século passado. Por ela meu avô se apaixonou, abandonando a bonança secular e as tantas comodidades. Para o aventureiro inveterado, o Brasil era um dos últimos países que completariam seu roteiro de volta ao mundo. Que acabou sendo o definitivo quando jogou tudo pro alto pra não voltar à cômoda vidinha de jovem abastado. Por causa de quem?

Nada a impedia de sair antes das cinco da manhã todos os dias, com cestas de dez quilos de frutas e verduras penduradas em cada braço. Daí o batismo brasileiro, "Dona Aurora". Porque ela chegava sempre com o raiar do dia, munida de um largo sorriso - ou uma boa bronca - devidamente preparados para disparar no momento exato.

Agitada, adorava uma festa (e eu fui nascer mais "ermitona", quase sempre achando um saco ver aquele tanto de gente de novo). Não tinha acerto. Aniversário, casamento, Páscoa, Natal, Ano-Novo, tinha que comemorar "pra espantar as coisas ruins". E lá ia aquele bando de amarelinhos juntos no velho galpão apertado correr de um lado pra outro tentando organizar a bagunça. Até hoje esconjuro qualquer manifestação de caraoquê ou videoquê adivinha-o-porquê...

Mas seu verdadeiro gosto era a velha e boa prosa em plena mesa da cozinha, regada a uma boa xícara de chá (ou seu scotch 12 anos, nas noites mais frias "pra nivelar a pressão"), recheada de tanta história e sabedoria que hoje me arrependo de ter abandonado a escolinha de japonês. Gostaria de tê-la entendido mais, sem ter que olhar tanto pros pezinhos dela, esperando sair a legenda... Sua maior convicção era que a lembrança de viver bons momentos junto dos que amamos seria sempre nosso único e maior tesouro, a nos acompanhar pelas mais diversas estradas da vida. E nunca deveríamos nos esquecer de agradecer por eles, mesmo que por um simples pensamento. Quase mágica, essa reverência.

Penso em como era lindo vê-la sorrir, satisfeita (mesmo depois de vários puxões de orelha). Até mesmo quando brincava de tirar a dentadura e fazer as mais inacreditáveis caretas. Já nos quase oitenta, corpinho torto resultante de tanto peso dos anos, botou literalmente um larápio desavisado para fora de casa, facão de cozinha em punho. E quase mata a gente do coração.

Tempos parrudos, grana a quase zero, mas o alto-astral, garantido. Acho que devo a essas duas mulheres - avó e mãe - tanta criatividade em tempos difíceis. Aprender a tirar do quase nada a magia de uma cartola infinita. Saber que para a imaginação não existe limite, basta acreditar para que o impossível funcione. Olhar sempre para a frente - porque o que está embaixo a gente já viu antes. E para cima, para buscar as asas de uma grande fé. Para os lados, porque é preciso conferir se alguém precisa de ajuda. E para trás, porque orgulho é bom e faz um bem danado saber que construiu alguma coisa útil.

Pequena grande Sue, aos noventa e poucos pegou carona no primeiro raio de sol. Tomou sua xícara de chá, agradeceu, colocou-a sobre o criado-mudo, fitou o céu de imenso azul, elogiou o dia que estava para nascer e partiu. Tranqüila como a primavera que estava pra chegar.

Fica a saudade dos bolinhos de chuva, de mexer na gaveta de arroz, do orgulho de tocar Beatles no piano e ela simplesmente adorar.

Às vezes, sem mais nem menos, sinto o seu perfume. Difícil me livrar do nozinho que cutuca a garganta, quando penso que poderia ter aproveitado melhor sua companhia. Mantenho flores frescas em minha casa como que para poder alcançá-la em alguma parte do paraíso...

Coisa curiosa, essa tal de memória. Sue Kumakura. Essa neta de shogun construiu com orgulho três gerações, deixando com carinho sua marca na história de todos nós.


Enviada em: 27/05/2008 | Última modificação: 27/05/2008
 
« Sashimi de mozarela

 

Comentários

  1. Rita de Cássia Arruda @ 25 Mai, 2008 : 22:52
    Prezada Grace: São justamente essas singularidades que fazem os relatos aqui deixados tão interessantes. Cada depoente com sua marca própria (sua história pessoal de vida), apesar de um elo comum que a todos une: a cultura japonesa; a saga de avós, bisavós e até tataravós que imigraram do Japão para o Brasil. Quem bem definiu esse sentimento foi o Cláudio Tanno, em seus depoimentos. Assim também, o Kenji Arimura magistralmente relata que "feijoada com sushi" pode sim terminar em samba. E o que dizer então do Luiz Fukushiro? Numa tirada de humor maravilhosa ele pergunta se alguém alguma vez já viu um japonês barbudo de 1.80m. A Luci (que por sinal também tem seu sobrenome) igualmente fala de maneira especial desse "hibridismo" cultural. Isso para não falar do Ricardo Katayama, cuja "batian" tinha que insistir muito para que ele comesse peixe; coisa que para ele, na época, parecia insuportável. Já pensou? Um sansei que não gosta de sashimi? São relatos deliciosos; muitos emocionantes. Tantos outros... Ficaria aqui horas me lembrando de todos que já li. Bato palmas para todos eles. Assim sendo... Japonesa ruiva que não leva desaforo para casa? Hahahaha... Acho o máximo !!! Que Taiwan que nada, menina !!! Você é uma legítima representante da raça !!! Parabéns por seu trabalho e simpatia. Um abraço cordial.

  2. jonas @ 19 Jun, 2008 : 14:23
    parabens vc e luta muito ben

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