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Helio Higa

São Paulo / São Paulo - Brasil
69 anos, Funcionário Público Federal - IBGE

Shamisen do Vovô


Tributo a Shinzo Oshiro

Meu avô era um homem forte e calado. A força ele foi perdendo com o passar dos anos. O silêncio era uma imposição da barreira linguística. Sempre foi um homem do campo que trabalhava a terra. Na cidade, suas habilidades não tinham função. Perdeu a companheira com quem teve sete filhos no Brasil: dois homens e cinco mulheres. Depois viu partir mais três, antes de também se despedir da vida. Lembro-me, ainda criança, várias vezes vê-lo com o olhar perdido, procurando algo no espaço vazio. Hoje posso imaginar o que passava pela mente e pelo coração do meu avô.

Saudades, imensa saudades dos que partiram e de sua terra natal, sua querida Nakijin, em Okinawa, onde deixou familiares, amigos e lembranças de sua infância e mocidade. Um calado e contido desespero diante da impossibilidade do retorno.

Tinha um canivete preso a um molho de chaves com o qual tudo fazia. Picava fumo, descascava laranja, apontava lápis. Um dia trouxe um pedaço de madeira embrulhado num saco e pôs-se a descascá-lo com o canivete. Perguntei: “Vovô o que vai fazer?”. Ele respondeu: “Vovô vai fazer shamisen”. Durante dias o via descascando aquele toco disforme, recolhendo as aparas com vassoura e pá. Foram semanas de trabalho paciente durante o dia todo. Aos poucos o toco foi tomando o formato de uma panela. Depois com uma lixa alisou suas paredes internas e externas. Cavou um buraco num dos lados. Depois começou a trabalhar num pedaço de pau mais comprido. Mais dias de trabalho paciente. Entre minhas brincadeiras, por vezes me detinha para observá-lo. Vi quando tentava encaixar aquele haste no buraco da “panela”, e como depois voltava a trabalhar a haste. Quando por fim conseguiu, vi que ele tinha trazido uma tinta preta, com a qual pintou seu trabalho. Um outro dia o vi desembrulhando um pacote de jornal onde havia o couro de uma cobra. Depois umas cordinhas com as quais ele esticava em cima do seu shamisen. Vi também, como com o mesmo canivete, trabalhava um pedaço de osso. Até que finalmente sua obra terminou. Vi-o dedilhar as primeiras notas. A curiosidade infantil me fez experimentar também, e me diverti dedilhando as cordas do shamisen, que vovô acompanhava com um sorriso.

Daí para frente, o shamisen passou a ser seu companheiro inseparável. Escutava sua voz acompanhar a melodia. Às vezes o observava e comentava brincando com meu irmão: “Olha, vovô está chorando...”. Para uma criança era estranho ver um adulto velho, mas ainda forte, vertendo lágrimas. Hoje entendo e reverencio cada lágrima derramada por vovô. Eram lágrimas de saudades e recordações de tempos idos. Letras de canções que lhe tocavam profundamente a alma. Traziam lembranças de lugares e pessoas queridas cristalizadas no arquivo de sua memória. E assim se passaram os anos. Todos seguimos o curso da nossa existência, estudando, trabalhando, fazendo projetos, enfim, nos deixando envolver pela roda da vida. Nem nos apercebemos que o vovô definhava e um dia partiu definitivamente. Vovô se foi e o shamisen se calou. A família respeitosamente, guardou-o em algum lugar, onde descansou por quase quatro décadas.

Em finais de 2004, minha filha, voltava de uma estada de três meses em Okinawa, contemplada com uma bolsa. Voltou trazendo e tocando com muita desenvoltura um shamisen.
Ao observá-la, minha mãe lembrou-se do shamisen do pai e foi buscá-lo. Entregou-o à neta que começou a dedilhá-lo. Ao ouvir as primeiras notas que soavam mais graves, todas as antigas reminiscências afloraram na minha mente. Pude sentir a presença de vovô e uma forte emoção apertou o meu peito. Naquele instante tive a certeza que aquela energia que permeia a existência dos uchinanchus não morrerá jamais, enquanto pudermos celebrá-la e vivificá-la, principalmente nos acordes de um shamisen. Entendi o significado de um shamisen na vida de um Okinawano. Entendi o porque vovô, que nunca tinha tocado um shamisen na sua vida pregressa, se empenhou em construir um, que se tornou sua tábua de salvação e elemento de ligação com sua amada terra natal. Quantas mágoas conseguiu desafogar com seu companheiro, quantas alegrias pode reviver. Nunca saberemos. Isolado em meio às nossas preocupações, vovô procedeu durantes seus últimos anos, a um diálogo silencioso, através do seu companheiro, com a essência espiritual de Okinawa, até resgatar em si a sua própria essência, e se preparar para ser convidado a retornar ao seio dos seus (nossos) antepassados.

Seu neto Helio


Enviada em: 01/03/2008 | Última modificação: 01/03/2008
 
Ba Pequena »

 

Comentários

  1. Osvaldo Higa @ 2 Mar, 2008 : 14:02
    Caro primo. Difícil não se emocionar com a história de seu avô, sob a sensibilidade de sua escrita. Difícil também não verter algumas lágrimas, porque me vem à lembrança a paixão que meu pai tinha pelo sanshin. Bom o destaque para esse instrumento porque o sanshin está para o uchinanchu como a katana está para o samurai. Grande abraço.

  2. Paulo Moriassu Hijo @ 4 Mar, 2008 : 16:37
    Helio Higa, a sua forma narrativa é tão bela quanto a história do seu avô e muito a valoriza. Meu avô trouxe um shamisen (shanshin) de Okinawa, mas nunca o vi tocar. Meu pai tentou aprender, mas acho que não tocava bem. Meu irmão Morishi arranhava. Enfim, na minha família ninguém nasceu com talento para tocar sashimesen. Talvez, eu tente aprender um dia.

  3. sueli higa @ 12 Mar, 2008 : 12:10
    Olá mano. Fiquei extremamente surpresa com a desenvoltura e plasticidade com que voce esta construindo essas cronicas. Um economista que sempre trabalhou só com numeros e estatísticas. Esta lindo, emocionante. Principalmente porque convivi com os personagens. Fico lendo e chorando copiosamente ou rindo às gargalhadas ao relembrar algumas situações. Quero deixar registrado para todos o imenso carinho e amor ao nosso avô. Tinha dez anos quando ele partiu e esse "pequeno " tempo de convivência ( hoje tenho 50)sua presença foi tão marcante que , hoje e creio que por toda minha vida, fico com o coração apertado e verto lágrimas à cântaros ao falar e lembrar dele. Por muito tempo após sua partida, lembro-me de ir correndo ao portão de casa ao ouvir o ruido de abertura, pensando: "vovô chegou" e voltar chorando ao me dar conta que ele nunca mais viria.

  4. nelsonsinzato@brturbo.com.br @ 23 Jul, 2008 : 21:50
    Hélio. É um prazer reler a crônica "Ba Pequena". Já a havia lido no site da comunidade okinawa. Na ocasião, comentei por e-mail, por falta de espaço próprio. Na oportunidade eu já comentava a sua habilidade em escrever, o que agora é confirmado no comentário acima, de Sueli Higa. As duas histórias realmente emocionam. Parabéns.

  5. norma matsuda @ 5 Ago, 2008 : 00:27
    olá Hélio Por acaso, tentando encontrar algo sobre comemorações acerca do Centenário de Imigração Japonesa no seio da colônia de Okinawa, li seus relatos. Quero lhe dizer que adorei, me fizeram lembrar de minha avó e de meus pais que ja´faleceram. A doce figura de sua "Ba" me fez lembrar a minha, quanta saudade! A leitura do texto "Shamisen" me fez lembrar meu pai que adorava tocar esse instrumento tão familiar na minha infância. Lembro-me que todo domingo ele ensaiava com seus amigos, cada domingo na casa de um deles. Servíamos chá , bolo e biscoitos nessas ocasiões. E ouvíamos músicas que lembravam nossas raízes. Na época, ainda era muito jovem, e não dava o devido valor à cultura de Okinawa. Ele se foi, os shamisens(ele tinha 2) se silenciaram. Meu filho que nunca ouviu uma música de Okinawa e que teve pouca convivência com o avô se interessou pelos shamisens e os trouxe para Betim (MG). Gostaria que ele tivesse ouvido seu avô tocar, mas não foi possível. E os shamisens estão guardados num armário aqui de casa, até o dia que este mesmo filho se interesse e aprenda a tocar. Parabéns pela sensibilidade com que escreveu os textos e me fez recordar da minha infância,na colônia de Ana Dias, litoral sul de SP. Um abraço,nmatban@hotmail.com

  6. dalva okuma @ 1 Jun, 2010 : 04:41
    estava a procura de aulas gratuita de shamisen mas, não encontrei. lia sua história..sempre quiz aprender para tocar pro meu pai (ele faleceu há 2 anos), mas sei que se eu tocar ele ouvirá de onde estiver, não tenho condições financeiras de pagar aulas, se vc souber de alguém, por favor me avise, obrigada! dalva.okuma@itelefonica.com.br

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