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  Conte sua históriaLuiz Fukushiro › Minha história

Luiz Fukushiro

São Paulo (SP)
34 anos, jornalista

Meu carma


Fukushiro sempre me foi um carma, desde criança. Um sobrenome que grita a ascendência japonesa de alguém que, em um primeiro olhar, não parece ser oriental – ou alguém já viu um japonês barbudo de 1,80 m? O sobrenome sempre cumpriu essa missão de caracterizar o mestiço como um sansei, de revelar o tal carma. Já na adolescência, eu era mais Fukushiro do que Luiz, culpa também de ter um nome assim, tão simples e brasileiro. "Fukushiro, você? Mas você é japonês?". Não, eu sou mestiço. E muitos perguntavam se falava a língua do arquipélago. E o tal carma anunciava mais do que eu realizava. Não havia hashis em casa, não falávamos japonês, minha vó era vó mesmo (não era batchan). Comia mais lasanha que sushi, mais estrogonofe que sukiyaki. Era um japa bem dos falsos.

Decidido a fazer jus àquele complicado sobrenome – afinal, quem sabe o que é um "k" ou o dígrafo "sh" na língua portuguesa? – e na ânsia por uma língua que usasse um alfabeto diferente, entrei para a escola de japonês, ainda no interior de São Paulo. Lá naquelas bandas, não existem escolas de japonês em si, mas sim centros culturais onde os imigrantes e descendentes podem matar um pouco da saudade. Ou seja, havia danças, karaokê, festivais. Acabei aprendendo muito mais que o "arigatô", "sayonara" e aqueles centenas de caracteres que eu nunca vou memorizar. Verdade foi que, mesmo à base de lasanhas, estrogonofes e tudo mais que a parte européia poderia me conceder, havia muito de japonês naquele menino mais alto, com cara de... mexicano, do que se pensava. Coisas básicas, na atitude, modo de pensar, que eu sem saber absorvi de um pai tipicamente nissei ( i.e. distante e silencioso) em meio à verborragia italiana materna (que, bem, eu também herdei).

E além da língua vieram o taiko (percussão japonesa), o kendo (esgrima japonesa) e o karaoke (que dispensa apresentações). Acabei me "niponizando", apesar dos genes. Sendo assim, a curiosidade ia além da cultura nipo-brasileira, que já é uma cultura mestiça, que adquire traços brasileiros, acentua alguns mais que a fonte. A idéia era conhecer a origem, de onde tudo veio. O que resulta no arquipélago japonês.

Há dois anos lá desembarquei para fazer arubaito, em uma unidade de processamento de carne. Ali, um novo movimento me saltou aos olhos, dos brasileiros nikkeis que agora fundam uma cultura brasílico-japonesa, o avesso do avesso. Se aqui havia o centro cultural, lá havia as lojas brasileiras e as baladas de axé, forro e sertanejo. Do mais novo à origem, tive a chance de ver a cidade onde nasceram meus avós, que há oitenta anos atrás saíram de lá rumo a um país desconhecido de língua estranha. Agora era eu, ali, semelhante – claramente por opção e com muito mais privilégios que um imigrante que via no Brasil uma saída, mas deu para sentir de certa forma uma saudade como eles talvez sentiram por aqui. Talvez ainda como parte do tal carma, do Fukushiro, com "k" e "sh".


Enviada em: 22/10/2007 | Última modificação: 22/10/2007
 
Uma infância aos dezesseis anos »

 

Comentários

  1. Rita de Cássia Arruda @ 4 Mai, 2008 : 15:02
    Prezado Luiz: Maravilha de relatos esses seus. Eu realmente nunca vi antes um um japonês barbudo de 1,80 m, mas quero muito crer que essa mistura deu muito certo. Acho que você soube tirar de letra esse tal "carma" que diz ter e magistralmente assimilou o que há de melhor de nossa cultura brasileira, da japonesa e da italiana também. Depois desse mergulho que há dois anos deu no Japão e de ter se "niponizado", como você mesmo disse, não pode mais ser considerado um "japa fajuto", né? Obrigada por dividir conosco suas histórias. Parabéns. Um abraço.

  2. Patricia @ 2 Set, 2008 : 22:32
    Eu fazia o mesmo caminho que você para ir trabalhar. Morava no prédio da frente, minha mãe ainda mora la.

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