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Mario Kimitada Hirai

presidente bernardes / são paulo - brasil
84 anos, jornalista

A Saga da Família Hirai no Brasil


Dezessete de maio de 1927. O navio Roburata Maru deixa o porto de Kobe, Japão, rumo ao Brasil. Entre as centenas de emigrantes estava a família Hirai, de Saga-ken, situada no extremo sul do Japão, composta de nove pessoas: meus avós Haruiti e Timo, meu pai Seitaro Hirai, os tios Kenroku, Toyoji, Tatsuo, Kumataro, e minhas tias Tatsue e Fussano. Duas tias casadas permaneceram no país. Todos estavam esperançosos de trabalhar numa terra desconhecida e retornar com muito dinheiro. Pelo menos era o que prometiam os folhetos das companhias de colonização. Seitaro, o mais velho da família, tinha convencido seu pai a permitir a emigração de um modo radical: ou ele dava o consentimento, ou ele praticaria o haraquiri. Meu pai tinha tanta certeza que ficaria rico no Brasil, que doou suas propriedades de Saga para os parentes que ficaram no Japão. O ar festivo do porto de Kobe não consegue disfarçar as lágrimas que escorrem dos membros da família Hirai, que da amurada do navio observam o Japão desaparecendo no horizonte...

A viagem dura 45 dias. Para passar o tempo há muitas atividades: aulas intensivas de português, gincanas, etc. Muitos passageiros acabam doentes. No dia 27 de junho de 1927 finalmente o Roburata Maru chega ao porto de Santos. Os Hirai vão trabalhar nas lavouras de café como colonos na Fazenda Santa Cruz, em Bebedouro, estado de São Paulo, para substituir a mão-de-obra italiana, cuja imigração fora proibida pelo governo brasileiro. Nesta fazenda meu pai conhece minha mãe Harue, com quem se casaria mais tarde. Após dois anos foram todos trabalhar na Fazenda Santa Rosa, em Olímpia, onde com muito trabalho duro conseguem economizar e comprar terras com 10 alqueires de café e 33 de hortelã na Gleba de Paiva, Km 17, município de Presidente Bernardes.

Em Gleba de Paiva nascem minhas irmãs Mitiko, Fujiko, eu, meus irmãos Massao e Minoru, meu primo Paulo e minhas primas Helena, Tereza, Regina e Emiko. Minhas lembranças nesta gleba são nostálgicas: as aves, os porcos, as cabeças de gado, o forno para fazer pão, as festas juninas com conversas ao pé do fogo, as pescarias no ribeirão, as cavalgadas com o cavalo Amigo, os pés de manga, os animais como cobras e lagartos em todo canto, os gatos-do-mato invadindo nosso quarto, a comemoração do Ano Novo japonês com muitas iguarias, os banhos de ofurô... Estoura a Segunda Guerra Mundial e o clima fica hostil para os imigrantes do Eixo. A família vende a fazenda e muda para a cidadezinha de Santa Luzia (que trocaria de nome depois para Araxans), onde explora as atividades de loja de secos e molhados e farmácia.

Posteriormente as famílias dos meus tios Kenroku e Tatsuo mudam para a cidade de Presidente Prudente. Meu pai e seus irmãos os acompanham depois e montam um negócio de secos e molhados denominado Casa Hirai na Rua Barão do Rio Branco esquina com a Avenida Brasil. A mudança para uma cidade grande foi motivada para possibilitar uma educação melhor para os filhos. Ali acontece um fato que ajudou muito o negócio da família. A produção de algodão na região estava no auge até surgir uma praga na lavoura. A solução era um inseticida poderoso, o Fenatox. A Casa Hirai aproveitou a oportunidade e ganhou muito dinheiro. Tanto, que resolveu expandir o negócio mudando para a outra esquina, numa sede própria novinha. Além disso, abre uma filial, a Casa Asahi, na Rua Tenente Nicolau Maffei. A firma acaba se tornando uma das maiores atacadistas de secos e molhados da região da Alta Sorocabana. A estas alturas o clã Hirai tinha aumentado: meus irmãos Jorge, Wilson, Paulo, Paula, Roberto; meus primos Orlando, Sussumo, Hiroshi, Shozo, Massayoshi, Massaru, Hitomi e as primas Katsuko, Kaoru, Mari, Akemi, Taeko, Akiko, Fumiko, Aiko, Kimiko, Kazuko e Mieko.

Mudamos para Presidente Prudente em 1944, ainda em plena guerra. Chegamos de trem à noite e entre assustado e encantado observei a grande quantidade de luzes, o barulho dos cascos dos cavalos das charretes batendo nos paralelepípedos, as vitrinas das lojas. Encontrei dificuldades para me adaptar ao grupo escolar, pois só entendia o japonês. Mas o fato de gostar muito de ler, principalmente as histórias em quadrinhos, os gibis, facilitou a integração escolar. Meu pai me matriculou na escola de japonês da professora Sasaki, de saudosa memória. O ensino era feito às escondidas, pois havia uma proibição do governo contra os cidadãos do Eixo. Lembro como se fosse hoje o término da guerra quando estava no primeiro ano. Alguém entrou na nossa sala de aula e comunicou que a guerra terminara e o Brasil tinha vencido. Todos gritaram “Viva o Brasil!!”.

O fim da guerra trouxe conseqüências para a colônia japonesa. Alguns japoneses (kiokko) não acreditavam na derrota do Japão e outro grupo (haissen), mais esclarecido, acreditava no contrário. Meu pai se incluía no primeiro grupo. Patriota convicto, foi obrigado pelas autoridades policiais locais a cuspir na bandeira japonesa. Ele e o irmão Kenroku responderam que preferiam morrer a fazê-lo. Por este motivo os dois foram trancafiados na cadeia pública por quase seis meses. Lembro que levava as refeições para eles e eles nos acenavam de longe encostados nas grades.

A divisão da comunidade trouxe situações insólitas. Éramos proibidos de fazer amizades com o outro grupo, um grupo falava mal do outro. Esta situação perdurou até que meu pai, presidente da Associação Japonesa de Presidente Prudente, conseguiu conciliar os dois grupos numa reunião histórica. Como presidente da Associação, meu pai era estimado por todos. A Presidente Prudente daquela época era uma cidade agradável. Foi fundada pelo coronel Francisco de Paula Goulart e bem urbanizada. A Estrada de Ferro Sorocabana trouxe muito progresso à região. Tenho boas recordações da cidade: minha infância passada nas ruas tranqüilas, o footing na Praça 9 de Julho, os desfiles do 7 de Setembro, o Carnaval de rua com toda a cidade participando, as matinês do Cine João Gomes (quanta saudade!), o nododiman no domingo à noite na Rádio PR5 (a Voz do Sertão), as sessões de filmes japoneses no Cine Teatro Phenix, a missa domingueira na igreja matriz, o Ginásio Estadual Fernando Costa... Recebemos em casa uma visita muito importante: o dirigente máximo da seita budista Higachi-Hongwanji do Japão Orakata-sama e sua esposa, princesa irmã da imperatriz Nagako. Foi uma honra e tanto!

Corria o ano de 1956. A firma Casa Hirai não ia bem. Premida por dificuldades financeiras, ela teve que fechar as portas. Todos os irmãos (menos o meu tio Kumataro) e suas famílias partem para São Paulo. O trem parte lentamente enquanto a querida cidade de Presidente Prudente vai saindo de nossas vidas. Todos choram. Em São Paulo, cada família toma um destino diferente, começando nova vida praticamente do zero e enfrentando muitas dificuldades. Atualmente todos têm uma vida estável.

Meu pai e seus irmãos não conseguiram retornar ao Japão ricos, como tinham planejado, mas deixaram no Brasil um tesouro maior: seus filhos e netos sanseis e yonseis - que com certeza honrarão a memória de seus ancestrais dando continuidade à tradição da família Hirai de disciplina, trabalho duro e honestidade.

Mário Kimitada Hirai, 70 anos, jornalista e fotógrafo


Enviada em: 21/03/2008 | Última modificação: 21/03/2008
 

 

Comentários

  1. Roseli @ 13 Abr, 2008 : 01:32
    Sr. Mário, parabéns pela história da familia. Sou paulistana e moro em Presidente Prudente há 25 anos, a cidade está muito bonita e oferece qualidade de vida. Será que a familia Hirai de fotógrafos aqui são seus parentes? Venha visitar a cidade, não há mais trens, mas em compensação há aviões.rssssss

  2. Alessandro hirai Garcia @ 7 Jan, 2009 : 08:37
    parabens Sr mario

  3. alessandro hirai garcia @ 7 Jan, 2009 : 08:45
    SR MARIO BELISSIMA HISTORIA E A MINHA HISTORIA SE CONFUNDI COM A DO SENHOR POIS MEU BIZAVO SE CHAMAVA KUMATARO HIRAI E DESEMBARCOU EM 1927 SE CASOU COM RICK ACREDITO QUE SE ESCREVA ASSIM. E TEVE 4 FILHOS NOBORU, SABURO, MASSAKO E OUTRO NAO SEI O NOME. SOU NETO DE NOBORU GOSTARIA DE SABER SE SOU PARENTE DO SR POIS SE PERDEU OS REGISTROS DA FAMILIA, GOSTARIA DA RESPOSTA DO SR. MEU E-MAIL É alessandro_hirai@yahoo.com.br ou hiraigarcia@hotmail.com GRATO, POIS ACHO QUE SOU O ULTIMO HIRAI.

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