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  Conte sua históriaErica Kaminishi › Minha história

Erica Kaminishi

Tóquio - Japão
41 anos, Estudante

Caminhos In(versos)


Do Japão ao Brasil, do Brasil ao Japão....
Assim como a de muitos descendentes, minha história segue este caminho; o caminho inverso dos meus avós, e aqui no Japão busco pelas minhas raízes adormecidas...

Cresci sabendo muito pouco sobre a vida dos meus avós, que sairam de Miyagi-ken (norte do Japão) e se fixaram no norte do Paraná há mais de 70 anos. Acredito que assim como a de muitos imigrantes, suas histórias são marcadas pelo sofrimento e perseverença...
Mas cresci sentindo a presença dos costumes e hábitos tipicamente japoneses; o cheiro do incenso pela manhã no hotokesama às cantigas de roda que minha mãe sempre cantava, tentando manter viva as tradições de um país que ela, por sua vez nunca havia conhecido... Um país presente apenas nas lembranças contadas pela minha avó para a minha mãe, e assim como um legado, passado para mim e meus irmãos.

O país imaginário de infância tornou-se presente quando há dez anos vim para o Japão. Mas sentia-me brasileira e não japonesa. E assim, sou.
Neste meio tempo, voltei para o Brasil e agora estou novamente aqui, estudando Artes Visuais. E para contar a minha história e da minha família, sigo o caminho poético e o contorno com cores e formas....
Assim, desenvolvi o projeto Caminhos In(versos) que será exibido no Japão e Brasil este ano:

Caminhos In(versos)

Caminhos In(versos) se baseia no meu trajeto; Japão – Brasil – Japão.
O primeiro ambiente é um Japão imaginário, conhecido apenas pelas fotos antigas de família, canções tradicionais e estórias infantis narradas pela minha mãe. Um lugar (in)existente que sempre esteve presente na minha imaginação de criança e visível apenas em meu sobrenome e aparência.
O segundo caminho, entre Brasil – Japão, é a realidade, minha verdadeira experiência através do meu olhar e meu corpo. Por este trajeto, eu retorno ao primeiro Japão, ao país onde minhas raízes estão dormentes, e sigo o caminho inverso da minha família, numa tentativa de me identificar e encontrar meu próprio caminho.
Entre um trajeto e outro, encontro-me com o poema do poeta português Fernando Pessoa; “Qualquer caminho leva a toda parte” (1921). Nele, Pessoa reflete sobre os vários caminhos que podemos seguir, porém através de um jogo de palavras, o poeta revela que todos os caminhos levam-nos a toda parte, e em qualquer ponto, podemos separá-los e dividí-los. Podemos sim dissecá-los e partir para toda parte, pois todos os caminhos estão em nós. Assim, numa metáfora lúdica, o poeta brinca e nos faz refletir sobre as nossas escolhas;

“Qualquer caminho leva a toda a parte
Qualquer caminho
Em qualquer ponto seu em dois se parte
E um leva a onde indica a estrada
Outro é sozinho.
Uma leva ao fim da mera estrada.
Pára onde acabou.
Outra é a abstracta margem
[…]

Ah! os caminhos estão todos em mim.
Qualquer distância ou direcção, ou fim
Pertence-me, sou eu.
O resto é a parte

De mim que chamo o mundo exterior.
Mas o caminho deus eis se biparte
Em o que eu sou e o alheio a mim […]”

Sigo os versos de Pessoa e entrecruzo suas palavras com as minhas, e contorno com formas e cores meu passado e meu presente, fundidos em um só. Do meu imaginário infantil, aproprio-me dos antigos mapas japoneses do período da Era Edo (1603-1868); divido, corto, separo e transformo-os em minhas direções. Assim, aludindo ao lúdico, posso caminhar em suas ruas e vielas, entrar em suas casas, navegar em seus rios… Uma tentativa em buscar a realidade num passado ausente e retransformá-la em meu presente, num processo de identificação do self (EU).
Assim como o crítico literário John Welsh, da University of Virginia, diz sobre As Cidades Invisíveis de Italo Calvino (Italy, 1972); “… a cidade que está além do olhar, a cidade atrás do self – é invisível. Apenas a cidade que está dentro do self pode ser realmente percebida, ou melhor, a única cidade que é percebida é a cidade “representada” dentro do self .
Assim, o país imaginário de infância retorna ao meu presente, ele mora dentro de mim. Sigo o meu caminho dentro da poética de Pessoa, e meu trajeto Japão-Brasil-Japão torna-se apenas um, sem limite físico-temporal.

http://kaminishidesign.com/erica/


Enviada em: 01/03/2008 | Última modificação: 01/03/2008
 

 

Comentários

  1. Claudio Tanno @ 1 Mar, 2008 : 14:30
    Quando temos em mente nossa história, a origem de nossos antepassados, a realidade que vivenciamos no presente torna-se uma poesia que vamos descobrindo em versos já declamados por aqueles que fizeram a nossa existência.

  2. Elisa K. @ 13 Mai, 2008 : 13:28
    Érica, muito elegante esse paralelo com o poema de Pessoa. Aludindo ainda à metáfora lúdica dos nossos caminhos, creio que o fascínio deste jogo está justamente na liberdade de vivê-lo na sua infinita forma. Há quem construa mosaicos de imagens do Passado; outros, transposições de memórias com os ideais do Futuro, bem como os que prefiram apenas permitir que o acaso construa seus caminhos. Qualquer que seja este, entrelaçamos sempre o Tempo abstrato ao Tempo percebido fisicamente. Bons estudos e um abraço.

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Este projeto tem a parceria da Associação para a Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil

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