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Ester Yamaguchi

São Paulo / SP - Brasil
62 anos, Supervisora Comercial

O arco-íris, depois da chuva


Mais uma madrugada de chuva. Insistente e melancólica sobre o telhado. Sons e sensações tão evocativas quanto qualquer lembrança da minha infância. Eram os anos 60. Distantes no tempo, mas tão presentes ainda no meu dia-a-dia.

O estridente despertador marcava os seus ponteiros: 3:40 da madrugada. Enquanto nos chamava, a nossa mãe acendia, procurando no tato, o esfumaçado lampião de querosene. E logo se dirigia à cozinha, nos deixando no escuro. Era necessário nos alimentar, antes que saíssemos. Sabia que o embaraço de nós meninas, impediria que no intervalo entre as aulas, - naquela distante escola da cidade, - tirássemos da bolsa o único lanche ao alcance da nossa possibilidade: a batata-doce cozida. Preferíamos comê-la em casa, antes de sair. Assim, evitaríamos os olhares curiosos, e quem sabe, chacotas de outros estudantes da cidade. Eles comeriam seus suculentos sanduíches de calabresa ou um cobiçado hamburger na cantina escolar. Durante o intervalo, preferíamos fingir falta de fome.

Ainda sonolentas, comíamos a batata em silêncio, sob a luz de lampião, acompanhada por uma xícara de chá morno. Morno, porque a nossa previdente mãe deixava o bule na noite anterior sobre o fogão à lenha, esperando que as poucas brasas restantes do jantar, mantivessem seu calor até a nossa saída. Para reacender o fogão, ela teria que se levantar ao menos meia hora antes.

Para os nossos pais, a formação escolar das filhas estava acima de qualquer objetivo de suas vidas. Chuva, temporal ou sono não justificavam qualquer artifício para que faltássemos às aulas. A pobreza era a última razão para que deixássemos de cumprir aquela odisséia diária, dos nossos 12 ou 13 anos de idade.

Às 4:30, a escuridão e a tortuosa estrada de terra nos esperavam por 5 quilômetros de caminhada. À pé, até o ponto de ônibus. Havia apenas um guarda-chuva, para dividir com a minha irmã. Não possuíamos uma lanterna, mas dispúnhamos de visão aguçada e intuitiva, que só os moradores rurais desenvolvem. Conhecíamos na escuridão, cada pedra, cada poça e cada depressão que compunham aquela estrada.

Quando éramos surpreendidas por algum estranho movimento no escuro, nos convencíamos de que fosse apenas o vento a pregar um susto com o espectro das árvores. Mas havia um trecho inevitável a superar. A famosa e fúnebre goiabeira à beira da estrada, que abrigava uma cruz, onde anos antes morrera um caboclo, em um acidente de caminhão. Nas madrugadas de estrelas, percebíamos de longe, o contorno da coroa de flores de plástico, que adornava sua cruz. Já sob a chuva, o uivo do vento e o escuro do seu tronco atiçavam o nosso fértil imaginário infantil. Os “fantasmas” nos obrigavam a inclinar o guarda-chuva para frente e a vedar a visão da estrada. Nos encorajávamos, uma à outra, de que apertar os passos olhando apenas o chão, nos faria chegar primeiro ao ponto de ônibus.

Nas bolsas, levávamos cuidadosamente os nossos sapatos, limpos e lúcidos, que completavam o uniforme escolar. Sapatos preciosos, adquiridos a preço de muitas noites de costuras da nossa mãe. Trocávamos apenas quando o ônibus das 5:30 se aproximava, colocando rapidamente os nossos chinelos enlameados numa sacola. Esta, escondíamos atrás dos arbustos. Nossos surrados chinelos nos aguardariam ali, até o nosso retorno da cidade. Com o ônibus das 19 horas.

Conhecíamos os dois motoristas que revezavam aquela linha, que operava em 6 horários ao dia. O mais bondoso e gentil era o Seu Bento, que nos lembrava o Papai Noel das ilustrações. Mas com ele no volante, a viagem de 37 kilometros exigia duas horas de sonolentos sacolejos e nos fazia comer muita poeira até a cidade de Mogi das Cruzes.

Durante o percurso, o ônibus parava nos pontos de maior acesso a outros bairros rurais. Entre os passageiros que subiam, quase todos os estudantes eram nikkeis. Era noto que se formassem pequenos grupos de famílias mais prósperas, propensos a fecharem entre sí. Mesmo nas conversas, alargavam-se as distâncias. Dentre os que possuíam aparelhos de TV e discutiam seus programas prediletos, com aqueles outros, calados. A quem faltava a eletricidade em casa.

Em idades que começavam a desabrochar as primeiras vaidades femininas, havia algo que nos embaraçava muito perante os estudantes mais abastados e seus sorrisos de chacotas. Era quando nossos pais pediam para que comprássemos um litro de querosene ou um quilo de arroz, ao retornar da cidade. Sentimentos ingênuos e insensatos que a complexidade emotiva de adolescentes não podia explicar. Mas era um fato que tentávamos dissimular as atenções destes estudantes, quando carregávamos a sacola com a modesta compra. O forte cheiro de querosene se propagava por todo o ônibus, e eles sabiam a quem apontar os dedos.

Às 19 hs, o ônibus nos deixava de volta ao ponto. O nosso era o penúltimo daquele longo percurso, antes do ponto final. Nossos pais se alternavam ao aguardar alí, no meio da escuridão, quando o trabalho na lavoura lhes permitia. Eles temiam os andantes e forasteiros, que de tempo em tempo, eram vistos de noite perambular por aquela região. Sabíamos de suas exaustivas jornadas de enxadas, pois haviam perdido até mesmo o pequeno trator, para prover a nossa educação. Esfomeadas, pegávamos o caminho de volta, os mesmos 5 quilômetros de escuridão, mas agora, em companhia deles.

Ao vê-los abdicar do guarda-chuva a nosso favor, e eles, com apenas um saco de estopa sobre a cabeça, sabíamos que aquele afeto e seus gestos de proteção, viriam um dia a ser compensados. Mas até então, não tínhamos consciência de como isso viria a acontecer.

Sucederam-se muitas madrugadas no vai-e-vem daquelas longas caminhadas. Mas assim como a chuva, o tempo também passara. Com a conclusão da escola ginasial, tocou a nós duas deixar a zona rural. Deveríamos nos unir às nossas irmãs maiores, já encaminhadas anos antes a São Paulo, onde eram aprendizes de seus ofícios.

Naquele final dos anos 60, eles sabiam que para as suas filhas, chegara o tempo de voar. Haviam fortalecido nossas asas e forjado nossos espíritos para alçar, sem temor, os primeiros vôos solitários. Prosseguiríamos nossos estudos na grande cidade. Não sem novos sacrifícios. Mas não haveria mais a chuva e nem a escuridão. Os estudos permitindo, haveria à frente, apenas luzes de esperança e um possível arco-íris no final daquela nova estrada.

Hoje, estruturadas profissionalmente, olhamos para trás e sabemos qual foi o maior legado que eles nos deixaram: a liberdade, obtida com os estudos. Com ela, soubemos voar os horizontes do Brasil e também os céus distantes, por terras desconhecidas. E compreendemos então, que as mais tristes privações, não são as materiais. Mas a privação de asas.


Enviada em: 20/02/2008 | Última modificação: 20/02/2008
 

 

Comentários

  1. Mari @ 22 Fev, 2008 : 09:15
    Sra. Ester, conheço dezenas, senão, centenas de histórias como a sua. Tenho certeza que seus filhos compreendem esses valores, e os aplicarão, com certeza, nos seus caminhos individuais qdo se tornarem adultos. Mari

  2. Juliane @ 22 Fev, 2008 : 09:57
    Sra. Ester, li sua história e não pude deixar de me comover... Colocar os estudos em primeiro lugar mesmo às custas de enorme sacrifício é de se admirar. Pode ter certeza de que lembrarei da sua história como lição de vida. Parabéns

  3. Renzo Morishi-ta @ 24 Fev, 2008 : 03:40
    Sra. Ester, obrigado pela leitura dos meus depoimentos. A sua história também me comoveu. Minha esposa relata fatos semelhantes pois ela teve uma infância e adolescência de muito sofrimento, privações e constrangimentos. E, também, sinto perfeitamente o que você quer dizer com a formação de famílias mais prósperas e o alargamento da distância inevitável e este era um dos fatores que afastavam alguns nikkeis entre si. Relatos como o seu são lições de vida para nos inspirar gerações mais novas, impacientes, imediatistas, exigentes e que reclamam de pequenas dificuldades da vida. Nas horas mais difíceis da minha vida procuro lembrar de histórias como a sua e de minha esposa.

  4. Elisa K. @ 9 Abr, 2008 : 03:11
    A sra. disse tudo: a profissão, através dos estudos e conhecimentos, nos traz a liberdade de ações e opções. E ninguém mais lhe tira isso.

  5. nelsonsinzato@brturbo.com.br @ 27 Jul, 2008 : 20:18
    Sra. Ester, parabéns pela comovente história. Verdadeiro exemplo de conquista de seus objetivos a custa de muito sacrifício e privações. No entanto, minha homenagem maior destina-se a seus pais. Parabéns Sr. Akira Yamaguchi e Sra. Yukiko Yamaguchi pela maneira com que conduziram os destinos de suas filhas. Tenho a certeza que a garra, a determinação, o sacrificio, e muitos outros atributos presentes no perfil de suas filhas foram moldados por vocês. Faço idéia do quanto os Senhores trabalharam e sofreram na roça para poderem suas filhas estudarem, para terem um futuro melhor. Verdadeiro exemplo de amor para com os filhos. Sra. Ester, para seus pais, Omedetô, mesmo.

  6. Silvia C. Garavani @ 31 Jul, 2008 : 19:07
    Visão exemplar ao traduzir os estudos em sinônimo de liberdade, sra. Ester. Como conduz o seu belíssimo texto, sem pieguismo e quanto menos ranço, demonstra o quanto as privações a levaram à coragem, força e empenho. Seus pais foram pilares inabaláveis, parabéns. Silvia

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