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Ana Paula Akemi Matsuda Morioka

São Paulo / SP - Brasil
53 anos, Secretária

MEMÓRIAS EM FLASHES


Família Matsuda, Guapiranga-Lins/SP

SHAKUHACHI
Após o banho diário no ofurô que ficava atrás da casa de madeira e chão de terra batida, vinha lentamente, braços arqueados, para a sala. Nós, crianças, estávamos todos sentados no chão brincando, conversando ou jogando alguma coisa. Ele não nos inpirava medo, de forma alguma! Ditiam sempre fora bonzinho e carinhoso com as crianças, apesar de mal falar português e tinha muita paciência com todos os netos. Sentava-se em sua cadeira habitual com as costas eretas, empunhava a grande flauta de bambu que ele mesmo tinha confeccionado (na época parecia muito maior porque nós é que éramos pequenos); apoiava-a debaixo dos lábios inferiores, fazia caretas, ajeitava-a, espremia-a, assoprava, dava umas cuspidinhas, mexia mais uma vez os lábios como a procurar harmonizar a maciez da boca com a solidez do bambu e só então começava a tocar. Quem já ouviu o som de um “shakuhachi” antes sabe que penetra na alma e impregna-se para sempre na memória, tanto é que até hoje, trinta anos depois, quando entro na sala da casa onde antigamente ditiam tocava, posso “ouvir” a melodia vibrante e harmoniosa, o som oco e seco que saía de sua enorme flauta. Desde que faleceu, há mais de vinte anos, nunca mais ouvi um shakuhachi tocado ao vivo. Comprei CDs japoneses e americanos do gênero em busca de algo que se aproximasse daquele som que ouvia na infância, mas nenhum deles trazia a melodia tranqüila que me acalmava todos os dias das férias, às seis horas da tarde, pouco antes do jantar.

SPLASH!
Deitada no quarto ainda escuro, acordo sem reconhecer o espaço à minha volta. Aos poucos vou me dando conta dos detalhes e tudo começa a fazer sentido: o teto escuro de madeira encardida, o tablado comprido, muita gente querida ao meu lado, cada um com seu ofuton, o mugido insistente do boi lá no curral, o cheiro misturado de shoyu, café, lenha do fogão e terra. Ah... a terra! A gente acordava com aquele barulhinho repetitivo e já tão íntimo que soava como um despertador carinhoso que quer nos acordar sem , no entanto, irritar: splash, splash, splash, splash ... ! A batiam vinha lá da cozinha batendo o balde de alumínio escuro e amassado de tanto uso pelos cantos, jogando um punhado de água em cada canto da casa para molhar o chão e não levantar poeira, afinal, logo logo nós todos estaríamos andando e correndo pela casa, levantando pó e enchendo a mobília de uma película vermelha eterna, mas ela não se abatia e continuava tranqüilamente seu serviço, baixinha como era, quase a tocar o chão a cada espalmada que dava na água. Levantávamos em alvoroço e cumprimentávamos a todos com um sonoro “ohayo-gozaimaaaaaaassu”. Batiam abria um sorriso tímido, mas tão meigo que era capaz de nos beijar a todos de uma só vez! Na época, ainda não valorizávamos seu serviço matinal, mas anos mais tarde cheguei a acordar cedinho para ajudá-la nesta tarefa tão simples e tão vital. Quem disse que conseguia completar dois cômodos? O balde pesava, as costas doíam e os pés se melavam com a mistura. Ela então passava por mim rindo muito, pegando o balde de minhas mãos, seguindo sua tarefa inocentemente, indelevelmente, como sempre.

SHODO
Folha de papel em branco bem fino e comprido, uma caixinha surrada de papelão acima da folha com pincéis muito macios de diversas espessuras e uma pedrinha retangular preta interessante em declive na parte superior formando uma rampinha. Ditiam trazia um pouco de água, molhava esta pedra em declive e com uma outra pedrinha retangular começava a raspá-la pacientemente, por diversas vezes, até conseguir uma água preta muito líquida. Este ritual diário era acompanhado bem atentamente por dois olhinhos que se deitavam por sobre a mesa para ficarem na mesma altura dos pincéis quando entrassem em ação. Não nos falávamos. Eu não perguntava nada e por incrível que pareça, nestes instantes, ficava quieta. Quem me conhece sabe que isto é muuuuuuiiiiiito raro de acontecer (muito mais naquela época), mas ditiam conseguia “me prender” desta maneira. Nunca pediu silêncio ou teve que chamar a atenção nesta hora. Eram os instantes sagrados! Escolhia, então, lentamente um dos pincéis, molhava-o na tinta preta que havia preparado, fazia outros movimentos ritualísticos com o pincel até obter a quantidade de tinta exata para daí apontá-lo para o papel. Nesta hora meus olhinhos não desgrudavam mais deste pincel molhado. À partir daí, toda a atenção seria pouca para acompanhar tudo o que estava para acontecer. Ditiam levantava a cabeça e fechava os olhos, o pincel molhado no ar, como que querendo visualizar os ideogramas que desenharia ali naquele espaço de papel. Nestes segundos de concentração eu até segurava a respiração para não atrapalhá-lo, para daí ver o pincel começar a se movimentar lenta, mas efetivamente no papel. Que visão! Em questão de segundos o pincel, ora tocava o papel mais densamente, formando um traço grosso, hora elevava-se delicadamente para criar uma curva leve e fininha, hora mal tocava o papel para que o traçado ficasse escasso mesmo. Até o que parecia falha era proposital. Genial! Na época não podia acompanhar o pincel e os movimentos das mãos junto... que pena! Nunca soube quanta filosofia ou poesia (hai-kai) ditiam traçou e deixou registrado e também nunca ganhei um trabalho sequer dele, mas não me lamento, não. Delicio-me com estas lembranças e “visões” que para mim já significam muito! Poder ver os movimentos delicados daquelas mãos tão rudes e calejadas bem de pertinho, o preto tingindo lentamente o branco em formatos precisos e os kanjis aparecendo como num passe de mágica já é poesia suficiente e da mais alta qualidade !

O SAMURAI BÊBADO DO OSHOGATSU
É dia 31 de dezembro. Logo mais faremos a contagem regressiva para o início de mais um ano, que para mim, ainda são poucos. Os meninos soltam “peidos de velha” debaixo das cadeiras dos adultos e saem correndo e no resto do tempo provocam as meninas, estas fogem dos sapos enormes e gordos que insistem em participar da festa e dos primos atentados, as mulheres andam para cá e para lá com pratos de comida nas mãos e os homens conversam sobre a pescaria do dia. Sempre entre o jantar farto, saboroso e bi-cultural e a passagem do ano em si, fazemos os teatrinhos, as cantorias e brincadeiras que desde que me conheço por gente fazem parte da tradição da família. Realmente nossa família é diferente! Nada de japoneses calados, introspectivos e sérios que tradicionalmente caracterizam a raça, mas temos nossos rituais, só que com risos largos, abertos e muito espontâneos desde a primeira geração. Mas voltemos ao oshogatsu. O ponto alto de todas as apresentações sempre é a do ditiam. Estamos todos sentados em volta do palco improvisado no barracão ou terreiro onde acontece a festa. Netos na primeira fila e os demais familiares e amigos sentados em volta. Ditiam prepara-se sozinho na sala reservada. Durante o dia já havia separado seu próprio figurino e os apetrechos que utilizaria em sua apresentação. Não sei se ensaia antes, mas na hora sai tudo muito natural e bem convincente, pensamos nós. Lá de dentro ele anuncia que já está pronto. Silêncio total na platéia. De repente, surge um samurai enorme(ditiam era bem alto), cambaleante; numa das mãos uma garrafa de saquê amarrada numa cordinha bem clarinha, na outra um guarda-sol de papel com varetas de madeira, já meio rasgado e tosco, mas tudo bem; chapéu de palha de aba muito larga na cabeça preso pelo queixo, roupas de samurai bem surradas e guetás de madeira para homem, porém bem altos. Penduradas nas laterais, as espadas apresentam-se displicentemente dispostas porque o samurai realmente já passou de todos os limites na bebida. Inicia-se então, um canto lamentoso e angustiado de quem literalmente está sem rumo, sem destino, sem perspectiva na vida. Um canto, hora forte, hora apenas um fio de voz engasgado, embargado, que traduz todo sentimento de um verdadeiro ronin, o samurai errante, sem trabalho, sem destino, sem dono, sem exército, sem ter por que lutar. Ditiam Matsuda transformava-se! Todo ano um novo canto, todo ano uma nova história, mas sempre o mesmo tema, o mesmo lamento: a angústia do ronin.

E QUE NINGUÉM DUVIDE QUE QUEM TRAZ NO CORAÇÃO LEMBRANÇAS COMO ESTAS SEJA MUITO FELIZ!


Enviada em: 01/02/2008 | Última modificação: 09/02/2008
 
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Comentários

  1. Mamoru @ 24 Jan, 2008 : 14:50
    Que bom, minha prima escreve tanto quanto fala ^_^ hehehe. E você ainda vai ver seus sobrinhos mestiços e loiros... *_* / Falou bem sobre o pão que o diabo amassou, estou lendo o "Corações Sujos", de Fernando Morais, e "Brasil e Japão", de Tsuguio Shindo (curiosamente, um livro emprestado do seu pai), e francamente, o que os primeiros imigrantes comeram foi qualquer coisa amassada pelo diabo, menos pão. / E que bom que nas suas reviravoltas você voltou às origens, porque tb adoramos o seu sansei gordinho. E falando em origens, já começou a estudar nihongo? / Sabe que aprendi japonês e algumas tradições porque morávamos juntos com ditian e batian. Então, hoje, para preservar a cultura e tradições procuramos ensinar nihongo para as crianças. / O retorno às origens é um fato, à medida que envelhecemos percebemos o quão importante é preservar as raízes.

  2. Takeshi Misumi @ 28 Jan, 2008 : 01:56
    Ana Paula, Parabéns pelo excelente depoimento. Você conseguiu sintetizar tudo que efetivamente ocorreu nestes cem anos de imigração japonesa. Sou nissei e à medida que lia as bem concatenadas palavras, me sentia retratado. É ótimo saber que uma jovem sansei tem um sentimento tão nobre em relação aos antepassados. Está linda a mensagem final que você transmite a todas as demais gerações, que como você escreve para "..sermos cada vez mais cidadãos do mundo."

  3. Ricardo K @ 29 Jan, 2008 : 23:12
    Ana, legal os seus pots! Será que ainda vou resgatar mais minha identidade japoronga e terminar com uma de olhos puxados? Muito bacana também refletir sobre a evolução do conceito de vencer. Quando penso nos meus pais, noto que maior parte de nossos debates são mesmo relativos a diferentes formas de encarar o sucesso. Beijos, Rica

  4. Sílvio Sano @ 30 Jan, 2008 : 14:26
    Prezada Akemi, o seu texto Sou Sansei, já foi uma delícia de ler e definiu bem o "sansei" (sou nissei) como, superada a barreira da luta pela sobrevivência, tb um desbravador, só que, em busca de ocupar, e bem... ou melhor, muito bem, o seu espaço dentro da sociedade brasileira. Daí, quando veio com a reflexão sobre os cem anos, não resisti a te pedir para que leia (em minha história, no Pra Voltar a Ser Feliz) a canção que compus para o centenário em cima do karaokê da cantora japonesa Mariko Nakahira, com a devida autorização dela, inclusive para que Nobuhiro Hirata, cantasse e a gravasse em seu CD, lançado 2 semanas atrás. Minha canção é a síntese do que vc escreveu, ou o que vc escreveu é uma ilustração adequada à minha canção. Abraços.

  5. yukitaka @ 2 Fev, 2008 : 23:22
    Ana, surpreendente como podemos absorver estes fatos na nossa memória. Fatos estes que realmente foram marcantes e que foram sedimentados devido a profundeza dos gestos e dedicação que os nossos antepassados puderam gerir dentro de nós.Jamais imaginamos como eles foram importantes, e damos o devido valor quando eles se partem e deixa-nos um vazio enorme, mas isto é parte da vida e do aprendizado, por isso cabe a nós passar esta essência e conceitos que tanto eles nos deram a esta nova geração, uma vez que isto é fundamental para que o que os nossos antepassados tenham continuidade no trabalho feito, senão virarão cinzas e sem história.

  6. Claudio Tanno @ 28 Fev, 2008 : 21:23
    Ana Paula, parabéns pela sua história, como descreveu o que é ser nissei e sansei. Apesar do modo particular que vivenciou toda influência da imigração japonesa, reflete um padrão de vida que se repete em muitos descendentes. Sou nissei e tenho uma filha, portanto, sansei.

  7. gsjuy @ 17 Mar, 2008 : 10:32
    hkdtdgutckfvjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjj

  8. Maura Matuda @ 16 Abr, 2008 : 07:48
    Olá, minha cunhada (casada com o meu irmão) tbm é Morioka, Onesia Morioka. A Família dela é de Aguaí! De onde você é? Beijos

  9. isabel@27abril,2008 @ 27 Abr, 2008 : 18:54
    ana, também sou sansei, mas sofri muita discrimnação no japan,pois, na verdade, pertenço a outra ilha do japão,e não tenho nenhuma, identidade com, o povo daí.porém, sei que a vida, ainda nos ensina ,muitas coisas, a serem revistas.

  10. fkjhk @ 14 Jun, 2008 : 17:04
    rjyu

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