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Ana Paula Akemi Matsuda Morioka

São Paulo / SP - Brasil
54 anos, Secretária

SOU SANSEI !


Sou Sansei. Terceira geração de descendentes de japoneses aqui no Brasil. Costumo dizer que sou da geração do equilíbrio: os isseis vieram para cá e comeram o pão que o diabo amassou para que pudéssemos desenvolver o pensamento livre que temos hoje. Digo isso porque os nisseis não tiveram a oportunidade que nós, da terceira geração, tivemos: à da livre escolha, do livre pensamento, do livre "ser". Tinham que "vencer" e entenda-se por "vencer", estudar muito às custas de muito sacrifício dos pais e irmãos mais velhos para se graduarem em uma faculdade pública de renome e em um dos três ou quatro cursos mais tradicionais e de status que existia: medicina, engenharia, direito e pedagogia (para as poucas mulheres que conseguissem chegar lá, pois para elas não havia a obrigação de estudar e sim, de cuidar dos irmãos, da casa...). Marketing, publicidade, belas artes, jornalismo, letras, filosofia...não existiam enquanto curso, ou pelo menos, não enquanto opção a se escolher na cabeça destas pessoas. Depois disso, era preciso trabalhar muito e honestamente ainda por cima! E ganhar muito dinheiro. Casar-se com um(a) outro(a) descendente de japonês tão moralmente correto(a) e irrepreensível, ter filhos e dar muito orgulho para a família por tudo que conquistaram. E olha, os isseis e nisseis são muito elogiados pelos demais brasileiros por estes feitos porque a maioria conseguiu! Não que eu considere isso errado, não! Há muita glória, honra e orgulho nestes feitos, mas a alegria de poder escolher quem se quer ser só começou a surgir para os descendentes de imigrantes japoneses da minha geração em diante e justamente graças à toda esta conquista das gerações passadas!

Tive, sim, um pouco de crise de identidade quando criança: era a japa na escola, a inteligente, a "cdf" que tiraria uma vaga dos brasileiros no vestibular e era a brasileira em casa, muito pouco submissa (como toda japa deveria ser), que não gostava de conviver com outras crianças e jovens descendentes, exceto os parentes; que sempre preferiu lasanha, pizza, arroz/feijão/bife/ovo frito a sushis, sashimis, missoshiros, etc; que se formou em Letras, estudou português, inglês, francês, mas que nunca conseguiu passar do terceiro livro da Aliança Cultural Brasil-Japão por total bloqueio à língua ancestral. Tentando assumir a identidade totalmente brasileira, (nunca havia namorado um japa até meus 20 anos e aos 14 informei meus pais que eles esperassem netos mestiços loiros no futuro) encontrei em mim muitos traços inerentes à meus ancestrais, começando, conforme fui amadurecendo, a incorporar à minha formação, o que escolhia ser importante, bom e viável de ambas as culturas e como toda boa paulistana, a de muitas outras culturas também. Contrariando (e muito!) meus sonhos de adolescente, casei-me com outro sansei gordinho, não tão baixinho, de óculos e engenheiro (já viram ser mais típico que este? hihihi) e tive dois lindos yonssei, mas para vocês terem uma idéia de quão complexa e bela é nossa cultura, entre a infância brasileira e o casamento, que para mim significou parte da recuperação da identidade japa, morei a vida toda num bairro dominado por portugueses e seus descendentes; nadei durante muitos anos na adolescência pela hebraica, junto à judeus e seus descendentes portanto; meu primeiro emprego foi numa empresa suíça, trabalhando em meio à pessoas de diversas nacionalidades e no esporte, além da natação entre judeus, passei pela capoeira de origem afro até cair no aikidô de meus ancestrais (o qual já acumulo mais de 15 anos de prática).

Agradeço, sim, à meus avós e à todos os demais isseis, pelo caráter perseverante, firme; por seus valores corretos e duros que tanto respeito conquistou dos demais brasileiros. Agradeço à meus pais e à todos os demais nisseis deste país, que abnegadamente souberam conquistar os sonhos de seus pais por um lado, ao mesmo tempo que por outro, nos proporcionaram a oportunidade de ser verdadeiramente nipo-brasileiros livres. À minha e demais gerações, cabe sabermos aproveitar este legado e tudo de bom que cada cultura oferece neste país de todos, para sermos cada vez mais cidadãos do mundo.


Enviada em: 24/01/2008 | Última modificação: 29/01/2008
 
CEM ANOS DE EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE "VENCER" »

 

Comentários

  1. Mamoru @ 24 Jan, 2008 : 14:50
    Que bom, minha prima escreve tanto quanto fala ^_^ hehehe. E você ainda vai ver seus sobrinhos mestiços e loiros... *_* / Falou bem sobre o pão que o diabo amassou, estou lendo o "Corações Sujos", de Fernando Morais, e "Brasil e Japão", de Tsuguio Shindo (curiosamente, um livro emprestado do seu pai), e francamente, o que os primeiros imigrantes comeram foi qualquer coisa amassada pelo diabo, menos pão. / E que bom que nas suas reviravoltas você voltou às origens, porque tb adoramos o seu sansei gordinho. E falando em origens, já começou a estudar nihongo? / Sabe que aprendi japonês e algumas tradições porque morávamos juntos com ditian e batian. Então, hoje, para preservar a cultura e tradições procuramos ensinar nihongo para as crianças. / O retorno às origens é um fato, à medida que envelhecemos percebemos o quão importante é preservar as raízes.

  2. Takeshi Misumi @ 28 Jan, 2008 : 01:56
    Ana Paula, Parabéns pelo excelente depoimento. Você conseguiu sintetizar tudo que efetivamente ocorreu nestes cem anos de imigração japonesa. Sou nissei e à medida que lia as bem concatenadas palavras, me sentia retratado. É ótimo saber que uma jovem sansei tem um sentimento tão nobre em relação aos antepassados. Está linda a mensagem final que você transmite a todas as demais gerações, que como você escreve para "..sermos cada vez mais cidadãos do mundo."

  3. Ricardo K @ 29 Jan, 2008 : 23:12
    Ana, legal os seus pots! Será que ainda vou resgatar mais minha identidade japoronga e terminar com uma de olhos puxados? Muito bacana também refletir sobre a evolução do conceito de vencer. Quando penso nos meus pais, noto que maior parte de nossos debates são mesmo relativos a diferentes formas de encarar o sucesso. Beijos, Rica

  4. Sílvio Sano @ 30 Jan, 2008 : 14:26
    Prezada Akemi, o seu texto Sou Sansei, já foi uma delícia de ler e definiu bem o "sansei" (sou nissei) como, superada a barreira da luta pela sobrevivência, tb um desbravador, só que, em busca de ocupar, e bem... ou melhor, muito bem, o seu espaço dentro da sociedade brasileira. Daí, quando veio com a reflexão sobre os cem anos, não resisti a te pedir para que leia (em minha história, no Pra Voltar a Ser Feliz) a canção que compus para o centenário em cima do karaokê da cantora japonesa Mariko Nakahira, com a devida autorização dela, inclusive para que Nobuhiro Hirata, cantasse e a gravasse em seu CD, lançado 2 semanas atrás. Minha canção é a síntese do que vc escreveu, ou o que vc escreveu é uma ilustração adequada à minha canção. Abraços.

  5. yukitaka @ 2 Fev, 2008 : 23:22
    Ana, surpreendente como podemos absorver estes fatos na nossa memória. Fatos estes que realmente foram marcantes e que foram sedimentados devido a profundeza dos gestos e dedicação que os nossos antepassados puderam gerir dentro de nós.Jamais imaginamos como eles foram importantes, e damos o devido valor quando eles se partem e deixa-nos um vazio enorme, mas isto é parte da vida e do aprendizado, por isso cabe a nós passar esta essência e conceitos que tanto eles nos deram a esta nova geração, uma vez que isto é fundamental para que o que os nossos antepassados tenham continuidade no trabalho feito, senão virarão cinzas e sem história.

  6. Claudio Tanno @ 28 Fev, 2008 : 21:23
    Ana Paula, parabéns pela sua história, como descreveu o que é ser nissei e sansei. Apesar do modo particular que vivenciou toda influência da imigração japonesa, reflete um padrão de vida que se repete em muitos descendentes. Sou nissei e tenho uma filha, portanto, sansei.

  7. gsjuy @ 17 Mar, 2008 : 10:32
    hkdtdgutckfvjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjj

  8. Maura Matuda @ 16 Abr, 2008 : 07:48
    Olá, minha cunhada (casada com o meu irmão) tbm é Morioka, Onesia Morioka. A Família dela é de Aguaí! De onde você é? Beijos

  9. isabel@27abril,2008 @ 27 Abr, 2008 : 18:54
    ana, também sou sansei, mas sofri muita discrimnação no japan,pois, na verdade, pertenço a outra ilha do japão,e não tenho nenhuma, identidade com, o povo daí.porém, sei que a vida, ainda nos ensina ,muitas coisas, a serem revistas.

  10. fkjhk @ 14 Jun, 2008 : 17:04
    rjyu

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