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Tomiko Gimbo

Tremembé / SP
88 anos, administradora

Buenos Aires Maru


Meu pai, Toyohei Takahashi, tinha uma boa condição econômica no Japão. Ele era herdeiro da família da esposa, que não tinha irmãos (homens). Sua primeira esposa, que era herdeira, faleceu e, para não dividir a herança com outros parentes, a família mandou que ele se casasse com a cunhada.

Mas os parentes tinham inveja e meu pai ficava incomodado com isso. Ele se cansou, disse que não queria esta herança e resolveu abandonar a segunda esposa. Com 3 dos seus 6 filhos, veio para o Brasil, e antes de viajar casou-se pela terceira vez, com minha mãe, Hazue Takahashi.

Minha mãe me contou que assistiu a um filme que mostrava o Brasil: as fazendas, com casas de colonos brancas, enfileiradas, uma maravilha. Como outros japoneses, eles pensavam em ganhar dinheiro no Brasil e voltar para o Japão.

Meus pais vieram para o Brasil no Buenos Aires Maru. Minha mãe viajou grávida de mim e passou mal a viagem toda. Ficou deitada praticamente os 60 dias e só conseguia se alimentar quando o navio parava em algum porto. Ela dizia que por isso eu havia nascido magrela.

Chegaram ao Porto de Santos e ficaram na Casa do Imigrante. Depois, foram para a Fazenda Santa Cecília, em Santa Cruz do Rio Pardo (SP), onde ficaram por 3 anos. No começo foi difícil, pois o clima era quente e não havia a comida que eles estavam acostumados: gohan (arroz), missô (pasta de soja), yasai (verdura). Eles recebiam feijão, carne-seca, café.

Minha mãe não sabia preparar café, então fazia um "chá de café", fervendo os grãos na água. Dizia que ficava gostoso. Depois, ia lavar os vasilhames no córrego, pois não havia torneira ou poço. Imagine os brasileiros olhando a japonesa jogando os grãos de café fora!

O vizinho, que não era japonês, tinha um forno de pão e minha mãe gostava de ficar olhando a fabricação do pão, achava interessante. Um dia, a vizinha deu um
pão para minha mãe. Ela ficou tão contente que pegou algumas coisas que trouxe do Japão, como batom, pó de arroz e blush, e deu de presente para a vizinha.

Meu pai arrendou um pedaço de terra de um japonês, Koga Nezawa. No primeiro ano foi muito difícil tocar, pois havia pouco dinheiro. Eu vivia na cidade, numa pensão para meninas, para ficar mais perto da escola brasileira onde estudava. A obasan (senhora) Yatani cuidava da gente. Dava moeda para a gente comprar bala. Lembro-me de ficar esperando meu pai me visitar no fim de semana. E todo domingo a gente ia à matinê do cinema. Assisti a "Zorro", "Tambores de Fu Man Chu"...

Fui à escola dos 7 aos 10 anos, até meu pai falecer, em 1944, de malária. Minha mãe disse: "Agora vai ficar mais difícil estudar, pois tem que ajudar a mamãe". Fiquei triste. No mesmo ano ela se arrependeu, mas aí eu já não queria mais voltar para a escola.

A perda do meu pai foi muito difícil para a família. Mais tarde, perderia mais um irmão por causa da malária, o Asaji. Não foram bem tratados, pois não havia condições adeqüadas. Minha mãe trabalhava de sol a sol. E eu ficava em casa, cuidando dos meus irmãos, que eram pequenos. Fazia comida, cuidava da roupa. Não sei como consegui!

Depoimento à jornalista Kátia Arima


Enviada em: 27/10/2007 | Última modificação: 29/10/2007
 
« Casamento arranjado

 

Comentários

  1. Sayuri @ 3 Dez, 2007 : 00:24
    Meus Parabéns pela sua história... eu como sansei... só tenho a agradecer a vocês por resgatarem nossa cultura e tradição... com certeza o seu relato e de todos, irão me ajudar a passar isto tudo adiante... para meus netos que ainda virão... Amei tudo que contou!

  2. Ana Maria Martins Sugimoto @ 30 Dez, 2007 : 00:11
    Tomiko ... Creio muito no amor a primeira vista. Sua presença sempre me trouxe muita paz. Hoje lendo sua vida vivida sou muito feliz de tê-la eternamente em meu coração. Seja sempre essa pessoa abençoada. Te amo muito... Ana Maria 13.11.2007

  3. Rodrigo Gimbo @ 1 Jan, 2008 : 22:41
    Oi ba!!! como toda a familia que veio do japão, voces passaram por várias dificuldades que sao dificeis de imaginar nos dias de hoje. há alguns dias estavamos conversando sobre essa história. tinha uma pequena noção da dificuldade enfrentada por voces, mas não imaginava que fosse tanto assim. hj eu aqui, só tenho a agradecer por tudo que enfrentou, pois se hoje estou aqui é por causa de vc!!! Rodrigo Gimbo

  4. Yassuda Renato @ 11 Jan, 2008 : 09:39
    Prezada senhora Tomiko; Parabéns pelos seus depoimentos e por sua coragem de enfrentar com tanta força de vontade as dificuldades da vida. São belos exemplos como o da senhora que dão beleza a vida.Sou nascido em Taubaté mas não moro na região à mais de 20 anos pois desde que me formei, fui para onde as oportunidades profissionais me levaram.Sinto por não te-la conhecido pessoalmente pois para mim seria uma honra. Que a vida lhe proporcione muitas alegrias.

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