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Adilson Tokita

São Paulo
56 anos, Produtor executivo de TV

Oditian


Oditian dá sinal para o ônibus que nos levará ao Zoo e entram umas 10 crianças japonesas, netos, entre 5 e 12 anos.
Vão, também, duas ou três filhas dele junto.
Oditian paga todas as passagens e vai lá p/ frente, fica de pé ao lado do motorista.
Vemos e ouvimos os dois rindo: Oditian mais alto, impossível rir mais alto que ele.

Madrugada, todos são acordados pelo Oditian, vários primos, tios, tias.
Tomamos um café fora de hora e vamos a pé até a esquina onde um ônibus fretado nos espera.
Vamos à praia, nós e metade dos oditians e obatians da Pompéia.
Praia, um pouco de praia e depois do bentô, todos se reúnem numa grande roda e começam a cantar e bater palmas.
Meu 1º karaokê e eu nem sabia o que era.
Só sei que eles se divertiam a valer.

Oditian era frequentador assíduo de casamentos e enterros.
Fazia miai, ia a muitos casamentos que ele mesmo arranjou.
Ia a muitos enterros de amigos que foram antes dele.
O que me lembro é do figurino: terno e tênis.
Quem diria, modernérrimo, já nos anos 70.
Mas, pouco se importava, afinal a joanete doía prá caramba.

Jogador contumaz, baralho principalmente.
Dizem que perdeu fazenda, senhor do café... não consigo nem imaginar.
Depois disso, abriu um restaurante que também abrigava uma mercearia.
Oditian vendia fiado e nem sempre via o $$ de volta.

Festas, adorava fazer festas.
Festas com comida, normalmente muita comida que ele mesmo preparava.
Recebi de herança as suas panelas de feijoada e sukiaki. E agradeço eternamente, o gosto pelas festas.

Morreu, com quase 90 anos.
Na partilha dos objetos, meu tio mostra fotos e desenhos japoneses não apropriados à crianças.
Sabia que ele tinha, tinha quase certeza, mas é destas coisas que não se pergunta à um Oditian.
Ele mesmo não disse, mas deu um jeito para eu descobrir.

Lembro destas histórias e me pergunto por que ainda estão na memória?
Diria que não são histórias típicas dos japoneses, mas são histórias de japoneses.
Como também, histórias de outros povos que, graças aos deuses, por aqui continuam a fazer este caldo.


Enviada em: 28/01/2008 | Última modificação: 29/01/2008
 

 

Comentários

  1. Silvana Tokita @ 30 Jan, 2008 : 13:20
    O café da manhã do Oditian: em um copo 3 ovos quentes moles, bebidos como se fosse chá! Por isso que era alegre e feliz, não sabia o que é colesterol! Também não escovava os dentes. Nem precisava. Já tinha um sorriso natural e um carisma que conquistava muita gente. Tinha milhões de amigos!!! E suas festas de aniversário não eram festinhas. Eram festonas como se fosse de casamento, com muitos discursos. E lá ia eu, na frente daquela multidão, discursar em nihongo o texto decorado durante a semana. Eu já fazia homenagens a ele e nem sabia.

  2. Silvana Tokita @ 30 Jan, 2008 : 13:32
    Também tenho saudades da Obatian e do seu bolinho de panela que ninguém sabe fazer. As minhas visitas à Pompéia eram um ritual. Acendia osenko, limpava o tapete da sala com a vassoura mágica e ficava vendo aqueles bichinhos com amendoim num pote de vidro. Ouvia o relógio na parede soando fortes badaladas e na hora de ir embora ela me dava uma sacolinha com balas ou bolachas. Eu sempre voltava para casa feliz da vida!!!

  3. Luci Suzuki @ 5 Jun, 2008 : 08:55
    Sr. Tokita, lí com grande simpatia sobre o personagem que deve ter sido o seu Oditian. E quem diria, um visionário com seu estiloso terno e tênis, já havia suplantado os dolcegabbanas, armanis e os próprios netos (rs). Devia ser um empenhado ativista de encontros, de cujos traços, encontro semelhança com alguns oditians que frequentavam a casa do meu pai. Na roda havia sempre um teimoso, um conciliador, um bem-humorado, um polêmico ou um reservado. De certo todos haviam algo em comum com o seu Oditian: organizadíssimos, qdo se tratava de promover um evento. Com o mesmo senso de responsabilidade de uma reunião dos G-7! Grandes, esses homens! Um grande abraço, Luci

  4. Rita de Cássia Arruda @ 14 Jun, 2008 : 11:48
    Caro Adilson: Seu oditian deve ter sido mesmo um sujeito admirável; um “figuraço”. Sorte a sua que teve a oportunidade de conviver com ele e de a seu lado desfrutar momentos tão agradáveis, juntamente com os amigos e demais membros da família. Só quem teve um avó carismático assim como o seu sabe a saudade que eles deixam quando não mais se encontram entre nós. Eu também tive o meu e o amava de paixão. Era simplesmente mimadíssima por ele. Não cheguei a herdar panelas, como você, mas jamais esqueci o gosto dos bifes que somente ele sabia preparar. O riso solto, o jeito “modernoso” de ser (terno e tênis na década de 70), o espírito alegre e festivo etc e tal justificam plenamente a homenagem que você prestou aqui a seu avó. Obrigada por compartilhar conosco sua história. Um abraço.

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