Olá, faça o Login ou Cadastre-se

  Conte sua históriaJuliana Sayuri Ogassawara › Minha história

Juliana Sayuri Ogassawara

Ribeirão Preto / SP - Brasil
24 anos, Jornalista

Menina dos olhos


Às vezes, queria que meus olhos não me desmentissem minha identidade. É real e usualmente vivido, porém, o caso de aos olhos de outrem minha cédula de identidade caracterizar um documento de papel dúbio. Lá diz: Juliana Sayuri Ogassawara e mais uma série de números que comporiam minha personalidade civil e, principalmente, caracterizariam minha nacionalidade brasileira. Ora, é realmente difícil autenticar esse papel se no cotidiano é-se apontada “japonesa”.
E esta é minha sina: nasci a 2 de junho de 1986, cá no solo sul-americano, mas para sempre levarei em meus olhos puxados a história de minha família nipônica. Diria até que eternamente pesará em minhas costas a memória da tessitura mestiça de duas etnias, compondo o que os estudiosos designam identidade hifenizada, no caso, nipo-brasileira. Lembro o que li sobre o início de toda esta História:

"Tudo começou quando o enviado especial para assuntos de imigração aportou em Santos, interessado em despachar da Terra do Sol Nascente os súditos do Trono do Crisântemo. A chegada de Sho Nemoto, na última semana de setembro de 1894, colocou-o frente a frente a um Brasil tão ávido por imigrantes quanto temerosos deles".
(LESSER, 2001, p.153).

À época da colônia, vieram ao Brasil núcleos de alemães, franceses, ingleses, suíços e israelitas, claro, sem esquecer dos portugueses e espanhóis. Com as leis abolicionistas no final do século XIX, novos “braços para a lavoura” eram a demanda para a mão-de-obra na cafeicultura, uma vez que o fim definitivo da escravatura era visto como uma “questão de tempo” e os fazendeiros precisavam do trabalho braçal para os cafezais, desta vez, nos moldes de trabalho livre. Assim, para São Paulo principalmente migraram italianos, sírio-libaneses e japoneses para suprir o trabalho dos escravos nos campos, além de correntes nacionais de nordestinos e mineiros . Atraídos pelas “bem-aventuradas oportunidades”, famílias e multidões de indivíduos compuseram um montante imigratório:

"[...] vindos de todas as partes do Brasil, dos países platinos e dos quatro cantos do mundo. Vieram como puderam, com ou sem haveres, com ou sem conhecimentos especializados, atraídos pelo eldorado do café, a cidade do ‘ouro vermelho’. Ao chegar não encontrariam sequer uma cidade; teriam que improvisar suas habitações e suas vidas, enfrentando um volume inexorável de contrariedades".
(SEVCENKO, 1992, p. 30)

Nesse ínterim, o início do século XX marcou o ponto inicial da imigração japonesa para as terras brasileiras:

"Na manhã de 18 de junho de 1908, o Kasato-Maru completou sua viagem de 51 dias e vinte mil quilômetros do Japão até o porto de Santos, trazendo às costas brasileiras os primeiros 721 integrantes do que viria a ser a maior colônia japonesa fora do Japão".
(LESSER, 2001, p. 159).

O estímulo ao movimento imigratório se dera inclusive por iniciativa do Estado, construindo um atrativo simbólico de uma nova “terra de oportunidades”. E nesse contexto os imigrantes japoneses vieram para cá para desfrutar das benesses do Brasil, mas a princípio pretendiam retornar à “Terra do Sol Nascente”.
Apesar de visarem o retorno ao Japão, muitas famílias fincaram raízes aqui no Brasil. E, assim, os imigrantes japoneses e os nikkeis participaram da construção de uma identidade multifacetada, a nipo-brasileira . Dizendo nessas linhas, a impressão de se abordar uma mescla étnica e cultural harmônica é ardilosa. Mas é uma falácia pensar que as afinidades pudessem ser tão imediatas e espontâneas. Diplomatas brasileiros muito se dedicaram para lapidar os laços de harmonia entre as duas nações tão díspares culturalmente. O que havia à época e o que ainda se labora atualmente são justamente as negociações simbólicas por uma identidade híbrida.
E assim três razões capitais nortearam esse estudo. Razões pessoais, vale dizer. Primeiro: Recordo-me que, na infância, inúmeras vezes tive que reprimir as lágrimas porque as crianças da escola apontavam para mim e riam e questionavam meus olhos pequeninos e finos. Aí esteve meu primeiro sentimento de ser “especial”, diferente ou esquisita. Mas, claro, as crianças merecem anistia desse pecado por sua inocência pueril. Além desta vez, também na adolescência senti-me diferente porque enquanto minhas amigas bamboleavam as digníssimas ancas, diria Freyre, meu corpo líneo se mantinha assim sem curvas. Desde a época e até o presente, a saliência se resume às minhas delineadas maçãs do rosto. Logo, e adulta, noto que a fisionomia asiática possibilita uma caracterização instantânea: os olhos puxados, a estatura e o formato do crânio. Quem ainda imagina a mulher brasileira só por seus quadris voluptuosos e sua pele bronzeada deve se espantar com minhas características corpóreas.
O segundo motivo – e talvez o mais forte – está em todos os lugares, nos livretos de história, na mídia, nos livros acadêmicos. Sempre lamentei o esquecimento de minha etnia na composição do povo novo brasileiro, porque vi diversas obras na universidade que ficam estanques apenas nas três matrizes principais: brancos, negros e índios. Mas fiquei feliz ao pensar que o antropólogo Jeffrey Lesser entenderia: “Os imigrantes não-europeus, em geral, têm sido ignorados pela historiografia, uma lacuna surpreendente, uma vez que se trata de milhões de pessoas” (LESSER, 2001, p.9-10).
Discuti, e não só uma vez nos tempos de colégio, sobre a obra-prima de Mário de Andrade. Ora, sou tão brasileira quanto o Macunaíma! E nesse País não quero só uma cidadania vã, não me contento em ser brasileira em tese. Nasci nesse Brasil imenso e queria que, no dia-a-dia, minha identidade brasileira fosse considerada e não só em tempos de Copa do Mundo, carnaval e afins.
Com o boom migratório no princípio do século XX destino aos solos tupiniquins, todos os imigrantes traziam uma cultura pré-migratória e aqui criaram novas identidades étnicas, pós-migratórias. Foram os 400 mil asiáticos, árabes e judeus “que mais puseram em xeque as idéias da elite sobre a identidade nacional”. Porém:

"As etnicidades trazidas e construídas por esses imigrantes eram situacionais, e não “identidades primordiais imutáveis”. Em diversos momentos, os imigrantes e seus descendentes puderam abraçar sua “niponicidade” ou sua “libanicidade”, tanto quanto sua 'brasilidade'"(LESSER, 2001, p.27).

Octávio Ianni considera os japoneses entrados no Brasil no século XX “um capítulo especial, às vezes como um grupo que se torna importante na população do estado de São Paulo” . No povo brasileiro, sei que a parcela de amarelos é uma minoria, um episódio à parte. Mas insisto que nossa etnia deveria ser mais considerada especialmente no âmbito da cultura.
O último ponto que guia esse artigo é o ano de 2008, para o qual se aguarda um calendário repleto de celebrações do aniversário oficial de um século da imigração japonesa para o Brasil. A partir deste ano, a Editora Abril, o site Novo em Folha e o Museu Histórico da Imigração Japonesa estão organizando festividades para a data. Ao selar 100 anos de relações internacionais amistosas, espera-se que esta festa possa pôr em evidência questões antropológicas a respeito da identidade nacional: “O quão ‘japonês’ poderia ou deveria ser um ‘brasileiro’? O quão ‘brasileiro’ poderia um ‘japonês’ ser?” . Comemorar esse centenário é uma oportunidade para dar tônica e relevância à cultura nipônica em si e simultaneamente mesclada à brasileira.
Portanto, é com esse sentimento de alteridade que busco nessas linhas ensaísticas rememorar a trajetória de minha família materna. É uma atividade intelectual, mas, ao mesmo tempo, é com certeza sentimental. E:

"A força da família, do ritual à mesa; da assinatura da educação, da visão de mundo oriental; as digitais da arte, da iconografia de um alfabeto tão distinto; as marcas da cooperativa, da comunidade econômica; os significados coletivos da competitividade, do esporte; a transcendência da morte – eis um itinerário em que curiosos de outras origens ou descendentes diretos de japoneses foram levantar, com a delicadeza que merece, o Perfil do Outro" (MEDINA,2001, p.8).

Será que para sempre serei o Outro no solo brazuca que nasci?

* Ensaio destinado à disciplina Cultura Brasileira, da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho

* A quem quiser ler mais estudos acadêmicos sobre a cultura japonesa, indico obras as quais cito no ensaio:

BENEDICT, Ruth. O crisântemo e a espada: Padrões da Cultura Japonesa. São Paulo: Perspectiva, 1972. César Tozzi (Trad.).

FREYRE, Gilberto. Modos de homem & modas de mulher. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1987.

GOUROU, Pierre. Extremo Oriente: La tierra y el hombre em Extremo Oriente. Bilbao: Ediciones Moreton, 1967. (Serie Panoramas de la geografia universal).

HOLLOWAY, Thomas. “A corrente migratória”. In: Imigrantes para o café: Café e sociedade em São Paulo, 1886-1934. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.

IANNI, Octávio. A idéia de Brasil moderno. São Paulo: Brasiliense, 1996.

LESSER, Jeffrey. A negociação da identidade nacional: Imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade no Brasil. São Paulo: Editora Unesp, 2001. Patrícia de Queiroz Carvalho Zimbres (Trad.).

MAFFESOLI, Michel. No fundo das aparências. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1996. Bertha Halpern Gurovitz (Trad.).

MAFESSOLI, Michel. Sobre o nomadismo: Vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro: Record, 2001. Marcos de Castro (Trad.).

MATTHEWS, Gordon. Cultura global e identidade individual: À procura de um lar no supermercado cultural. Bauru: Edusc, 2002. Mário Mascherpe (Trad.).

MEDINA, Cremilda (Org.). Viagem ao Sol Poente. São Paulo: Eca-Usp, 2001. (Série São Paulo de Perfil, 18).

SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole: São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.


Enviada em: 18/12/2007 | Última modificação: 18/12/2007
 
Família Kasai »

 

Comentários

  1. Bruno Espinoza @ 20 Dez, 2007 : 00:58
    Graças a essa trajetória conheci Momô! eee!

  2. Thomas Suzuki @ 2 Abr, 2008 : 12:53
    Parabéns! Ótimas referências e síntese

  3. Renato Yassuda @ 3 Abr, 2008 : 14:21
    Prezada Sayuri; Parabéns pelos comentários e por compartilhar conosco. Particularmente essa parte de seu relato: "Experiências cá e ali. Esta é talvez a mais preciosa virtude dessa família de nipo-brasileiros. E o encontro das duas culturas é uma experiência de vida que sinto na pele todos os dias, como uma menina dos olhos puxados e de pupilas que se dilatam e se retraem no pôr-do-sol que é o oeste." é de um grande significado para todos os descedentes de imigrantes, como você e nós nipo brasileiros. Se puder leia também meu relato. Ficarei honrado e grato. Atenciosamente; Renato Yassuda

  4. Jaqueline @ 22 Mai, 2008 : 18:05
    Oi tudo bem?? Gostei do seu texto...Poderia ter mais informacoes?? Me add no msn.... brc-matao@hotmail.com Obrigada

  5. Bianca Giannini @ 17 Jun, 2008 : 15:49
    Olá, Juliana, gostaria de falar com você por telefone. Sou jornalista e moro em BH e estou fazendo uma matéria para uma revista aqui de MG, sobre as influências da cultura brasileira sobre os japoneses que vieram para o Brasil. Por favor, me envie o seu contato logo que puder. Tenho que fechar esta matéria até o fim da semana. Abraço, biancagm@globo.com

  6. Flávio Fernando Ogassawara @ 6 Mai, 2009 : 16:54
    Oi Juliana: Gostei da matéria sobre a imigração, mas na verdade estou te escrevendo pois gostaria de saber (caso tenha esta informação)de quantos Ogassawara (ss) vieram na imigração. Estou fazendo a genealogia de minha família e para não conflitar existe também os Ogasawara (s). Vi que seu sobrenome é com dois "s". Quem sabe não somos parentes? Obrigado. Flávio F. Ogassawara marke_t@yahoo.com.br

Comente



Todo mundo tem uma história para contar. Cadastre-se e conte a sua. Crie a árvore genealógica da sua família.

Árvore genealógica

Histórias

Vídeos

  • Nenhum vídeo.

| mais fotos » Galeria de fotos

Áudios

  • Nenhum áudio.
 

Conheça mais histórias

mais perfis » Com a mesma Província de origem

 

 

As opiniões emitidas nesta página são de responsabilidade do participante e não refletem necessariamente a opinião da Editora Abril


 
Este projeto tem a parceria da Associação para a Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil

Sobre o Projeto | Cadastro | Fale Conosco | Divulgação |Termo de uso | Política de privacidade | Associação | Expediente Copyright © 2007/08/09 MHIJB - Todos os direitos reservados