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Amalia Arasawa Burlim

São Paulo / SP - Brasil
33 anos, Farmacêutica

Família Otojiro Nomura


Meus avós maternos, Otojiro e Kiku Nomura, desembarcaram no Brasil em 1934, praticamente recém-casados, vindos de Oita-Ken.
Eles logo foram destinados para as fazendas de café da região do Vale do Paraíba. Minha avó no Japão era parteira e teve que abandonar tudo para seguir o sonho do meu avô de prosperar no novo continente.
Meus avós tiveram suas quatro filhas no Brasil - Taeko, Reiko, Keiko e Sueko. Minha mãe, a segunda mais velha, conta que era levada bebezinha para a fazenda, ficava praticamente o dia todo descansando à sombra das árvores, aos cuidados de sua irmã 4 anos mais velha, enquanto meu avô e minha avó trabalhavam na lavoura.
Meus avós não aguentaram por muito tempo a vida no campo e logo partiram para S. Paulo, indo morar primeiro na Vila Carrão e depois na Freguesia do Ó.
Os tempos continuavam difíceis, e meu avô se tornou vendedor ambulante. Ele saía todos os dias com uma mala enorme e vendia principalmente cosméticos para a comunidade japonesa.
Minha avó cuidava da casa, e era a que mais sofria, se alimentava muito mal. Isto porque, como o dinheiro era curto, a prioridade na alimentação era do marido, depois as filhas, e, o que sobrava ia para a esposa. Na época da segunda guerra, minha mãe conta que o café da manhã consistia de um pão filão (baguete) e meio litro de leite, para alimentar 2 adultos e 3 crianças. Para compensar a falta de alimento, minha avó complementava dando às filhas água do cozimento do arroz.
Minha mãe chegou a iniciar o Nihon-gaku (curso da língua japonesa), mas era época de guerra e Getúlio Vargas mandou fechar todas as escolas de ensino de japonês. Por toda a vida ela sofreu bastante discriminação das pessoas por ser japonesa e assim desenvolveu certo bloqueio com a língua. Fala muito pouco o japonês, esqueceu a maioria das palavras, mas o português é perfeito.
A grande diversão do meu avô era jogar shogui (espécie de xadrez japonês) com os amigos e ir ao cinema, sozinho. Minha avó chegou a aprender artesanatos e confeccionar chapéus.
Meus avós nunca se deram ao luxo de ir a um médico, e provavelmente por isso foram embora tão cedo, meu avó com 68 anos e minha avó com apenas 52 anos.
Neste contexto todo, minhas tias mal tiveram oportunidade de estudar, e com exceção da caçula que chegou ao nível superior, somente cumpriram o ensino fundamental. Felizmente, a geração seguinte foi mais bem-sucedida e eu e meu irmão conseguimos frequentar a universidade pública, adquirir razoável nível sócio-econômico e cultural e possivelmente prepararemos melhor o terreno para nossos descendentes.


Enviada em: 08/01/2008 | Última modificação: 09/01/2008
 
« Estrangeira sem ter saído do país

 

Comentários

  1. paulopessanhaadv@gmail.com @ 9 Jan, 2008 : 14:49
    Parabéns pela história de seus avós. Isto nos ajuda a dar mais valor a nossa vida e a superar nossas ínfimas dificuldades.

  2. Amalia @ 10 Jan, 2008 : 00:46
    Paulo Obrigada, para mim está sendo uma honra participar deste projeto e deixar documentada a trajetória da minha família. Histórias de imigrantes e migrantes, todas elas, são lindas, pois são frutos do sonho e das esperanças das pessoas. Abraços

  3. Iara @ 27 Mai, 2008 : 15:32
    É uma história de um povo guerreiro pois hoje muitas pessoas não tem a garra que eles tiveram, se desesperam por pouco.Que Deus lhes fortaleça sempre. Iara - MauáSP e Uberaba MG

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Este projeto tem a parceria da Associação para a Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil

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